segunda-feira, 13 de junho de 2011

CARNET D' ADRESSES




É uma caderneta de endereço
 Uma agenda pequena. Foi um presente de Sergio Jones Mendonça. Não sei por onde anda Sérgio. Não consigo imaginar como nunca cruzei com ele pelos metrôs, pelas ruas e travessas da Paulista, como não cruzar com alguém  louco por filmes, teatro, viagens e livros? Ele gostava de  dar presentes. Livros eram o seu e o meu presente preferido. Acho que foi com ele que aprendi a ter os livros esparramados por toda a casa como companheiros inseparáveis. Ele sempre sabia quais os melhores lançamentos. Ah, como é bom estar entre pessoas que lêem! Quando soube que estava indo de mudança, Sergio me trouxe esta agenda. Na época ele trabalhava na livraria francesa, próximo a estação República.  Ensinou-me algumas palavras em francês a única que recordo é esta: ‘Je suis desole’ que significa eu sinto muito. Tenho certeza que nos meus momentos de delírios virão à tona outras palavras.    As anotações que aqui encontro calam fundo em mim. Todos os medos adquiridos estão aqui. Encontro dificuldade em como me localizar no tempo. Na época havia decidido que não teria passado e sendo assim não anotava dia mês ou ano de nenhum acontecimento. Nem mesmo sei quem são esses nomes que agora emergem e mistura-se com o que realmente existiu. São anotações escritas numa letra estranha que não é a minha. Algumas anotações como estas: “Um amigo fiel é um escudo poderoso”. “Um amigo fiel é o bálsamo da vida...” E algumas folhas em branco, depois, uma carta escrita a lápis quase desaparecendo. Talvez você queira ler, pois ela começa assim...


Hoje faz uma semana que vivo sem você. Se ao menos a noite fosse feita de um minuto seria tão menos angustiante. Mas não, elas são enormes, intermináveis. Passo a maior parte deles dizendo a mim mesma: "Isso acabará, isso acabará".  Seu filho acabou de ligar. Ligou pra se despedir ou não sei mais o que, pois não o ouvia. Minha compreensão me falta. Porque tudo é indizível. Será que noto as flores? Não! Será que noto a paisagem por essa janela? Não! Passo a maior parte do tempo num redemoinho, como alguém durante um sonho. O tempo é uma questão penosa. Como viver esse tempo? Será que você me vê como eu te vejo? A noite é mais difícil de suportar. O silêncio me apavora. Silêncio nos degraus da escada, silêncio nos quartos, silêncio no alto junto ao teto, silêncio no silêncio. Se você estivesse diante desse silêncio e dissesse: “Não se assuste, sou eu.” Mas a realidade é um horror que paralisa meu coração. Meu Deus, se eu pudesse partilhar com alguém algo disso tudo. Digo a mim mesma: nada aconteceu e que as pessoas são livres para fazer suas escolhas, mas quanto mais penso nisso mais me inquieta a possibilidade de que essa escolha seja definitiva. Nessa manhã apareceu por aqui um casal. Olharam a pousada. Na hora caia uma garoa fina e as nuvens passeavam por nós. Conversavam entre si. Foi somente quando chegamos ao fim do gramado que ela me disse que o local era muito triste que não conseguiria ficar ali um final de semana. Eu quase lhes disse que eu também não, que queria ir embora para casa, se tivesse uma. E no instante em que começaram a ir embora me via ajoelhando diante deles erguendo as mãos e suplicando: ”Tirem-me daqui, levem-me daqui” Noite passada ouvi barulho de carro, corri até a janela, só vi um clarão. Pela manhã marcas de pneus, pneus de Jipe eram os seus? Depois daquele casal, ninguém mais apareceu, exceto um cavalo ou outro. Tínhamos por hábito a noite deixar o vídeo ligado gravando a sessão coruja, e graças a esse hábito havíamos colecionados alguns clássicos como: O Veredicto, Anatomia de um crime, O diabo disse não e O homem que matou o facínora... Liguei o vídeo para ver o que ficou gravado e encontrei dois filmes um alemão e um outro italiano com a trilha sonora de Ennio Morricone, música linda, deixo-a tocando em repetição, inundando todo o vale e depois as montanhas, que ela envolva tudo; e não a mim. Chegará o instante em que minhas forças estarão no fim, não pode demorar muito. Meu coração está arrancado e não posso mais viver, ainda que meu torturador me tenha abandonado. Ainda resistirei? Quando acabarei de cair? Seremos aliados? Seremos inimigos? Por quanto tempo?

 Mlailin  






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