domingo, 1 de fevereiro de 2015

Palhaço vassourinha, Damião, Blá blá blá




Damião, vassourinha, blá, blá, blá


Você foi desprezado por muitos que diziam ser seu amigo, mas que ao te encontrarem na estrada ou em algum lugar onde existiam pessoas mais “interessantes” do que a sua triste e ao mesmo tempo engraçada figura, faziam de conta que não estavam te vendo. Naquele momento você abaixava a cabeça levemente acometido por uma leve tristeza. Não só você (por morar em uma cidade pequena, uma vila, o desprezo era algo muito nítido, muito claro, as amizades por interesses ficavam expostos à luz do sol e não da lamparina) mas, todos aqueles que não foram agraciados pelo “sucesso” eram desprezados e acabavam montando um pequeno grupo de amigos. É claro Dami, que fique bem entendido, você não tinha uma casa digna de ostentação, morava de favor em uma porta no segundo portal, e muito menos tinha um carro com tração nas quatro. Talvez esse tenha sido o motivo de sempre você estar lembrando a todos eles: “Você lembra o palhaço vassourinha do programa Raul Gil? Pois então, sou eu!”


Lembro sempre dele enquando caminho e sinto a dureza dos corações pairando no ar que respiro. Pensei em ir até o cemitério e tirar outra foto do lugar em que estão depositados os seus ossos. Mas aquilo lá é tão deprimente, abandonado, caindo os pedaços. E depois você não está lá. Então, fui ao google atrás de uma foto sua. Encontrei uma e embaixo essa infeliz e chula escrita: “Ali na praça central, num canto, José Damião Cardoso, 74 anos, vê. É um sujeito baixinho, andrajoso, um metro e sessenta, cabelos grisalhos à la bozoneta, de nariz arredondado, uma bolinha de cravos na ponta. Ex-palhaço Vassourinha, diz que trabalhou com Manoel de Nóbrega, Barros de Alencar e Chacrinha. Conheceu o ex-presidente Jânio, de quem tomou emprestado o lema do “varre, varre”. Hoje, vive de pequenos trabalhos em Monte Verde. Varre, pinta, conserta, planta. E observa aquelas atletas jovens, que correm e são aplaudidas: “Eu gosto de ver esses eventos. Me lembra quando eu fazia show pra mais de cinco mil pessoas. Putz, meu, você precisava ver. Era uma coisa. Bonito, bonito. Essas mulheres fazendo tudo isso. Dá até saudade do aplauso, sabe? Mas tudo bem. Só vou sarar de um problema nas costas que tive ao cair de uma escada e pode anotar aí: vou voltar”. Diante de mulheres celebradas e líderes, Damião vê e promete. O homem varre, varre...”




Conheci Damião no hotel Itapuá. De vez em quando eu me pergunto que fim levou Andreas Wagner e Cristina e aquele casal de caseiros tão simpáticos. Como era mesmo o nome deles? Tem horas que dá um branco tão angustiante!

Fiquei longos anos sem retornar a Vila, vez ou outra quando eu perguntava discretamente para alguém sobre você, diziam que estava bem doente. Imaginava que era o seu antigo problema de juntas. Junta tudo e joga fora, como você mesmo dizia. Um dia você foi “sequestrado”, no bom sentido. Um dia você foi convidado a arrumar a mala e seguir um turista formado em medicina. Você foi com ele até um hospital em Sorocaba. Lá você fez todos os exames do bom e do melhor e depois recebeu o veredito. Voltou com todas as orientações sobre o tratamento e os remédios como brinde. Colocou tudo em uma gaveta, fechou e fez questão de perder as chaves. E ali terminou seu tratamento hospitalar. Você é assim como eu.


Agora, descalça, sentada na grama molhada depois da chuva, fico pensando ... Você não poderia ter feito isso comigo. Poderia ter esperado que eu terminasse meu tempo de exilio. Ainda não era a hora de você ter sentado naquele tobogã e ter visto as luzes brilhantes te chamando para a ilha do arco íris, em nuvens voando para cima. E você simplesmente fechou os olhos e seguiu com seu espirito da mata em direção ao sol, deixando em mim uma angustia estreita e funda...
Marcia Lailin


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