sábado, 29 de junho de 2013

Resumo do filme - "Bicho de sete cabeças"

Matéria protegida pela lei dos 
direitos autorais numero 9.610 de 19.02.1998


Resumo: 

Uma viagem ao inferno manicomial. 
Um jovem de classe média leva uma vida comum 
até o dia em que o pai o interna em um manicômio 
depois de encontrar um cigarro de maconha 
em seu bolso. 
O fato é a gota d’agua que deflagra 
a tragédia na família. 
No manicômio Neto conhece 
uma realidade absurda 
e desumana onde os internos 
são devorados por um sistema 
corrupto e cruel.


Resenha

Para entender a origem de um manicômio 
temos que pesquisar a história... 
A implantação de uma legislação 
referente aos doentes mentais no Brasil
 partiu do primeiro catedrático 
de psiquiatria da faculdade 
de medicina do Rio de Janeiro 
o deputado João Carlos Teixeira Brandão.
Este veio a ser o relator do decreto numero 1132 de 1903,
 promulgado no governo 
do presidente Rodrigues Alves 
e responsável por
 “Reorganizar a assistência aos alienados”.
 O pensamento da época: 
“A loucura e a doença mental, 
como em outras partes do mundo ocidental 
permanecem ligadas 
a três dimensões: médica, jurídica e social. 

A psiquiatria possui em si estas três dimensões, 

sendo ao mesmo tempo médica (assistencial) 
e vinculada ao controle da ordem pública.” 

Segundo esta lei o único lugar autorizado 

a receber os loucos, por reunir condições adequadas,
 e toda internação estaria sujeita ao parecer do médico 
detentor da “verdade” no que se refere a alienação mental. 
O decreto em questão é o responsável
 por positivar a ideia de que o louco 
não possui a capacidade de gerir seus bens 
e a sua pessoa e a sua pessoa devendo 
estar submetido a um curador, que também 
é o responsável pela guarda provisória dos bens do doente. 
Do mesmo modo, não caberia 
a este paciente interferir ou mesmo conhecer o tratamento a ser aplicado. 


Em meados de 1960 o saber psiquiátrico 
foi convulsionado
 pelo surgimento da corrente anti-psiquiatria. 
Segundo esses teóricos a loucura
 não é doença, 
mas um reflexo do desequilíbrio 
social e familiar do meio onde
 o individuo se encontra inserido. 
Em 1980, surgiu o movimento
 dos trabalhadores em saúde mental, lançando o lema:
 “Por uma sociedade sem manicômios”.


 Tomando por modelo a lei Basaglia italiana 
é promulgado 
no Brasil em seis de abril de 2001 a lei 10.216 
a qual dispõe 
sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras 
de transtornos mentais e redireciona 
o modelo assistencial em saúde mental. 
O doente mental passou a ter direito 
ao melhor tratamento realizado 
com humanidade e respeito. 
Tendo assegurado a proteção contra qualquer
 forma de exploração e o direito de receber informação a respeito de sua doença. 
O tratamento deveria ser feito, de preferencia em serviços comunitários 
de saúde mental, nos moldes do hospital-dia, 
tais como o CAPS (Centro de atenção Psicossocial).


Uma grande mulher 
Nise da Silveira
Dirigiu a seção de terapêutica ocupacional e reabilitação.
 Em 1956 fundou a casa das Palmeiras, clinica para 
o tratamento em regime aberto de pacientes psiquiátricos. 
Utilizou a pintura, a escultura, a modelagem e a carpintaria. 
Descobre que, mesmo quando a personalidade do paciente 
se desintegra, ele mantém em seu psiquismo um estimulo 
para a produção de imagens. 
Sua terapia humanizadora incluía o convívio 
 dos doentes com cães e gatos, 
provando que a afetividade não é anulada 
pelo problema mental.





Uma triste mulher 
Olga J. 

 Conheci Olga quando minha família 
comprou uma casa próxima a sua. 
Olga era viúva e morava no terreno da casa dos pais, 
um casal de Lituanos, com seus três filhos. 
Um mulher linda, cabelos loiros, alta, magra 
tudo o que uma mulher na faixa dos seus trinta e poucos anos
 gostaria de ser. 
Eu costumava ir até sua casa para brincar com suas filhas, 
duas meninas, uma loira e uma morena 
de quem eu gostava muito. 
Passávamos bom tempo jogando amarelinha 
ou descendo a rua de bicicleta. 
Amava a casa dos lituanos, tão bem cuidada, 
um lindo terreno de esquina cheio de árvores. 
Foi na rua da feira que eu ensinei as duas a andarem de bicicleta. 
Nunca notei nada de diferente na mãe, 
a não ser que era muito bonita 
superinteligente e paquerada,
 principalmente pelos homens casados da rua. 
Foi com o tempo que fui percebendo que
 meu pai e minha mãe acordavam cedo e acordavam os filhos
 para a escola e os afazeres,
Já na casa de numero 100, 
eles costumavam acordar depois 
do meio dia, 
mais tardar as 14hs.
Esse sonho me acompanhou durante longos anos
"Acordar depois do meio dia"
Naquele tempo eu
Passava longas manhãs olhando 
para aquela janela de madeira fechada, 
ansiosa para que se abrisse 
o sol forte e alto, onde todos dormiam, 
desejando ser um membro daquela família 
e dormir até as tantas. 
Quando a porta era aberta na parte da tarde 
e eu entrava, olhava para o quarto e 
via uma mulher na cama penteando os cabelos. 
Conversava alguma coisa com ela ou com suas filhas, 
ou algo que não lembro mais 
e ía até a área da casa jogar pedrinhas. 
Um dia a encontrei almoçando, 
enquanto passava pelos dentes a coxa de frango 
olhava-se num espelho, 
desses pequenos de madeira laranja 
vendido até hoje nas lojas.

 O espelho ficava a sua frente na mesa
na frente do prato de comida
um pouco deitado
mostrando seu rosto. 

Minha mãe dizia que ela era narcisista

na época ninguém
 dizia: "ela se acha" ou "tá se achando"

Um dia ela disse que era a cara de Romy Scheneider. 
Dias depois que era a compositora da musica 
“eu quero é botar meu bloco na rua”. 
E tantas outras coisas mais, 
até o dia que foi internada pela filha no antigo 
sanatório Anhembi atual
Falc/Faculdade Aldeia de Carapicuiba/SP.

Um novo lar




Juntando fatos vividos e ouvidos 
achei que era o melhor para ela.
 Todo mundo na época deve ter achado. 
Foi diagnosticado que sofria de esquizofrenia,
 louca de pedra. 



E assim nos anos que passou ali sofreu todo tipo de tortura. 
 Uma delas foi a eletroconvulsoterapia (ECT) 

choque nas têmporas da paciente. 

Olga  fugiu várias vezes pulando um muro de 3 metros. 
(veja fotos do muro abaixo)


Chegava em sua casa suja  

arranhada e esgotada, 

depois de andar mais de 30km, 

da Aldeia ao centro da cidade onde morava


O muro visto pelo lado de fora


E eu várias vezes a vi perambulando na Avenida.
 Olhava para ela, para aquele corpo se acabando lentamente, 
ficando cinza, os lindos cabelos perdendo o brilho, 
depois os dentes ate ficar completamente banguela, esqueletica. 
Um dia passando em frente da sua casa pelo lado da Avenida Alice, 
vi que sua janela estava aberta, olhei e ela estava deitada na cama, 
as paredes do quarto toda riscada com mensagens e muito lixo 
e livros, revistas em toda a volta. 
Foi à última vez. 
Olga J morreu no dia primeiro de maio
no ano da morte de Ayrton Senna, 
tinha 51 anos e parecia ter 101. 
No atestado de óbito foi escrito: Parada Cardíaca.
Com tanto choque
do que mais
poderia morrer?
 Os anos foram passando 
a família de Olga nunca mais foi à mesma.
 Uma de suas filhas e um neto tem a mesma doença: esquizofrenia. 
E eu toda vez que lembro os momentos passados na casa de número 100, 
sinto a maré subindo depressa 
e cobrindo o lugar em que eu estive sentada.



                       Fotos do antigo manicômio em Carapicuíba
                             hoje uma faculdade (FALC)




Estive no Sanatório na tarde de sexta-feira passada
procurei na biblioteca a sua história
nada encontrei
Era como se tudo tivesse sido eliminado
Sai, e fui atrás de moradores / em uma mecânica perguntei a um jovem
se ele tinha nascido em Carapicuíba, ali na Aldeia
ele disse que sim / perguntei se conhecia alguém
ele me indicou dois / um foi enfermeiro e outro motorista
fui atrás / encontrei o enfermeiro
Fiquei confiante: um enfermeiro jamais esquece
E ao perguntar  / pouca coisa falou
Era como um passado eliminado de sua memória
respondia seriamente em monossilabas
Uma decoreba / Assim como a minha 
"Segunda-feira, uma semana atrás
Lailin estava no norte de Minas / Lavando uma cozinha
enquanto ouvia Ennio Morricone
Segunda-feira  / Lailin conseguiu entrar em uma conversa sórdida
dentro de um notebook / Segunda-feira-passada Lailin
arrumou as malas e veio embora / Uma semana depois
Lailin lembra do fato e escreve para não esquecer"
Trinta anos se passaram e aquele enfermeiro pouco lembra
ou faz que não lembra.


Olga J
poderia hoje
estar em casa,
cuidando dos netos
com 70 anos ou quase
se olhando no espelho
penteando seus lindos cabelos brancos
se achando
como muitos
e por que não?



"A sanidade é prazerosa e calma, 
mas não tem a grandeza, 
nenhuma verdadeira alegria, 
nem a horrível tristeza 
que dilacera o coração."


                                                  Mlailin 


                 

9 comentários:

Germano Oto Gerhardt disse...

Tenho um sentimento de pesar sobre como as pessoas como Olga J. são tratadas. Em casa não fazia mal a ninguém.

marcia lailin disse...

Hoje não
mas há 20, 30 anos atrás
quando em surto eles pegavam uma faca e saiam correndo atrás de um familiar...
Hoje as drogas se dão em casa
com um copo de água ou na comida
e assim eles são domados
Conhecendo o trabalho da dra. Nise
Sabemos que não precisava irem ao extremo, mas nem todo médico pensa igual
Poucos são iluminados e a DRA. NISE foi uma
Bjs Oto

VM disse...

Bom trabalho Marcinha!
Gostei mto de ler.
Vc é mto boa!
Um Beijo

marcia lailin disse...

Outro bj VM

Míriam Guedes disse...

É muito triste e dolorido passar por isso com pessoas da família. Eu já passei com pessoa da família do meu esposo. Uma pessoa inteligente, bonita, quase conclui a faculdade de jornalismo. Começou a vir a tona os comprometimentos mentais. Depressão, bipolar e demais problemas de saúde. Só sei que foi muito triste, hoje vive em tratamento. Abraço Marcia, muito boa a Matéria viu. Beijo !

brunaabora disse...

Baixar o Filme - Bicho de Sete Cabeças - Uma viagem ao inferno manicomial - http://mcaf.ee/d5tq9

Jorge Sader Filho disse...

Tive a honra e o prazer de conhecer a Dra. Nise da Silveira, colega e amiga da minha tia e madrinha Alice Marques dos Santos.
Estudaram juntas em Zurique, Suíça, no Instituto Jung. Cabeças iluminadas!
Abraço.

Maria Conceição Cavalinhos disse...

Excelente trabalho ,amiga,como tudo que você faz.....continue nos esclarecendo....bjs,

Sonia Venturini disse...

A verdade sem máscara, com narração envolvente... sem dúvida, uma excelente história, revelando os tabus que (ainda) cercam as desordens mentais.
Mas, a pergunta que fica, pra mim, é: o que levou Lailin a remexer esse passado e essas lembranças?

Adorei o seu estilo!
Saber escrever não é pra qualquer um...
Beijos