segunda-feira, 2 de julho de 2012

A conjectura de Syracuse



Se eu lhe contasse
o que ocorreu hoje

Você acreditaria?

Meu pai esteve comigo hoje
e disse: “Muito bem filha”


Se eu lhe contasse que acordei cedo

em pleno domingo
Morrendo de sono

Ainda com os olhos

cheios de remela
 do ontem mal vivido

Se eu lhe contasse que ainda nem eram oito horas 
e meu pai chegou com uma serra
a melhor 
de sua mala de ferragens e disse:
“Veja como se faz”





 Eu ainda tentei
mas não sei
quando dei por mim
já estava aberto
e não houve barulho de serra alguma



Se eu lhe contasse que não tive medo

e entrei no terreno que me foi dado
e tirei os entulhos
podei as plantas
enquanto compreendia as mãos
sujas de terra do meu pai

 Se eu te contasse
que quando a escada
que coloquei no tronco da árvore
virou e eu em cima com uma enorme tesoura
senti quando a mão do meu pai me puxou
e me jogou para o outro lado
o lado seguro 
Minha filha correu e eu
Ouvi a sua voz dizendo:
“Agora chega”
Não! Ainda não era hora


Se eu te contasse

como compreendi
que tendo perdido meus entes queridos
agora despertos do sono
em uma recompensa tardia
De uma outra existência
em que Deus seria afinal justo
depois de ter sido feroz



 Não lhe contei?
Contei sim
Você não ouviu
tentei falar
quando por fim você tirou o telefone do gancho
para nunca mais ouvir


E eu ainda insisti e te acordei
E te acordei de manhãzinha

Para te contar

E você não ouviu
Preferiu tentar provar a conjectura de Syracuse


Te contei sobre a porta

sim, te contei
Você não ouviu
Sim,
Há uma porta nessa vida
Sempre poderemos abri-la
e passar para o outro lado

Te contei que agora caminho

De alma livre

e coração tranquilo
E nada mais tenho a temer

Pois atrás de mim

há sempre uma porta
que nem os demônios sonhados
podem fechar

MlailinLEÃO




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