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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Carlos Heitor Cony - Lua de São Jorge



Cony

Conheci Cony no início da década de 90, quando morava nas montanhas, já tinha o hábito de ler jornal, coisa que hoje abandonei completamente. Naquela época morava na última casa enfiada nas montanhas de M.V. E assim para preencher o tempo, quando cansava de olhar as nuvens descendo e subindo pela janela da sala, comecei a colecionar crônicas de jornal. O primeiro caderno, o cotidiano a ilustrada e o caderno 2, o resto eu jogava fora. Ia uma vez na semana até a Vila, a rua principal e ali comprava ou pedia para os amigos que assinavam que guardassem os jornais e assim fui adquirindo as crônicas de Cony. Na verdade, comecei com Tarso de Castro, mas ai ele morreu... e passei para o Otto Lara Resende, mas ai ele também morreu... recortava-as e colava em um caderno. Tenho esses cadernos até hoje, ruídos pelas traças. Recentemente folheando um, encontrei Lua de S. Jorge, procurei no google, achei no link da Folha de São Paulo que só autoriza o acesso se eu for assinante, como não sou e não mais serei tive que digita-la na integra. Eis...


Lua de São Jorge
Coisas que acontecem: ia fazer 50 anos, teve um caso por aí, nasceu-lhe um filho. Brigas daqui, brigas de lá, separou-se da mulher, dividiu bens, mas não foi morar com a mãe do garoto, preferiu continuar sozinho.
Cumpria suas obrigações, pagava contas, mas não queria nada com a mulher que lhe dera um filho à revelia.
Eis que ela teve de se internar, um acidente de carro. O garoto caiu-lhe como um dever, que ele dividiu com uma jovem que se oferecia pelos jornais para cuidar de crianças de pais solitários.
Ele então chegava cedo do trabalho para ver a moça adormecer o filho. Ela cantava baixinho, a voz parecia vir do espaço e não da sua boca. Nada de “Eu fui no tororó” nada de bicho-molungu, boi da cara preta, o repertório gasto que fez dormir todos nós.
A moça cantava Lua de S. Jorge, a música que ele mais gostava do Caetano Veloso. Evidente que o menino não entendia a letra mas adormecia no embalo da melodia que vinha mais do espaço do que da carne do mundo.
Ele entendia a letra, amava a música e amava sobretudo o canto da moça, baixinho, soprado no rosto da criança. Ela cantava, em parte para acalentar o guri, em parte para acalentar a si mesma.
Invocava a lua.
Nem era a lua que ela invocava, mas um duende boiando no infinito da noite, o santo-guerreiro que nunca existiu e por isso ficou exilado lá em cima, mancha azul num disco de prata rolando na treva.
A mãe do menino saiu do hospital, veio para casa, pediu de volta o filho. Ele nunca mais ouviu a voz da moça, cantando baixinho a lua soberana, a lua que acalenta o sono das crianças e que acalentava o sono dele.
Sozinho na noite, ele ouve ainda aquela voz macia. O dia amanhece, e a lua de S. Jorge nem aparece para iluminar o que restou dele – se é que restou alguma coisa

Carlos Heitor Cony  
Lai 









quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Miss Julie



Miss Julie



Calhou


que caiu uma tempestade ontem
Eu estirada na cama com o cabelo cheio de color perfect 7.4 da Wella
ouvindo raios, trovões, água caindo pelo telhado e o mar revolto
querendo engolir o mundo com tudo dentro
Com essa maquina aqui ligada
procurando na toca
um filme
Dei inicio ao Veredicto com Paul Newman
Dez minutos depois pensava
"Deus, de novo aquela mulher vegetal na cama em mais um trilionésimo erro médico! Quem aguenta ver o desespero da família procurando justiça ao lado de uma advogado bebaço!!!"
E assim fechei a pagina e voltei a procurar uma outra página
já estava entediada quando vi Miss Julie
Um filme tão falado por alguém que não sei mais quem
sei que é um
morador aqui do face
O que me assustou logo no inicio foi a duração do filme
duas horas e dez minutos.
Mesmo assim permaneci ali, firme,
tipo: quem está na chuva e para se molhar
No inicio achei até motivador a garotinha saindo do castelo solitário
a procura de uma alquimia,
no campo, no vento, nas árvores, no lago...
Depois fui engolindo os caprichos de uma mulher neurótica e solitária
Pior ainda foi encontrar ao seu redor pessoas mais doentes do que ela
E tudo em único ato
Noite do pleno verão
Espero que ninguém tenha desejado se levar
pelos cabelos ruivos, olhos azuis e boca carnuda da personagem e tenha suspirado e dito: "Que linda, quero ser assim"
Ou os homens inspirados em uma cafajestice e uma foda
tenham desejado ser um engraxador de botas
Parece que ouvi um: "Ate parece!"
Bom, o filme é cheio de diálogos infames, tipo:
- Não sei quem sou
- Eu também não
- Não sabe quem sou?
- Diga que me ama senão nada sou
Os quinze minutos finais são simplesmente deprimentes, escritos por uma cabeça doentia, para outras cabeças mais doentias ainda
Pior que o pior já dito, foi ver em seu final
a empregada com um vestido fechado até as goelas, um chapeuzinho tão ridículo quanto sua fala
pronunciando:
- Deus não é observador de status, com exceção dos últimos que serão os primeiros e é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ... ( o resto vocês já sabem)
O filme termina com o engraxador de botas colocando em suas mãos uma navalha, a mesma que ele usou para fazer a barba
dizendo a ela que só restava uma coisa a fazer e que devia se apressar (como Judas)
E a idiota obedece
quando ela sai,
abre o portão e começa a caminhar pelo campo o mesmo
do inicio do filme
Eu espectadora estupida ainda tive um lampejo de esperança e pensei ela vai tomar o mesmo rumo da garota forte e corajosa que foi um dia
Mas qual
ela ainda desfolha flores e fala alguma coisa bonita,
uma poesia engana trouxas
e a câmara lentamente segue mostrando as flores seguindo o curso do rio, tão delicado
para logo mais vir ao encontro delas um filete escuro de sangue
Não aconselho o filme para ninguém
exceto para os especialistas em psiquiatria
e os estudantes de direito que estejam a fim de ver como age uma pessoa que induz outra ao suicídio
ou como um roubo seguido de morte pode permanecer misterioso
por longo tempo ou para sempre
Eu quero mais é que ele desapareça da minha mente
Exceto a música
que fui procurar no youtube
https://youtu.be/Il6-lZYDpqYquando descobri que era o 929 de Schubert, quase sai aos berros
por favor o 929 não,
O 929 não combina com patifarias
coloquem uma porcaria qualquer, mas não o 929 de Schubert,
sua Liv Ulmann lazarenta


lai




domingo, 27 de agosto de 2017

Macabeia a procura de Clarice


O que é Preconceito:
Preconceito é um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento crítico ou lógico.


O que é Xenofobia:
Xenofobia significa aversão a pessoas ou coisas estrangeiras.
O termo é de origem grega e se forma a partir das palavras “xénos” (estrangeiro) e “phóbos” (medo). A xenofobia pode se caracterizar como uma forma de preconceito ou como uma doença, um transtorno psiquiátrico.
O preconceito gerado pela xenofobia é algo controverso. Geralmente se manifesta através de ações discriminatórias e ódio por indivíduos estrangeiros. Há intolerância e aversão por aqueles que vêm de outros países ou diferentes culturas, desencadeando diversas reações entre os xenófobos.


É a primeira vez que acesso um dicionário para saber a definição desses dois infelizes sentimentos. Sempre soube que existiam, mas na altura do campeonato da minha vida estavam tão distantes de minha mente e coração habitavam minha estante no dicionário, e em livros de histórias .

Assim como se aprende a amar se aprende a odiar. Fui criada por uma mãe e um pai ausente. Minha mãe era a pessoa mais tolerante que conheci Lembro que quando podia me levava ate um bairro onde vivia um povo de olhos puxados que ela dizia terem vindo de um país localizado bem debaixo dos meus pés o que fez com que até hoje eu sei onde esta o Japão e o povo motivo de tanta fascinação que preencheu minha imaginação infantil

Com os primeiros anos escolares ganhei amigos de todas as raças, crenças e religião diferente.
Se soubesse que seria em um País irmão que conheceria na pele essa ignorância diria: é mentira.

Estava eu um dia em uma loja de roupas olhando lixos pensando em como gastar aquilo que não vale nada.. . Foi quando percebi que o tempo voou que perguntei para a primeira pessoa que passou: Que horas são? Conversa vai conversa vem, fomos tomar um café juntas. No café fiquei sabendo que seu quarto não tinha janelas e que sua senhoria não a deixava lavar suas roupas. No café conversa vai conversa vem ela ficou sabendo que eu era prisioneira em um confortável apartamento cheio de janelas que eu não podia abrir, e ate minhas malas fechadas fediam Chesterfield Classic Blue, e se as paredes e a cortina do banheiro estavam pretos pela nicotina meus pulmões estavam se tornando um caso perdido. Conversa vai conversa vem decidimos alugar um quarto ou um espaço juntas. Foi ai que lembrei de um senhor que tinha um prédio do inicio do século passado na rua Faria Guimaraes cujos quartos eram alugados para gente como a gente. Combinamos que eu ligaria e marcaria o dia e assim ocorreu. No dia marcado eu cheguei mais cedo e esperei com o senhorio na esquina do prédio. Longe eu a reconheci e disse a ele: Ela vem vindo. Ele olhando responde em forma de pergunta: Ela é negra? Tive que olhar de novo e esperar ela sair da sombra do prédio e entrar na claridade do dia e do sol para descobrir. Foi ai que eu entrei em um mundo desconhecido era como se estivesse diante de um perigo eminente. Disse a ele apontando para o meu braço: Ela é um pouco mais morena que eu . E ele respondeu: Ela é preta. Não preciso dizer que ao negociar o quarto ele se tornou mais caro do que o combinado por telefone e ate as copias da chaves tinham o preço do aluguel. Minha amiga sem nada saber ainda foi ate as proximidades do metro Marques tirar cópia do seu passaporte enquanto combinamos voltar no outro dia com minha cópia , pois passarinho que sou, não ando com passaporte na bolsa. Ele ainda nos fez de trouxa mostrando com azedume os outros andares velhos sujos e poeirentos. Depois do teatro quando já estava em casa ele ligou para dizer que alugava somente para mim, para minha amiga não...


Não sei por que estou escrevendo essa merda toda, isso é pouco diante das atrocidades que o ser humano é capaz...

Lai





viajando com Ludmila Inachvili



obrigada por ter ido
tanto queria ter estado em pessoa contigo mas não deu
e agora enquanto digito a ti
meu computador esta contaminado
o francês tem o seu domínio
Andei contigo no escuro debaixo d'água
passo a passo...
e acabei fazendo como das outras vezes andando a esmo
Virei a direita na rua do Banco Bradesco e na bifurcação parei naquele pequeno reduto rodeado por araucárias e lembranças 


logo acima desse momento de paz ouço o barulho
do hotel cabeça de boi ...
encontrei o palhaço vassourinha e outros que se foram
Vanusa Barbosa tao jovem e linda


Dona Anita e sua receita de Apfelstrudel que tanto pedi 
em nosso ultimo encontro... 
E ela disse: é segredo


Alemão em sua casa próximo a lareira com Eva Felix 
e sua imensa dor e anos depois seu filho Eli meu companheiro de caminhada 
em um mergulho fundo dizendo adeus..


Tantos acontecimentos que tu não viu mas passou tão perto
tocou todos eles com seus lindos olhos azuis


A casa da Lucia Boetcher há um ano não é mais a mesma e nunca mais será
e desde entao não sei mais quem sou

Lai



Houve uma vez Aveiro:


Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,


Picoté
par les blés, fouler l’herbe menue:


Rêveur,
j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.


Je
laisserai le vent baigner ma tête nue.


Je
ne parlerai pas, je ne penserai pas :


Mais
l’amour infini me montera dans l’âme,


Et
j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,


Par
la Nature, - heureux comme avec une femme.


Rimbaud





Tem horas que sentia saudades dele. 

Acontecia assim pelas manhãs... 

ou a tardinha quando o sol estava se pondo  

 escutava a sua voz chamando: Xuxu ...  

Pedindo algo. 

Tinha prazer em a tratar como empregada 

ou era um modo carinhoso/grotesco de falar. 

Nunca soube. 

A imagem que tinha era ele ali perto de si 

e o garrafão de água 

com o copo na mão gesticulando 

como surdo mudo em língua de sinais para que  enchesse o copo para si. 

Não pedia por favor. 

Empurrava o braco indicando o garrafão de água... 

Parecia um invalido. Ou um rei de uma tribo tribal. 

Como posso sentir falta de alguém assim? Pergunta

 É fácil analisar 

  acostumada com seu sequestrador 

 como aquele pessoal que esteve preso em  Auschwitz.

No inicio ouvia: Amo- te

Depois

O meu amor por você não fez com que eu parasse de fumar
ou

O meu amor por você não fez com que eu voltasse a pintar

So faltou dizer:

O meu amor por você não fez com que eu tomasse um banho 

durante esses nove meses

E depois foi  desprezando como um fardo 

e nao consegue mais  ouvir a sua voz 

e quando ouvia pedia: 

"resume em uma palavra". 

Acredita ser uma alma evoluída a passar por essa vida...

 É a vida dizia.