Segunda-Feira, 13 de janeiro, 10:59hs - Mensagem para Margarida
- Bom dia. Sua casa foi poupada? Esta nela agora? Nos conseguimos entrar, eu preciso de algumas informações que talvez você possa fornecer.
- Hi Ana, How are you?
- Não. Tudo ficou pior do que antes. O bairro que eu amava caminhar praticamente desapareceu. Sobreviveu 20% dele. Foi muito triste. Esta sendo muito triste. Eu tinha dificuldade de me adaptar a esse pais em virtude da indiferença e de repente me vejo unida na tristeza. Mas o mundo todo esta assim e isso não é novo. Interessante que as etapas do viver cada dia se tornam pior principalmente para os lúcidos. Antes a nossa felicidade era comer, isso nos foi tirado. Depois nos apegamos ao dormir, isso também nos foi tirado. Vivemos o pesadelo de estar acordados e de dormir em constante sobressalto com os olhos arregalados.
- Call me if you can
Ligar para quê? - Pensou - Para ela tentar me conversar a voltar para as aulas de inglês? Para que? Para preencher uma vaga? E ser um número?
Lembrou do e-mail que tinha escrito a um professor que tinha visitado a classe no mês de outubro e que tinha feito com ele uma certa amizade, pois ele havia pedido que escrevessem algumas coisas sobre cada um e cuja relação se compunha ao total de nove questões, o que escreveu foi relatos que mais agradou ao senhor professor. O e-mail dizia o seguinte:
Good Morning Mister John
Escrevo
para avisar que não frequentarei mais as aulas ministradas pela Sra. Modesta.
Esta não é a primeira vez que desisto, mas sim a terceira e última vez. Nas
outras duas vezes, atendi o telefonema dela e retornei. As aulas não me
ajudaram tanto quanto eu queria. Não porque não quisesse, mas por falha de quem
os ensina, porque não existe método de ensino, formação ou preocupação mais
profunda com quem nada sabe ou sabe pouco. Livros e cadernos foram distribuídos
logo no início do curso, os quais eram utilizados pelo instrutor apenas uma vez
e nunca mais. O que há são aulas de conversação com quem sabe, ou então são
mais de 40 minutos dedicados a conversas inúteis contando fatos pessoais ou
acontecimentos da vida privada do professor. E assim os minutos restantes são
dedicados a quem sabe se expressar em inglês. Sinto-me um idiota nessas aulas,
coisa que não sou. E assim me vi buscando outros caminhos, fechando essa porta
que a livraria do bairro me proporcionou.
Desejo-lhe
saúde e paz e um feliz ano novo.
Capirtulo II
Pensando bem, ela só teve dois momentos bons nas aulas que começaram em agosto e terminaram em dezembro por sua decisão. O fim aconteceu em uma aula. Foi antes de terminar o horário, ela pediu para sair, pois não aguentava mais aquele tormento. Inventou a desculpa de que seu companheiro estava lá fora chamando. Ao levantar para sair ouviu um aluno, um senhor, um sabe tudo dizendo: "Vai com Deus". Se teve as melhores das boas intenções não soube pois não via coração. Sentiu que aquilo lhe soou como algo sarcástico, uma zombaria. Deve-se admitir que o sarcasmo brando pode ser
engraçado. Embora ela não tenha achado pois essa é a forma que o outro tenta passar, para sair sem mácula do seu objetivo. A segunda forma, fica registrado no olhar de quem a profere e isso é difícil de esconder, sem falar no leve sorriso cínico no canto da boca que é: O cão de nome "sarcasmo” originário de uma palavra
grega que significa literalmente “dilacerar carne como cães. Assim como um cão
utiliza seus aguçados caninos para arrancar carne dum osso, a pessoa sarcástica
pode despojar outra de sua dignidade. O âmago do sarcasmo . . .
é a declarada hostilidade ou desprezo.” Pouco importa se é um ataque direto,
uma descortesia sutil ou um lapso da língua. Um comentário rude, sarcástico,
faz de alguém um objeto de zombaria — uma vítima. Ouviu aquele vai com Deus como se fosse a melhor das intenções sem responder, seguiu até a saída e não mais voltou. Afinal não iria bater tambor para malucos. O primeiro bom momento que teve em uma dessas aulas que se compunham de quatro horas por semana com duas horas de duração foi quando a professora distribuiu a todos um jornal da região. Um jornal de noticias com um inglês fácil para gente como a gente. Quando chegou em casa começou a fazer a tradução e a devorar a informação o que achou muito interessante. Desde antes de aqui estar já pensava no que queria conhecer e uma das coisas era Deserto de Monjave, o vale da morte, o nome é feio mas o local é lindo. E depois a falha de San Andreas, precissava olhar com seus olhos e ver o que pode acontecer caso a terra trema e se abra em enormes rachaduras, um big one. E foi exatamente isso que encontrou na primeira página desse jornal. O titulo do artigo era Drop, cover, and hold on! Solte, cubra e segure. O artigo explicava aos seus leitores o que deveriam fazer se o chão começar a tremer sob seus pés. Ela traduzia o artigo devorando as informações. Na aula seguinte somente Ana tinha preparado a lição de casa, somente ela tinha perguntas a fazer. Fazia na sua língua portuguesa parecida com o espanhol nativo da professora. E o assunto acabou sem mais nenhuma participação. Ninguém queria saber disso. Para seu desgosto e decepção, pois não ocorreu perguntas, exceto as suas, não ocorreu um debate mas um monologo, não foi anotado palavras que não deveriam ser esquecidas, exceto as suas para si própria, não teve lição de casa e assim cada um deles levou aquele dia para o esquecimento exceto ela que ficou dias e dias com aquilo na cabeça desejando ir até a NASA e pedir a ele que explicassem a ela, se a única saída era cumprir aquelas regras e depois se esconder debaixo de uma mesa. Bem que tentou, afinal a NASA estava ali bem perto dela e um dia ela seguiu pelas ruas que levavam até a porta principal, mas ali foi barrada por homens de uniformes, que pareciam armados até os dentes e que a fizeram retornar pela mesma rua que chegou. A segunda vez foi a visita do professor de literatura de nome John. Ele distribuiu a cada aluno uma relação com nove títulos onde deveriam escrever sobre cada um deles onde contariam a suas histórias de vida. Deveriam escolher um tópico e escrever sobre ele. Em sua sofreguidão pela escrita escolheu todos os títulos e começou ali mesmo na sala de aula, enquanto o resto falava sobre alguma coisa sem importância, mas que parecia de suma importância para eles, e aproveitando o fato viajou para o seu passado pois não sabia contar uma historia que não estivesse entrelaçado com ele. Os nove itens eram: 1- Descreva uma pessoa memorável. 2- Descreva um lugar. 3- Descreva uma foto. 4- Descreva um objeto 5- Descreva quando você escolheu uma direção em vez de outra em sua vida. 6- Escreva sobre seu trabalho. 7- Descreva uma refeição memorável. 8- Descreva um história memorável que você leu ou foi contada. 9- Descreva uma memória não mencionada acima. Fez todos os nove itens, mal se importando se no pedido era uma somente. Era assim que fazia sua catarse, era assim que aprendeu na faculdade de psicologia quando se internou, quando sua mãe morreu e ela se viu obrigada a passar todas as tarde dentro daquela sala mergulhada nos livros de Freud e seus discípulos a procura da causa do câncer psicossomático de sua mãe pois não queria também morrer, não daquela forma, em dor. Depois disso o professor ficou surpreso com tudo aquilo e a escolheu para ser seu tutor, o que nunca aconteceu, pois dezembro chegou e com ele as férias e depois janeiro e com ele os ventos de Santa Ana e o incêndio que se abateu sobre o bairro fazendo dele quase todo em cinzas. E quando depois do fogo mandou a mensagem para a professora não sabia se queria ouvir dela que sua casa tinha sido poupada ou se estava no chão. Porque seu pensamento era uma maldade só, no que dizia respeito a casa da teatcher, e por outro lado havia ficado aliviada quando soube que a biblioteca havia sobrevivido e a igreja Adventista do sétimo dia também, embora todo o resto havia se perdido. Agora enquanto pensa já não tem muita certezas de nada, mas sabe que não é pura e nem santa. E quem é? Pergunta ao universo enquanto faz suas orações olhando para as montanhas de São Gabriel.
Capitulo III
Foi por volta do dia 04.01.2025, que seu marido chegou e disse
- Esta vindo um vento quente e seco que sopra na Califórnia
- Tudo bem - Respondeu sem se preocupar, sabia que estava em um país onde acontece nevasca, terremotos, furacão, tornado, incêndios, terrorismos.... que mais?
Foi somente em fevereiro exatamente depois do nascer do dia 09.01 que foi procurar saber que raios foi aquilo, que vento foi aquele que ninguém esperava, que ninguém alertou que seria devastador, que seria perigoso, triste e mortal. Ninguém nunca espera nada, esperamos somente coisas boas, porque imaginamos estar protegidos pelo governo, pela nossa casa, pela nossa inteligência, pelos céus e pelos deuses. Coisas ruins e estranhas só acontece com o outro, em outro país despreparado. A natureza é pior que uma guerra, pois em uma guerra os civis são retirados. É pior ou igual que uma epidemia, uma bomba jogada em nossas cabeças, não é um imprevisto que sobrevêm a todos, é uma tragédia anunciada embora de forma tranquila, e somente depois que passa compreende-se a devastação. Algo do tipo seja o que Deus quiser, joga-se na mão dele, esperando o bem ou o mal como se ele jogasse dados com o universo.
Esta registrado em seu computador, em suas pesquisas:
Ventos de Santa Ana.
O
vento de Santa Ana é um vento quente e seco que sopra na Califórnia.
Características
É
um vento quente e seco que sopra na Califórnia.
É
um vento que sopra na região central da Califórnia.
É
um vento que sopra na região central da Califórnia, principalmente na
região
de Los Angeles.
Consequências:
Pode
causar incêndios florestais.
Pode
causar danos a plantações.
Pode
causar problemas de saúde, como irritação nos olhos e problemas respiratórios.
Combate
ao vento de Santa Ana:
É
possível combater o vento de Santa Ana através da utilização de técnicas de
plantio que reduzem a vulnerabilidade das plantações aos incêndios florestais.
Foi somente um mês depois que ela descobriu que já existia um perigo: Incêndios florestais.
Mas foi somente um dia depois do incêndio que pesquisou no google:
As pessoas também perguntam:
O
que causou o fogo em Los Angeles?
A
tragédia tem uma explicação: os chamados ventos de Santa Ana, que são
rajadas de ar seco, com a potência de furacão, que chega a atingir a velocidade
de 112 km/h, em algumas áreas.
9
de jan. de 2025
Capitulo IV
Ok. Disse Ana respondendo ao aviso dado pelo seu marido. Estava para chegar um vento do deserto cheio de areia, assim como vem o vento do deserto africano em Portugal, deixando o dia amarelado e os carros sujos. Assim pensou. Assim enganou-se. Na madrugada do dia 07.01, por volta das quatro horas da manhã começou a ouvir algo furioso batendo na janela, era ele, o vento. Nossa! Que vento é esse? Pensou e perguntou para seus botões virando o rosto para o seu marido que dormia o sono dos justos. As sete horas levantou fez seu café e abriu a porta para ver o vento cantando. Nossa! Exclamou novamente. Que fúria! O céu estava tão azul tão lindo e ela não iria ficar dentro de casa, iria sair caminhar e sentir na pele o vento, olhar as nuvens no céu tão azul, igual ao céu de Portugal que tanta saudades sentia. E assim pensou e assim aconteceu. Andou por alguns quarteirões quando percebeu que o vento era mais forte do que seu equilíbrio e estava vendo a hora de ser levada por ele. Olhava para as arvores que dançavam enquanto o vento cantava. Ainda não tinha noção do mal que ele trazia. Escutava a musica e via a dança não somente das árvores, mas também de tudo que ele podia carregar. Não esta demente como aquela frase do facebook: E aqueles que foram vistos dançando foram julgados
insanos por aqueles que não podiam escutar a música. Sim, o vento quase a levou juntamente com os tambores de lixo e assim acabou voltando para casa não vendo mais um pingo de graça e achando tudo aquilo assombroso, pois parecia que não tinha fim e não tinha mesmo pois quando deu 2 horas da tarde a televisão começou a registrar o sinal de emergência quando as primeiras chamas
surgiram Pacific Palisades, um bairro rico que fica entre as Montanhas de
Santa Monica e o Oceano Pacífico e depois o incêndio se fez em Eaton Canyon que é um parque perto do que foi o consultório do seu medico que acabou queimando até virar cinzas.
Capitulo V
E assim o fogo em Eaton Canyon bem próximo do lar doce lar estava a todo vapor e o bairro começou a ficar em estado de alerta juntamente com seu coração que começou a bater descompassadamente sem ter sido autorizado a ter medo. Assistiu um pouco das noticias pela televisão juntamente com seu o agora seu marido. Começou a arrumar sua mala e a do seu marido sem saber o que colocar. Pegou roupas, documentos, remédios, cobertores, agua e mais nada. E ficaram os dois na ansiedade das noticias procurando os alertas e indo de tempo em tempo até o portão para observar onde estava ele, o monstro, o fogo. Estava bem próximo ali nas montanhas de São Gabriel, na bela montanha. Na montanha que imaginava não ter inicio e muito menos fim, na bela montanha que tantas vezes em suas caminhadas de quatro horas em sua alegria e na sua tristeza havia olhada para ela e feita uma oração para seu criador e pedia a ele para ajuda-la a suportar mais um dia, foi debaixo de uma árvore cujas folhas secas caíram na calçada, no final da Casytas debaixo de uma arvore de nome primavera com flores vermelhas e ao lado, um hidrômetro, que ela parou e olhando para as montanhas pedia ao Criador que a ajudasse que aliviasse a angustia que sentia em seu coração, ainda não tinha ido ao médico para pedir a ele se seria possível mudar o seu remédio de pressão pois ultimamente sua pressão estava subindo sem motivo e até mesmo quando ela dormia a mínima subia junto com a máxima, e ela pedia não somente para si mas também para outros que como ela sofria de um mal que acometia muita gente: ansiedade. A ansiedade fazia com que suas pálpebras caíssem e sua fisionomia adquirisse um semblante triste. Qual motivo tinha? Tinha muitos, não tantos em sua vida, mas estava sufocada pelo ar que paira, um ar de lágrimas de sofrimento que se abateu no mundo todo e não dá trégua. Lembrava que havia chorada várias vezes e que tinha dito e pedido muitas coisas, mas agora quando é questionada a pensar que coisas eram não lembra, só lembra da angustia que tinha no coração. Mas isso tinha sido há um mês atrás, agora a situação era com ela ao vivo e a cores. Estava ali na sala sem saber se sentava ou se ficava em pé. Seu marido estava no telefone vendo as noticias ansioso para saber onde estava a fogo, se estava perto se ainda dava para tirar uma soneca, acordar no outro dia com tudo terminado e assim ficou até a uma hora da manhã quando dormiu e ela ficou em estado como uma sentinela saindo e entrando em sua casa.
Capitulo VI
A ultima vez que ela olhou o fogo estava ali bem perto de sua casa, na esquina da Lincoln Ave em toda sua intensidade como um dragão. Santo Deus! Eram quase quatro horas da manhã quando o alarme soou no telefone chamando a atenção dos moradores dessa quadra para evacuarem. Seu noivo levantou rapidamente. Enquanto corria para a sala a pegar as suas tralhas e levar ate o carro e assim eles fizeram e também o restante daquele pedaço de bairro que ficaram ali até a última hora esperando ver para crer. Saíram todos em desabalada carreira. Bem assustados por sinal. Anestesiados pois estavam sendo movidos pela ordem de evacuação e tinham visto ao vivo e a cores o fogo se aproximando com os olhos arregalados não querendo acreditar que isso estava acontecendo. Foram parar em Silver Lake no estacionamento de um mercado ao lado do café Starbucks e ali esperaram o dia amanhecer. E amanheceu cheio de fumaça. Ficaram os dois ali dentro do carro. Olhando para as noticias que eram dados no telefone, visitando o grupo do bairro de segundo a segundo. Foi quando no grupo de brasileiros em Los Angeles do qual ela participava leu sobre o pedido de uma brasileira que trabalhava como jornalista, ela pedia se alguém ali do grupo tinha sido vitima do incêndio, se prontificou afinal ela estava ali sem saber se teria para onde voltar e assim com seu depoimento um tanto histérico foi descrevendo os fatos até aquela manha dia 08.01. Não sabia se tinha fome, sono, ou tristeza, ainda não sabia o que significa perder tudo. Por volta do meio dia seu noivo lembrou que havia esquecido um disco rígido e queria voltar para pegar. Começaram a voltar. No caminho o alarme no telefone acionava dizendo que estavam em área de perigo e era para voltar. Pediu a ele que fizesse isso, enquanto olhava pela janela apavorada com a fumaça de tons pretos laranja e vermelho fogo que cobria o céu. Na entrada da Windsor Ave, os xerifes e alguns outros fardados já estavam bloqueando as entradas e assim todas as entradas do bairro foram fechadas.
Capitulo VII
A tragédia tem
uma explicação: os chamados ventos de Santa Ana, que são rajadas de ar seco,
com a potência de furacão, que chega a atingir a velocidade de 112 km/h, em
algumas áreas. A ventania chegou à cidade na última terça-feira, 7, espalhando
os focos de incêndios florestais, descritos por americanos, como bolas de fogo,
levadas de um lugar para outro pelo vento. Como eles receberam esse nome? Uma explicação
amplamente aceita é que o nome está ligado ao Cânion de Santa Ana, no condado
de Orange. No entanto, existem outras teorias, assim como apelidos
alternativos, como “ventos do diabo”. Sim o diabo estava solto com seu fogo devastando tudo parecendo o fim do mundo. Naquele dia 08.01, começaram a rodar sem ter para onde ir. A sua ex mulher mandou mensagens dizendo que ele poderia ir dormir em sua casa. Tipo o livro de Jorge Amado: Dona flor e seus dois maridos. Pensou como seria: Ele no meio e ela do lado esquerdo e sua ex do direito ou vice e versa. Disse a ele que não iria. Ela não estava com medo do amanhã, só estava querendo entender o que era aquilo, aquilo ela estava vendo ao vivo e a cores, queria saber no que iria dar aquilo, qual seria o fim era isso que não sabia. Ninguém estava preparado, assim como parecem estar para um terremoto. Deveria ter estudado mais. Deveria ter compreendido mais. Ter conversado mais. Mas já estava se adaptando, estava aprendendo a se aquecer em uma sociedade fria que lhe foi oferecida. Esta certo que no inicio foi muito difícil, não pela solidão pois desde que se conhece por gente ama a solidão, aquela solidão onde só escuta o zumbido em sua cabeça a noite e durante o dia um carro que passa, um pássaro que voa, os esquilos correndo, os personagens dos livros que lê, vez ou outra ouve seu noivo chamando-a: My love! No inicio tinha muitas saudades de Portugal, mais precisamente do Porto, do rio Douro do Atlântico Norte, o mar mais lindo que já viu. Saudades do seu anexo secreto na Foz do Douro mais precisamente na Praia dos Ingleses debaixo da lanchonete local onde passou todo o inverno de 2021, assim como Anne Frank que temia ser descoberta, e ser punida por estar sendo feliz no pico do covid de doença, morte e infelicidade. Temia ser encontrada descalça na areia, olhando as gaivotas e ouvindo o barulho do mar. Outros dias quando chovia em seu saco de dormir, tinha medo que descobrissem que estava ali olhando as gotas de chuvas caindo, esperando o céu se abrir para fazer o que tinha aprendido a fazer ali naquele lugar tão especial: Conversar com Deus. Foi em uma tarde, depois da hora do almoço quando caminhava na areia, pisando nas pedras, deixando que as ondas chegassem ate ela, que parou e olhou para o horizonte e pediu, pediu com toda a fé que tinha que era do tamanho de uma semente de mostarda, pediu como uma criança pede, implorando com lágrimas caindo no olhos e colocando as mãos no rosto pois não queria que alguém a visse em sua desolação, em sua tristeza imensa, pediu para que Ele não a deixasse sozinha em sua velhice, que ela não iria conseguir viver nessa Europa sozinha, a luta estava sendo árdua, precisava de um parceiro para dar as mãos, para poderem caminhar juntos em verdade e lealdade. Sabia que era possível, sabia que aquele que criou o céu, a terra, o mar e abençoou o primeiro casal em alianças matrimonial não a deixaria atravessar esse deserto sozinha. Meses depois ele respondeu sua oração. Como tinha os pensamentos mais altos que o dela foi buscar alguém depois do oceano pacifico longe muito longe do outro lado do mundo em uma grande diferença de fuso horário, enquanto estava acordada vivendo ele descansava, dormia. Foi em sonho que Ele sussurrou um nome em seu ouvido e ela não entendeu porque a promessa que se cumpriria não viria de forma clara não poderia entender pois não era uma grande matemática grego como Arquimedes. Mas isso não a amedrontava pois quem era Erwin Schorodinge diante daquele que criou o
sol? Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas e ela estava aprendendo que as linhas tortas somos nós. E tudo correu tão tranquilo, tão absolutamente normal e feliz mesmo diante de tanta infelicidade, era tudo composto de uma simplicidade fora do comum, igual a essa que mal reparamos quando acordamos todas as manhãs, levantamos abrimos uma janela e depois vamos ate o fogão fazer o café para mais um dia abençoado.
Capitulo VIII
E quando ela o conheceu percebeu que eram feitos um para o outro, eram a tampa e a panela era como diziam por ai: encontrei a minha alma gêmea. Se encontraram por três vezes no Porto em três anos de espera. A primeira vez foi um encontro mágico, cheio de surpresas, passeios, alegria e felicidades. Foi na baixa da Ribeira em frente ao Rio Douro em uma noite de lua cheia ele a pediu em casamento. Estava ela sentada em um daqueles bancos que se tem como vista olhando para sua esquerda a ponte D.Luis I, e embaixo o majestoso rio Douro. Ficaram noivos, sem aliança, mas com um jantar, em um simples e acolhedor restaurante, típico restaurante português. Sim, era uma noite abençoada, estava claro como o brilho do olhar de ambos que se abraçavam felizes como um sonho, sonhado há muito tempo. Foi no segundo ano do COVID
IX
Conversavam muito pela rede social, era o homem da sua vida, sentia isso, era um cavalheiro, respeitoso, nunca pediu que ligasse a câmara para que pudessem se ver, e tampouco pediu que enviasse fotos sensuais. Foi somente depois de um mês que enviou a ele uma foto, não tão nítida mas com os raios de sol a não deixar muito claro sua fisionomia. Havia envelhecido tinha rugas no rosto e algumas manchas de sardas que se formaram devido ao sol que tanto amou em sua juventude. Carregava consigo também problemas de pressão alta e artrose sem falar que havia perdido a pressa, não tinha mais pressa tinha tempo. O tempo se tornava o mesmo que conheceu quando criança, quando deitava no quintal de sua casa e ficava olhando as nuvens e a imaginar no que elas se transformavam em tudo que podia imaginar em uma lentidão incomensurável. Como esconder dele tudo isso? Não conseguiria. E assim começou a viver um seja o que Deus quiser desde o dia que disse para ele que estava começando a ter dúvidas se ele era uma pessoa real ou mais um dentro muitos em redes sociais que contavam historias falsas, nada convincente, ainda mais para alguém como ela que era igual a São Tomé só acreditava vendo. Ele como americano nascido no final dos anos 50 do século 20, inconformado com sua reação, mas não tanto indignado, disse a ele que iria até onde estava. E realmente em menos de três meses de conversação isso aconteceu. Comprou a passagem e enviou a ela para que ela olhasse com seus olhos. E ela olhou e começou a contar os dias de sua chegada, ansiosa e feliz da vida. Na época ela morava na Rua do Cunha no bairro de lindo Vale no Porto. Enquanto pensava em tudo isso foi folhear o álbum de fotografias que tinha feito para provar no consulado americano mediante o visto K1 que tudo era uma verdade, que havia aprendido nos filmes americanos e com sua mãe desde tenra idade, que a verdade era a coisa mais real e que tornava a vida mais fácil e suportável de se viver. No dia 19.07.2021 as 16:09 ele chega no Aeroporto Francisco de Sá Carneiro em Lisboa.
💓+💓=💓💓
Capitulo X
Não haviam conversados sobre que roupa ele estaria usando o que carregava nas mãos. Nada foi dito. Ela o esperava ansiosa, apostando em sua intuição de que iria acha-lo facilmente. Afinal era um aeroporto tranquilo, pequeno, limpo, agradável com uma linha e trens de metro dentro do aeroporto. Enquanto pensa sente uma saudade de tudo aquilo, daquelas viagens que fez de metro, tão lindo tão cheio de turistas europeus, sentia uma dor funda no coração só de pensar que nunca mais poderia voltar. Sabia que não mais voltaria a ser ela, a mulher que observava tudo e todos maravilhada com as nuances dos dias sempre com algo novo para aprender. O preço da viagem não iria ocasionar ônus, não iriam ter que dispor de euros além do esperado. Quando viu aquele homem alto de cabelos brancos carregando uma mala de 10 quilos, e uma bolsa de couro, vestido com calças jeans e uma blusa de moleton na cor vinho correu até ele e o chamou por nome sem medo de que não fosse ele. Não era uma intuição, era mais que isso. Era aquilo que alguns chamam de destino, outros de universo, e ela chamava de uma oração ouvida pelo Todo Poderoso.
Capitulo XI
Agora enquanto olha o seu álbum de fotografias e suas conversas mantidas pelo facebook algumas lágrimas descem pelo seu rosto, por um lado por causa do fogo em Altadena que não consumiu essa lembrança tão linda transformando-a em cinzas, e por outro lado por causa do tempo em que ficou na espera e tantas coisas atribuladas ocorreram em sua vida nesse meio tempo como se ela precisasse consertar algo, aprender mais um pouco e conhecer pessoas que sabia que existiam e outras que nunca pensou existir, tudo isso teria que ficar registrados em seus cadernos escritos para não esquecer, e também em fotos pois nem tudo esta nas nuvens da memória humana e do computador e serão possíveis resgatar algum dia se isso for preciso. Foi quando estava no elevador se dirigindo até o quarto andar de onde morava, que olhou profundamente em seus olhos por alguns segundos, e então percebeu que sim, era o homem da sua vida. Ele também a olhava com o mesmo olhar, como se também percebesse algo procurado e desejado e foi então que ela colocou sua cabeça em seu peito e ele acarinhou os seus cabelos. Depois os dias passaram como o vento. E eles tentaram aproveitar cada precioso momento. Andaram pelas ruas estreitas do Porto, pela baixa da Ribeira, foram até um restaurante pequeno e aconchegante em uma dessas ruas estreitas do Porto onde os prédios quase se juntam um ao outro como goma de mascar. Foram até a Foz do Douro olhar o mar, o seu querido e majestoso oceano Atlântico Norte. Sim, era tudo mágico, não andava e sim bailava como uma borboleta.
XII
Nas duas outras vezes em que foi visita-la foi uma repetição da primeira vez, sempre em uma tranquilidade e alegrias compartilhadas até o dia em que o visto foi aprovado no consulado de Paris já que o consulado americano em Lisboa não trabalha com vistos. E assim tudo caminhou para que no dia 08.05.2024, seguisse com destino ao EUA. Foi a viagem mais longa que fez em toda sua vida, embora o relógio andasse para trás, deixando-a com a sensação de que algo estava errado, fazendo com que o tempo não passasse, tudo por causa do fuso horário. Uma coisa é saber que existe uma diferença grande outra coisa é passar por ele, teve um momento no avião que ela teve que levantar e se dirigir até o fundo onde estavam os comissários de bordo. Um deles perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim e que desejava um pouco de água. Sentiu vergonha de dizer que estava de alguma forma com medo e entrando em surto com aquele tempo que não andava. Naquela manhã saiu do Porto com escala em Barcelona na Espanha e por fim até o seu destino final, aeroporto de Los Angeles.
✈✈✈✈✈
Capitulo XIII
Seu noivo a esperava no aeroporto, enquanto enfrentava filas seguindo a multidão com destino a saída. Exit, como via escrito. Quando chegou a sua vez, deu seu passaporte e o envelope para o oficial da emigração, o mesmo envelope que o consulado americano havia enviado para seu endereço no Porto. O envelope estava lacrado, seguindo as orientações não tocou nele e nem teve curiosidade em saber o que tinha dentro dele. Orientações são orientações. O oficial abriu o que lhe pertencia e foi preenchendo os dados escritos no documento que tinha em mãos diretamente em seu personal computer. Depois entregou seu passaporte e a liberou para seguir em frente até a saída. Em todos os aeroportos pelos quais passou nunca teve dificuldades do tipo ter sido questionada para onde iria e quando voltaria, sempre passou praticamente como invisível que era. A visão de Los Angeles foi conhecer uma cidade grande como tantas outras, repletas de arranha céus, embora os únicos estavam localizadas emDownton Los Angeles, ou simplesmente DTLA. O
resto são compostos de bairros e cidades com casas como Hollywood, Silver lake, Palisades, Pasadena,
Altadena e outros na região circundante. No Carro observava a estrada larga, enorme com quatro vias até visualizar no horizonte aqueles picos, aquilo que a fez perguntar a seus botões e que tinha dado o nome de Deus, afinal ele tinha uma maneira estranha de responder em seu silencio: Deus o que é isso? Não perguntou ao seu noivo, pois poderia parecer ser uma ignorante, desligada da historia universal. Semanas depois foi até o google e ele respondeu: São asmontanhas de São Gabriel. Umacadeia de montanhas localizada
no norte do condadodeLos Angelese oeste, do condado de São Bernardino, Califórnia,
Estados Unidos. A cadeia de montanhas faz parte das Cordilheiras
Transversais e fica entre a Bacia
de Los Angeles e o Deserto
de Monjave, com a
Interestadual 5 a oeste e a
Interestadual 15 a leste. A
cadeia fica dentro e é cercada pelas Florestas Nacionais de Los
Angeles e San Bernardino, com a Falha
de San Andreas como sua
fronteira norte. Então era isso que ela via da janela do avião o tempo todo no final do voo de Portugal ao aeroporto internacional LAX em Los Angeles. Ficava olhando aquilo abismada naquela tarde sem fim que começou as 14 horas em Barcelona e não anoiteceu, somente caiu em si quando próximo de ter um surto foi até o final do avião, estava passando mal, estava com os olhos esbugalhados, precisava ouvir uma pessoa sensata, uma voz que a acordasse para o fato, foi quando um comissário perguntou em espanhol se estava tudo bem e ela respondeu que sim, queria água. Ele apontou onde tinha, e ela bebeu e voltou para seu lugar enquanto caminhava agora andando para a frente do avião e então percebeu o fuso horário a levava para trás. Sentou em sua cadeira procurou um filme, mas nada a atraia, nem mesmo seu livro na bolsa, voltou a olhar para as montanhas e a pensar que estava tudo bem, afinal tudo estava bem mas não com ela, mas ela havia aprendido a representar que estava e assim representou até o avião pousar. E assim, lembrando agora como em câmara lenta, começou a ser apresentada ao seu novo lar em Altadema, praticamente de frente as Montanhas de São Gabriel. Ao seu lar doce lar, era assim que o chamava já por três anos, embora não estivesse presente em carne e osso. No inicio foi difícil, o clima árido, temperaturas elevadas e aquela sensação de sufocamento, falta de ar, insolação. Começou a se questionar se ainda desejava visitar o deserto de Monjave, ainda mais depois que foi ate Joshua Tree em pleno verão. Para complicar teve alergia que não sabia de onde vinha. Da comida? Do calor? Da água? Da química que parecia estar no céu, na terra, no ar? Nunca soube pois tinha medo de procurar uma ajuda profissional e a conta chegar a ter um valor de uma vida toda de trabalho, como ouvia dizer, que era pela hora da morte. E assim evitando algumas coisas que poderia estar ingerindo, tocando ou respirando, as manchas na pele que acontecia na noite e florescia todas as manhãs, foram desaparecendo até o extermínio como que por milagre. Isso que durou três meses para concretizar. Como não estava entendendo onde estava, começou a caminhas pela região para conhecer que país era esse que tanto a acompanhou em sua existência de adolescente e depois de jovem senhora por intermédio de sua literatura, de sua música, dos seus filmes sempre com uma lição de moral no final, embora seu noivo sempre lhe dizia que estava enganada que a América não era nada daquilo que ela pensava, embora nunca explicasse o que ele queria dizer com isso. Ela não queria fazer comparação mas todos os dias ao olhar o céu, as nuvens, a terra, sentia uma imensa saudades de Portugal e isso foi depositando dentro dela pouco a pouco uma saudade que doía, e ela tentava entender o porque das pessoas morrerem andando pelo deserto, pulando muro, mentindo na hora do visto, ao passarem pela emigração, somente para entrar e ficar no país. Mas a troco do que? De dinheiro? Sim! Era somente por esse motivo: Ganhar em dólar. Era o que ouvia de todos emigrantes que conhecia. O motivo que levava outros a entrarem na Europa era outro: qualidade de vida. Era sobre isso que padecia, qualidade de vida? Padecia de vontade de andar de ônibus, metro, trem, caminhar sem medo, se alegrar, esbarrar em gente feliz, deitar na grama, sentir o sol agradável no rosto, e ir até o mar, o silencioso e belo Atlântico Norte. Mas como? Onde estava não existiam esses meios de transportes? Sim, existiam, mas eram perigosos, ouviu dizer que gangues andavam neles, e nos trens também, todos os membros da família tem carro, se olharem bem verão sempre uma pessoa a dirigir o carro, o motorista e mais ninguém. As estradas são de quatro ou cinco pistas de ida e volta e sempre a velocidade de 100 por hora. Ana não iria dirigir, desistiu de dirigir nos anos 90 do século passado, e assim resolveu que caminharia pelo bairro. Nos primeiros dias viu um ou dois correndo, e outros um ou dois, não mais que isso, andando de bicicleta, mas nenhum caminhando. Andavam pelas ruas e observava as casas, tão parecidas com aquelas que desenhou em sua infância. Uma cerca, uma árvore com balanço, flores, grama, janelas e portas sempre fechadas um telhado uma chaminé, a montanha logo atrás pássaros, sol e céu sem tirar nem por. Começou a aprender inglês com as placas que ia encontrando nas ruas NO OUTLET, essa deixou-a confusa, pensou que iria encontrar em algum lugar daquela quadra uma loja de saldos como no Porto, mas não, era uma DEAD END, ou seja uma rua sem saída. Ficou frustrada e ao mesmo tempo feliz pois estava aprendendo a reconhecer os perigos e os enigmas existentes naquela nação. A sua preferida era SLOW DOW, no inicio gostou por causa do som que ela emitia ao ser pronunciada, depois gostou do significado. Slow Dow: Ansiedade no limite máximo, como a sua. Slow dow, muito slow dow nessa hora.
Os dias que se seguiram foram um costante Slow Dow. Teve sorte que em dezembro passou por médicos para saber qual o problema que tinha para que sua pressão subisse avassaladoramente, parecendo vir do nada. Do nada não, pois ela sabia sobre sua ansiedade. Isso foi dito a ela anos atrás, por uma medica que receitou sertralina todas as manhãs as 10 horas, mas ela foi deixando de tomar, pois não queria depender de química. Ficou anos sem, mas então veio o COVID, e este deixou sequelas não somente nela mas em toda a humanidade. Se não físico, mental. Mas naquele dia do fogo, na manhã do dia 08, logo após a fuga ela dentro do carro ao se comunicar com um jornal de entrevistas de um país distante, estava histérica, sabia que estava pois não parava de falar, um atropelo de frases, quase gritando, foi quando desligou o telefone que se deu conta que estava no começo de um surto, então começou a dizer a si mesma: pode parar com isso. E foi isso que fez dizendo a si própria: muita calma nessa hora! Ou slow dow. Hoje dia 08.03, é um dia que se comemora algo, parece ser um dia especial, para quem e para o que não sabe, pois desde quando ele foi instituído nada mudou para melhor. Ou seja se uma coisa mudou vieram cinco coisas piores. Fizeram desse dia um dia especial de conscientização. Em seu país de origem logo que amanhecia começava a enxurrada de feliz dia das mulheres, e isso permanecia ate o anoitecer. Onde morava agora, nada disso ocorria, o que fazia com que ela desse graças a Deus, nem mesmo por intermédio do seu companheiro ouviu algo semelhante, ou recebeu flores. Coisa que não queria. Dia 08.03, amanheceu um dia lindo ensolarado, e fez o que costumava fazer, foi caminhar. Caminhou pelas ruas e começou a observar que na entrada das casas, em quase todas existia objetos que estavam descartando, coisas de casa, moveis, brinquedos, roupas, estavam limpando o seus excedentes e também aquilo que não prestava mais. Se não prestava para que guardar? Eis uma pergunta que fazia quando via as garagens empanturradas de quinquilharias, e o carro ou os carros estacionados na rua, se decompondo. Olhou alguns objetos e pensou: no dia 06.01 estavam todos despreocupados, seria um dia como todos os outros, somente com um vento já conhecido de todos em todo santo ano. É fato que foram notificados sobre os ventos de Santa Ana, sabiam que ele viria , mas não imaginavam o tamanho da fúria. Ficou ali em pé pensando enquanto observava a placa que a família colocou na frente da casa e agora não serviria para mais nada nem mesmo para o natal de 2025. Era uma placa usada no jardim, em comemoração a data que Jesus nasceu, segundo dizem, e agora ia para o lixo. Sim, os que não tiveram suas casas tocadas pelo fogo vindo das montanhas de São Gabriel, percebiam que se algo desse tipo acontecesse de novo, eles não teriam muito para se lamentar, outros depois de verem que árvores caíram em cima de suas casas, resolveram cortar suas majestosas árvores plantadas em frente de suas casas e que demoraram duas ou três gerações para atingir a altura que estavam. Era dolorido mas era melhor suportar o fogo do sol do que o fogo de Santa Ana. Era um dia triste, dia 08.03, fazia exatamente três meses do ocorrido. E agora todos sabiam que só tinham a vida como despojo.
Olhou para sua agenda e ficou contente de conseguir contar a sua historia, não somente poderia contar mas também fotografava os locais por onde passava, para não esquecer o que via como em um sonho ao amanhecer se dissipando. E foi então que conforme os dias iam passando ela desejou voltar para seu pais, estava assustada e seu país não assustava mais tanto quanto o fogo, aquele terror que parou uma quadra depois de onde morava, como que por um milagre de Deus. Sim, como por um milagre, ela escapou, mas quando pensa que poderia ter ficado em sua casa, em sua cama, e não ter saído correndo como uma fugitiva, mas era melhor ter obedecido a ordem de evacuação do que no outro dia ter suas cinzas com seus ossos encontrados pelos bombeiros e ser considerada pela população, além de emigrante uma rebelde desobediente uma inconsequente, uma vergonha sem direito a um enterro decente e muito menos a lágrimas e pena, não permitiu que essa tragédia anunciada pela vontade do cão fizesse parte da sua existência e assim foi como todos foram, em pânico e em desabalada carreira com destino a Silver lake e ali ficou até amanhecer com um sol vermelho alaranjado cinza. Se isso não era uma cor, agora era, estava ali presente na sua frente, através dos vidros do carro, e era a mesma cor vista em seus sonhos de pesadelos quando sonhava que estava em seu país de origem, e amedrontada perguntava o que estava fazendo ali, como veio parar ali, e onde estava a sua passagem de volta. Era um sonho? Não, não era, tão pouco era um pesadelo o que sentia agora, agora queria realmente voltar e abraçar aqueles que deixara para trás. Mas onde era a sua terra? Onde é a terra de todos? O nosso lar a nossa gente. A nossa paz!
Matéria protegida pela lei dos direitos autorais numero 9.610 de 19.02.1998 Resumo : Uma viagem ao inferno manicomial. Um jovem de classe média leva uma vida comum até o dia em que o pai o interna em um manicômio depois de encontrar um cigarro de maconha em seu bolso. O fato é a gota d’agua que deflagra a tragédia na família. No manicômio Neto conhece uma realidade absurda e desumana onde os internos são devorados por um sistema corrupto e cruel. Resenha : Para entender a origem de um manicômio temos que pesquisar a história... A implantação de uma legislação referente aos doentes mentais no Brasil partiu do primeiro catedrático de psiquiatria da faculdade de medicina do Rio de Janeiro o deputado João Carlos Teixeira Brandão. Este veio a ser o relator do decreto ...
Damião, vassourinha, blá, blá, blá Você foi desprezado por muitos que diziam ser seu amigo, mas que ao te encontrarem na estrada ou em algum lugar onde existiam pessoas mais “interessantes” do que a sua triste e ao mesmo tempo engraçada figura, faziam de conta que não estavam te vendo. Naquele momento você abaixava a cabeça levemente acometido por uma leve tristeza. Não só você (por morar em uma cidade pequena, uma vila, o desprezo era algo muito nítido, muito claro, as amizades por interesses ficavam expostos à luz do sol e não da lamparina) mas, todos aqueles que não foram agraciados pelo “sucesso” eram desprezados e acabavam montando um pequeno grupo de amigos. É claro Dami, que fique bem entendido, você não tinha uma casa digna de ostentação, morava de favor em uma porta no segundo portal, e muito menos tinha um carro com tração nas quatro. Talvez esse tenha sido o motivo de sempre você estar lembrando a todos eles: “Você lembra o palhaço vassourinha do programa Raul...
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