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segunda-feira, 5 de março de 2012

Quebrângulo


FLASH-BACK


Seria uma tarde e uma noite longa

Não olharia o relógio e nem contaria os minutos nos dedos
ficou até as 3hs da tarde sentada estática, quase em choque, olhando as pessoas humildes que entrava e saiam daquela rodoviária em Natal/RN.

Tentou ler e fazer algumas anotações, era mais uma vitima da apatia. Quando o relógio quase marcava 4hs  pensou: Já deu tempo. Já deu tempo do dinheiro cair na conta e assim foi em direção ao guarda-volumes. Guardou suas malas e se dirigiu ao caixa eletrônico. Suas malas poderiam ficar ali até as 6hs da manhã do outro dia. Foi até o guichê e decidiu por Natal/Brasilia. Se dissesse isso,  a chamariam de louca. Depois de tanto pensar a sua bussola mental indicava esse o caminho. Era mais forte do que a razão, se é que vivia em um mundo de razão. A outra opção era esperar o outro dia, o sábado, e seguir as 13hs para o Rio de Janeiro e depois São Paulo.  O imã interno existente dentro de si, chamado coração, indicava Caruaru, Quipapá, Cupira, Jacintinho, Praia Jatiuca, Sete Coqueiros, Praia do Francês, Barra de São Miguel, Palmeira dos Indios, Quebrângulo, Pedra Pai Inacio, Chapada Diamantina, Lençois, Arapiraca, São Miguel dos Campos, Cacimbinhas, Minador do Lucio, Alvorada do Norte, Posse, Barreiras... Não necessariamente nessa ordem... A mente humana não existe ordem. E que importância tem a ordem no meio da desordem?

Depois de tudo feito ainda teve tempo de sair e olhar pela última vez para aquela terra insuportavelmente quente. Havia alguns carros parados e quando passou por eles um homem perguntou: "Mossoró?" Que diabos poderia querer em Mossoró? No céu um pequeno filete de lua se formava. A testemunha fiel no céu. Levaria ela como lembrança e levaria três sorrisos, de três meninas do bairro de Nazaré/RN, o resto poderia ser colocado em uma história de Stephen King. Quem sabe qual é o ponto do qual não haverá retorno? E será que saber disso com antecedência faria alguma diferença?

Passou a tarde e a noite ali naquela rodoviária e as 4hs da manhã chegou seu ônibus vindo de Fortaleza. Mal sabia ela que ele iria entrar em vários estados, parar em várias cidades como um circular. Seria tudo muito rápido e não estava preparada para isso, se soubesse não teria dormido, não teria ficado quando acordada hipnotizada pela paisagem da estrada com o caderno fechado em seu colo e a caneta rolando em suas mãos.

Era um ônibus de dois andares estava no primeiro banco, bem de frente para a estrada, do seu lado um homem, um cearense vindo de Fortaleza, um viajante, um falador, e assim foi contando, sem ter pedido que fizesse isso, a história de todos os lugares por onde o ônibus percorria. Via uma paisagem verde. Árvores lindas, lugares vivos, pessoas dentro de rios, dentro do mar, via o sol, o calor, frutas maduras... Onde estava a seca? Onde estava a caatinga? Os pés de cactos? A falta de água? Na rodoviária de João Pessoa subiu uma mãe e uma filha com um vestido tomara que caia. As duas tinham como destino Maceió, e estavam a procura do pai e marido que havia vendido a casa e sumido com o dinheiro. Quando desceram o cearense acompanhou a filha com olhar até sumir de vista. Ficou olhando aquele olhar e pensou em seu pai cearense como ele e entendeu mais ainda a cultura do flerte da paquera do acumulo de mulheres ao longo da vida, da vida desregrada, da pouca vergonha  e a origem do câncer de próstata. Pensou também naquele homem que ficou lá em Capim Macio no olhar que deu em seu quadril. Podia escrever bunda? Pois é foi ali que seus olhos azuis esbranquiçados se fixaram enquanto se dirigiam ao elevador no primeiro dia de sua chegada... Sentiu vontade de vomitar...

O ônibus fez o caminho do mar e ela teve o privilegio de admirar uma paisagem estonteante. Mas foi em São Miguel dos Campos/AL que entraram duas pessoas, Suzana e seu padrasto que iriam mudar o seu trajeto  o fascínio e a importância  daquela viagem. Iam para Quebrângulo visitar o avô que estava doente. Quando disseram Quebrângulo, seu coração pulou. A cidade de Graciliano Ramos!

Foi ai que acordou...

Continua...

Mlailin






20 comentários:

Dona Sra. Urtigão disse...

Muito bom ! Adorei !
Cutucou a vontade de viajar da velha. Ah1 Qualquer dia eu vou por aí !

Mlailin disse...

Vai gostar
Mas venha a procura de histórias da terra
Oh coisa boa
tanta coisa pra contar...
Das cidades pequenas
Porque das grandes só por Deus
Bjs

legalizacaoimobiliaria disse...

Como sempre você arrasa nos textos, fazes com que viajemos, pelas asas que trazes nas pontas dos dedos, que são recheados de emoção sempre.
Esse compartilhar contigo de suas aventuras é algo que preenche muito bem a sede de viajar nas letras.
Doces beijos para você, encantador.

sueli aduan disse...

Que viagem!!!Nas letras e na "estrada", emocionante.
E ,apesar das diferenças paisagísticas, a imagem 'me lembrou " Apiaí morei lá (ichi há tempos)... sossego", amei!

bjão

amanda disse...

Podia voltar de avião ahh podia!!! mas não ela queria historias e assim fez

Mlailin disse...

meus dedos voam na imaginação
bjs

Mlailin disse...

Já disse que se vc não existisse eu te inventaria?

Mlailin disse...

Avião é para os pobres mentais
te vejo logo mais

Mlailin disse...

não percam a continuação

Cleo disse...

Marcia,adorei, muito bom você me trazer para um passeio destes. Fiquei encantada com o texto e as fotos, parabéns.
Beijos.
Cleo(Cleonice lá do facebook.)

mit disse...

Amei o texto !!! Parabéns!!

Marcia Lopes

OZNA-OZNA disse...

Gracias querida y admirada poetisa por invitarme a tu bella morada y deleitarme con la belleza de tus letras, muchos besinos con todo mi cariño y admiración.

Cibele Neves disse...

Adicione mais uma admiradora de seus escritos, Marcia!
Viagem interessante, com detalhes regionais, com belas imagens... ah, me bateu uma saudade no nordeste!
Aguardo a continuação.
Parabéns!
Um beijo.

Mlailin disse...

Que bom que gostou
è para vocês que escrevo
Bjs

Mlailin disse...

Bjs Cibele
É para vocês que escrevo
para gente como a gente
Fique ligada
cont.em andamento

Gerusa Leal disse...

Interessante, Márcia. Meu pai nasceu em Quipapá. Fazia tempo que não via a cidade ser mencionada.

Mlailin disse...

Quando vi essa placa na estrada
pensei: deve ser um papá muito gostoso
Além de ser uma linda cidade
Muito verde...
se eu fosse vc iria conhecer
eu vou voltar... Bjs

Mlailin disse...

Obrigada pelo seu gentil comentário
sigo em frente
bjs

Toninhobira disse...

Com arte nos levou pelos caminhos do sertão numa viagem fantastica.Com dedos nervosos e com detalhes perfeitos que nos coloca na cena.
Voce sempre otima nestes textos e vim e gostei Lailin.
Se ja não seguia, to seguindo.
Meu abraço.

Mlailin disse...

Beijos Toninho
Que bom que esta aqui tb
além dos escritos na linguagem