terça-feira, 17 de janeiro de 2017

morte e vida Severina

Memórias de Severina (Escrito conforme narrado)

Faz 34 anos que minha mãe morreu e parece que foi ontem. Casamento é só uma vez, ela dizia. Ai um dia eu enviuvei e o pessoal falava assim: Severina arruma alguém. Fiquei viúva gravida da Bethânia. Mamãe sempre falava casamento é só uma vez. A mulher que tem filho deve pensar mil vezes antes de colocar alguém dentro da sua casa.. Na minha época se não casava na igreja não era casada. Casar no civil era o mesmo que ser amigada. Meu sonho era morar em São Paulo. Eu nunca respondi minha mãe, do jeito que eu fui criada eu criei meus filhos. A gente respeita os filhos para que eles respeitem a gente. Mamãe morreu do coração. Sim, a minha mãe teve um infarto na sexta, no domingo ela morreu.... Meu Deus e agora? Me deu uma depressão tão grande! Eu fiquei somente o couro e o osso. Só pensando e chorando. Quando foi? Já fazia um mês para dois mês. Eu não comia. Pelejava e não descia. Eu me lembro como hoje. Era meio dia eu estava deitada olhando para o teto, era fraqueza. Foi quando eu vi ela entrar e falou assim: "Minha filha levanta a cabeça, seus filhos precisam de você. Olha minha filha eu estou toda molhada, não chora mais". Então a minha vizinha entrou e eu disse: Não vou chorar mais pela minha mãe. Ai me levantei e criei meus filhos sozinha. Mas eu queria vir para São Paulo. Tinha uma mulher que eu lavava e passava. Nós eramos comadres de fogueira. Ai ela disse. Comadre tu tem vontade de ir para São Paulo? Sim, eu tenho mas não tenho dinheiro para pagar minha passagem e dos meus quatro filhos. Pode deixar comigo, ela disse. E assim eu vim. Em todo canto mora o bom e o ruim Meu filho mais velho mataram.Ele trouxe esse homem aqui em casa. Quando eu olhei para ele, esse povo que não olha na cara, não vi seus olhos. Meu filho era pedreiro.Ele foi morto dentro do alojamento. Esse cara matou ele. Olha eu não desejo isso para ninguém. Aquilo juntou tudo e deu o primeiro infarto. É difícil eu dormir a noite toda. Se a senhora olhar a tulha de remédios que eu carrego. Remédios para depressão... remédios para cabeça.... remédios para dormir. Quando eu morrer eu vou demorar para apodrecer. Quem toma muitos remédios não apodrece logo. Eu ainda trabalho. Limpo casas, lavo banheiro, lavo a sanita todo dia. Ai quando eu chego em casa, misericórdia, meu filho só falta bater em mim: "O que a senhora tinha que fazer já fez" .


Lai


Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.
Fernanda de Castro



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Meu tipo inesquecível - Nelson Rodrigues




<3

Com indisfarçado orgulho, o “Correio da Manhã” anunciou durante uma semana, em chamadas de primeira página, as “Memórias de Nelson Rodrigues” para o dia 18 de fevereiro de 1967, uma quinta feira. E ele entregou em grande estilo. Começou dizendo que nascera no dia 23 de agosto de 1912, no Recife. Duas linhas depois, Mata Hari estava ateando paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris - e, daí a vinte linhas, a ação passava para o presente para a esquina de São José com avenida Rio Branco, com um camelô agitando um folheto e gritando:“A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil”Nelson descreve seu estupor. Nunca vira uma prostituição sendo apregoada nas ruas como se fosse sabonete, E o que mais o estarrecia era o povo passava pelo camelô, numa espécie de escoamento vacum, e ninguém achava nada estranho naquilo. Finalmente Nelson deu-se conta: fora vitima de um monstruoso engano auditivo. O que o camelô estava gritando era:


“A nova Constituição do Brasil! A nova Constituição do Brasil”Nelson nem precisaria explicar, como aliás não explicou: a nova Constituição do Brasil, a de 1967, elaborada a frio pelo sinistro Carlos Medeiros Silva - que lhe proibira “O casamento” - prestava àquele tipo de ilusão sonora.


<3 Lai



domingo, 11 de dezembro de 2016

A vida como ela é ....


A vida como ela é.... (De Lai e não do Nelson)

Tem dias...



Tem dias que dá uma vontade de falar com alguém. Alguém que não esta mais presente fisicamente, mas que vive na memória. O escritor Caio Abreu em uma de suas viagens para a França escreveu: “Então me sentei no banco de Quai de Bourbon de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, do outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se: II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) - frase de uma carta escrita por Camile Claudel a Rodin, em 1886.



Não estava em um dia tristíssimo assim como Caio. O caso é que sempre que passo por essa rua em frente desse cemitério e vejo essas senhoras portuguesas com seus maridos suas netas ou suas filhas, vendendo suas rosas, violetas, jasmins, cravos de defuntos... Lembro-me da minha mãe. Sinto o espirito dela próximo de mim. Sou acometida por uma vontade louca de comprar uma rosa, uma rosa vermelha e atravessar o belo portão de ferro e ali no meio daqueles túmulos branquíssimos, escolher um e depositar uma rosa para uma mãe qualquer. Mas não faço, sou má, fico na vontade e digo a elas bom dia enquanto passo, lembrando da mulher que ela foi um dia e da menina que fui e agora ainda sou. Será que essas senhoras tem a mesma ansiedade que minha mãe tinha em relação ao comércio, ao tempo e aos dias? Estava sempre ansiosa e aflita. Quando chegava a casa dizia que as vendas não foram boas, que ninguém comprou nada... Ficava nervosa. Eu nunca entendia, pois nunca nos faltava nada.



Esta anotada em uma agenda minha o último dia em que subi a rua do hospital, na rua que não era, mas agora é o local onde os remanescentes seus amigos os que restaram do seu tempo ainda estão lá a comercializar. Passei pela banca do Senhor Luizinho, as suas frutas ainda são as melhores e olhei para seu braço para ver se era o mesmo senhor e vi que era pois não tinha uma mão, a mão esquerda. Ao passar pela banca do queijo percebi que o dono me olhava eu passei reto fingindo não ver, não que não queria recordar, é também era isso, mas não queria era olhar para seus pedaços de queijos expostos, suas deliciosas azeitonas pretas, e o queijo faixa azul comprado todos os domingos para o macarrão que fazias com frango. Não estava a fim de passar por isso. E muito menos lembrar de mim a menina peralta que dias depois procurava em todas as latas, escondido por ti, um pedaço do queijo para comer com café preto assim como você fazia e que eu adorava. Hoje nem isso mais faço. Dizer que tudo ficou uma droga seria muita ingratidão minha com coisas boas que vieram. Aquele senhor que vendia limão ainda está lá. Como era mesmo o nome dele? Tenho raiva de mim metida a recordar se não sou capaz de chegar perto e perguntar: Qual é mesmo seu nome?
Mas o pior de tudo é a banca do Paulo, o Paulo pasteleiro. O pastel especial ainda é o mesmo, igualzinho, o mesmo sabor, a mesma azeitona, o mesmo queijo, a mesma massa, o mesmo ovo cozido... Só mudou os personagens. Paulo não está mais lá. Está lá seus filhos, um casal. Faz tempo que perguntei por ele, ouvi dizer que estava doente, hoje já deve ter morrido... E eu prometi a mim mesmo não me meter mais nesse assunto de lembrar. O local de enorme ficou restrito a bem poucos, mas os poucos que estão lá de dez, sete eram seus amigos. E todos queridos por ti. Você não está mais presente e tampouco o Q querido J Joana (meu pai) era assim que você o chamava.

Lai