segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Memórias do carcere de Camilo Castelo Branco revisitado por Lai em a vida como ela é


                                                                      Capitulo II


... Ano de 1860 século XIX, pensa que sou idiota – Pensei com meus botões a resposta daquele homem. Era só seguir a seta em direção a porta e encontrar um novo roteiro. É interessante supor Camilo Castelo Branco, de imaginação fértil, a resmungar na sua cela n.º 12, como leão enjaulado, por ter cometido crime que, agora século XXI, já nem o é: relações sexuais com mulher casada.


“O que nós queremos? Tudo” – (manifestação em Paris/1970)


“O que queres? O que queres?” – Gritava o homem dentro do carro com uma mulher que deveria ser sua mulher em frente ao cemitério de Paranhos. Passava eu por eles e assustada olhei, dei alguns passos a frente deles e voltei os olhos esperando ver o que acontecia para deixar aquele homem tão nervoso, nervoso é apelido, raivoso seria o nome. Aliás, nunca vi um lugar tão cheio de gente de maus feitios. Era sua mulher (só podia ser) que sentada esperava algo e foi ai que ouvi dizer. “Você quer que eu vá abrir a porta para você?” Não sei por que raios ela iria de querer isso, afinal pela aparência dos dois já deviam estar casados por trinta ou mais anos, não eram mais namorados, poderiam até ser amantes, mas nem isso. Pena pensar isso mas é assim que esse mundo funciona... Vi ainda ele saindo e ela abrindo a sua porta do carro e seguindo.  Ou seja, mulher seguia na frente e o homem seguiu atrás. Foram até a barraca da senhora vendedora de cravos e rosas de defuntos ali na calçada em frente ao cemitério. Iriam visitar seus mortos. Sabiam eles que também estavam mortos? Pessoas agressivas que não demonstram amor, amor fraternal ou algo assim estão fadados a morte se não a morte debaixo da terra essa que os olhos veem a céu aberto. Como eles podem se dirigir a quem não esta mais aqui, murmurar  uma oração, uma reza diante de tanta intolerância a dois? Um filme em câmara lenta rodava em minha mente com personagens estranhos e paisagens góticas. E todos com as mãos abanando, tanto desejaram. O que ganharam? Nada. 



capitulo II

Mais um dia, mais uma manhã nesse ambiente. Até quando meu Deus... Espero da liberdade que me tragam noticias de fora e papeis, preciso de muitos. Preciso escrever se não enlouqueço é quando saio e me olho de dentro para fora.



Todas as manhãs quando acordo sou acometido por enorme angustia enquanto agarro as grades enferrujadas tento ver as horas  no relógio da torre dos clérigos. Estou dentro de um monstro que me roubou o mundo e me fechou, preciso achar o caminho para não perder a cabeça e os pensamentos. Preciso do outro, preciso ouvir o outro nem que seja uma hora por dia. Espero logo mais ser levado ao pátio do sol e lá sentarei com a mulher que envenenou o marido escrever é um trabalho em que precisamos sujar as mãos. A. Plácido, esta instalada num corredor porque não há celas para senhoras de sociedade, ouvi dizer que a colocarão no segundo andar na ala destinada aos homens com alguma posse e as mulheres de condições. Enquanto isso senhora Joaninha, mulher de posses esta na cela das mulheres, celas de Santa Teresa. Está essa pequena senhora junto com outras condenadas a pena capital. Quando aqui chegou dizia a outros detentos ser inocente, depois diante das inúmeras provas  acabou confessando... A mim,  contou em detalhes o que fez naquela noite véspera de natal

- Matei sim, sim matei não adianta dizer que não. Matei porque      era a mim que estavam matando lentamente. Todos eles, marido, filhos e noras. Queriam meu dinheiro, estavam de olho na herança. Fui enganada quando aquele homem me disse que me amava. Isso foi antes, antes de casar... Depois mal falava comigo e quando falava era com segundas intenções. Era agressivo e dizia que eu era suja. O único beijo que me deu foi  quando eu tomei a iniciativa e mesmo assim limpou com a manga da camisa. O veneno era para ser consumido por todos. Coloquei a noite nas garrafas de vinhos. Soubesse que o resto da família ficaria nos bolinhos de bacalhau e nos ovos mexidos com grelos e cebolas teria começado por ali. Não existe crime perfeito, mesmo que seja premeditado, algo falha. Morreu me amaldiçoando o maldito 





Capitulo II

Contorno o edifício, olho em direção a sua sala, esperando encontrar seu vulto, penso ver suas mãos segurando a grade, ainda digo um ei Camiloooooo... Vejo  desaparecerem deixando o segundo grito preso na garganta. Não deu. Dou um passo para trás e sigo em direção ao Mercado do Anjo, esse formigueiro de vidas. Compro algumas frutas e legumes para o almoço e sigo em frente com destino a rua Ocidental do Bolhão.
Paro um senhor que passa por mim e pergunto a ele: - Por favor Senhor em qual século estamos? - Olhando-me surpreso prestes a me dar uma bengalada diz: - Como não há de saber minha senhora, estamos no ano de 1860, século XIX!



Capitulo I

Camilo....A primeira vergonha que senti foi quando encontrei seu túmulo no cemitério da Lapa, praticamente como indigente.A segunda foi hoje. Que decepção. ... Que desgraça. ...Está certo que não gostava de encontrar um monumento de reverência sobre um local onde foi sua via crucis. Mas isso? Um Museu de máquinas fotográficas. Façam me o favor. Simplesmente ridículo. Não combina com o prédio. Com o que foi: um tribunal e uma cadeia. Assim como não combina a sua foto e os dizeres do ano em que estiveste preso e o motivo. Como sê o motivo fosse uma punição eterna, embora na altura do campeonato é motivo de chacota. O que eu não entendo é porque permitem o seu nome e sua foto ali a troco de nada. Para atrair o que? Indignação? Adultério deixou de ser crime há muito tempo.
Aliás adultério é moda
Não é nem se a moda pega!


O que interessa a quem passa por ali ler sobre ou ver sua foto? Saibam que o tempo em que estive ali ninguém parou por esse motivo, sequer para ler. Exceto a otária aqui. Que entrou parou e pensou... queria encontrar algo.... Uma lembrança uma historia que fosse.... e nada somente essa vergonha. Mais uma Camilo para a sua coleção. Dentro do que foi a sua cela nada.... não se acha nada sobre a sua pessoa... sua cama, sua mesa, seus... livros... somente um monte de máquinas fotográficas horrorosas do tempo de Matusalém


Não entendo porque seu nome na porta e os dizeres: indiciado por crime de adultério, fizerem questão de escrever o crime cometido. Até em inglês. Só faltou o grego. Tive vontade de pegar a placa e jogar pela janela como se resolvesse. Farão outra....Eternamente não te darão paz, gente horrorosa.



"É preciso arrasar com tudo isso" 

- D. Pedro V - em 1861 se referindo a cadeia da relação


<3

É um mês de inverno e o ano 1860, quase dezembro, dois meses se passaram desde o dia em que me apresentei para cumprir a minha pena. Minha janela esta situada no último piso, conhecido com “quartos de malta” é a melhor cela individual da cadeia, mesmo assim isso de nada melhora meu estado de espirito que a cada dia se torna mais triste. Não sei dizer por quantas vezes minhas mãos ficaram pousadas no peitoril junto as grades enquanto meus olhos miram ao longe a igreja do Bonfim. 




É no silêncio do último piso, onde se situa a cela com janela para nascente que escrevo minhas memórias.

:)


E assim vou entrando em ti enquanto procuro ter a mesma visão e o mesmo sentimento que teve quando olhava pelas grades a procura de um pouco de liberdade .... Hoje estive novamente no prédio. O "carcereiro" disse que não era dia de visita olhei a porta que da acesso ás celas, estava aberta.... pensei em uma maneira de distrai-lo mas estava sozinha seria impossível e abrindo novamente a porta de vidro disse bom dia a ele é fui pelo lado da torre dos clérigos 

procurando ver o teu rosto no terceiro andar na grade da cela de número doze.

:)


Forcei uma porta de madeira, estava trancada. Carregava dentro de uma sacola alguns jornais, pão podre e algumas frutas. Trouxe o jornal do dia. Queria conversar contigo sobre essa coisa que agora tentam legalizar, a eutanásia. Aqui diz que a decisão só virá depois da visita do papa. Precisam sempre jogar seus problemas sobre as mãos de outro. O que diz a lei? Que lei? Ora, a lei dos homens e a lei de Deus. Ela não é clara sobre a vida? Não coloca um ponto final sobre a questão? Não, não coloca. Dizem que assim como temos direito a vida temos direito a morte, morrer com dignidade, morte piedosa, suicídio assistido e coisas desse tipo. Temos até filmes que justificam. Hollywood a máquina de fazer misérias já providenciou até a exaustão, para todos os gostos e de todo tipo. O mais famoso é: "mar adentro" é sobre um homem que mergulhou errado e se quebrou, assim como o nosso super homem Christopher Reeve. Cansado de viver invalido em uma cama,pede a um(a) amigo(a) que de cabo a situação. Um(a) amigo(a) cumpre o pedido do enfermo dando a ele uma dose de cicuta o personagem relaxa como De Niro em Era uma vez na America na casa chinesa fumando ópio e a câmara segue com o vento pela janela e ao som de uma música em uma imagem encantadora e nos os telespectadores hipnotizados, totalmente convencidos somos arrebatados para o voo da "liberdade" desse ser aprisionado. Quando as letras finais começam a subir estamos em estado de catarse e confusos ou certos, melhor não pensar muito, afinal 
morrer parece lindo.

Capitulo II .... 





terça-feira, 17 de janeiro de 2017

morte e vida Severina

Memórias de Severina (Escrito conforme narrado)

Faz 34 anos que minha mãe morreu e parece que foi ontem. Casamento é só uma vez, ela dizia. Ai um dia eu enviuvei e o pessoal falava assim: Severina arruma alguém. Fiquei viúva gravida da Bethânia. Mamãe sempre falava casamento é só uma vez. A mulher que tem filho deve pensar mil vezes antes de colocar alguém dentro da sua casa.. Na minha época se não casava na igreja não era casada. Casar no civil era o mesmo que ser amigada. Meu sonho era morar em São Paulo. Eu nunca respondi minha mãe, do jeito que eu fui criada eu criei meus filhos. A gente respeita os filhos para que eles respeitem a gente. Mamãe morreu do coração. Sim, a minha mãe teve um infarto na sexta, no domingo ela morreu.... Meu Deus e agora? Me deu uma depressão tão grande! Eu fiquei somente o couro e o osso. Só pensando e chorando. Quando foi? Já fazia um mês para dois mês. Eu não comia. Pelejava e não descia. Eu me lembro como hoje. Era meio dia eu estava deitada olhando para o teto, era fraqueza. Foi quando eu vi ela entrar e falou assim: "Minha filha levanta a cabeça, seus filhos precisam de você. Olha minha filha eu estou toda molhada, não chora mais". Então a minha vizinha entrou e eu disse: Não vou chorar mais pela minha mãe. Ai me levantei e criei meus filhos sozinha. Mas eu queria vir para São Paulo. Tinha uma mulher que eu lavava e passava. Nós eramos comadres de fogueira. Ai ela disse. Comadre tu tem vontade de ir para São Paulo? Sim, eu tenho mas não tenho dinheiro para pagar minha passagem e dos meus quatro filhos. Pode deixar comigo, ela disse. E assim eu vim. Em todo canto mora o bom e o ruim Meu filho mais velho mataram.Ele trouxe esse homem aqui em casa. Quando eu olhei para ele, esse povo que não olha na cara, não vi seus olhos. Meu filho era pedreiro.Ele foi morto dentro do alojamento. Esse cara matou ele. Olha eu não desejo isso para ninguém. Aquilo juntou tudo e deu o primeiro infarto. É difícil eu dormir a noite toda. Se a senhora olhar a tulha de remédios que eu carrego. Remédios para depressão... remédios para cabeça.... remédios para dormir. Quando eu morrer eu vou demorar para apodrecer. Quem toma muitos remédios não apodrece logo. Eu ainda trabalho. Limpo casas, lavo banheiro, lavo a sanita todo dia. Ai quando eu chego em casa, misericórdia, meu filho só falta bater em mim: "O que a senhora tinha que fazer já fez" .


Lai


Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.
Fernanda de Castro



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Meu tipo inesquecível - Nelson Rodrigues




<3

Com indisfarçado orgulho, o “Correio da Manhã” anunciou durante uma semana, em chamadas de primeira página, as “Memórias de Nelson Rodrigues” para o dia 18 de fevereiro de 1967, uma quinta feira. E ele entregou em grande estilo. Começou dizendo que nascera no dia 23 de agosto de 1912, no Recife. Duas linhas depois, Mata Hari estava ateando paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris - e, daí a vinte linhas, a ação passava para o presente para a esquina de São José com avenida Rio Branco, com um camelô agitando um folheto e gritando:“A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil”Nelson descreve seu estupor. Nunca vira uma prostituição sendo apregoada nas ruas como se fosse sabonete, E o que mais o estarrecia era o povo passava pelo camelô, numa espécie de escoamento vacum, e ninguém achava nada estranho naquilo. Finalmente Nelson deu-se conta: fora vitima de um monstruoso engano auditivo. O que o camelô estava gritando era:


“A nova Constituição do Brasil! A nova Constituição do Brasil”Nelson nem precisaria explicar, como aliás não explicou: a nova Constituição do Brasil, a de 1967, elaborada a frio pelo sinistro Carlos Medeiros Silva - que lhe proibira “O casamento” - prestava àquele tipo de ilusão sonora.


<3 Lai