segunda-feira, 21 de maio de 2012

Para Nena, com amor



“A primavera é uma menininha pulando na corda cabelos ao vento pulando e cantando debaixo da chuva curtindo o frescor da chuva que desce do céu o cheiro da terra que sobe do chão o tapa do vento cara molhada!” – Mario Quintana.


          Era esse o sentimento gostoso que emanava da convivência com Nena. Uma agradável poesia de Mario Quintana... Espirituosa, encantadora. Conheci Nena quando fazia um curso de mandarim. Era domingo, estávamos todos reunidos quando aquela bonita senhora de 95 anos apareceu.  Fazia um ano que eu frequentava aquelas aulas. Estava ali não por acaso. Foi uma fuga. Foi quando ouvir minha própria língua se transformou num tormento. Eu não queria ouvir, não queria entender mais ninguém para poder encontrar comigo mesma. Convicta disso, resolvi aprender chinês. Meus amigos diziam:

           “Credo! Você vai aprender essa língua horrível? Por que não vai aprender francês?”. Eu respondia:
          “Pra quê? Se estivesse atrás de ser entendida poderia até ser”







         Com o tempo descobri que falar com a língua no céu da boca era simplesmente impossível. Não preciso dizer que me tornei um fracasso nisso. Enquanto via meus companheiros num esforço fora do comum, eu ficava em silêncio não me sentindo uma incompetente ou me abalando interiormente. Ali não estava nem o meio nem o fim da minha jornada.   
           Vem daí meu nome Lai lin.
        Lembro como hoje, ou como o ontem... Foi em um domingo ensolarado, duas horas da tarde... Cristina dava aula de mandarim para a turma adiantada. Eu não fazia parte do grupo, mas me era permitido ficar no canto da sala ouvindo. Sempre me foi permitido ficar em algum canto... Como era bom ouvir e não entender nada... Foi nesse domingo que ao chegar dei de cara com montes de caixas contendo livros. Uau! Meu Deus! A maravilha das maravilhas! Um mundo ali, na minha frente, pronto para ser decifrado. E só por mim, não tinha que dividir com mais ninguém, porque ninguém mais se interessava. Quem gosta de livros antigos e amarelados. Do jeito que eu gosto. Bem conservados e cheirando a tempo. Da forma que me foram apresentados por minha mãe na biblioteca do SESI quando eu tinha 8 anos e depois deixados por ela, para mim como herança. Eram clássicos e mais clássicos... Respirava profundamente. Que cheiro bom! Cheiro de infância. Cheiro de saudade... Muitos, muitos e muitos... Livros dos anos 1948 a 1990. Na primeira capa um nome: Nena. Foram doados por ela para venda na reciclagem. Tinha vendido seu apartamento e precisava se livrar de muita coisa. Desse dia em diante os domingos tomaram um gosto diferente, perdi o interesse pelo mandarim e pelas pessoas ali presentes, não me importava mais se ficava no fundo e não participava mais porque era isso mesmo o que eu queria que ninguém me visse. Eu não queria mais participar dessa festa. A vida estava toda ali, cheirando a guardados a mofo. E que vida! E depois estava cansada de representar que gostava de aprender chinês. Agora estava lendo na minha língua o livro Crime e castigo e depois havia a seleções de janeiro de 1975, na página 5 trazia o artigo: “As portas da China começam a abrir-se”, mal sabia eu que não eram as portas da China que estavam se abrindo, mas as portas da Rua Cincinato Braga onde Nena morava.  Depois... Bem depois, a única coisa que eu ouvia era meus passos subindo as escadas e Cristina me cumprimentando: "Ni Hão?". A sensação que eu tinha era que se eu respondesse iria perder muito tempo, e eu não tinha tempo. Assim dizia mentalmente: "Me esquece"
          Como tudo o que é bom dura pouco um dia tudo sumiu, as caixas, os livros, assim também como a mesa onde lia e fazia pesquisa, a estante onde estavam outros livros e até um belo quadro do paraíso que eu costumava ficar olhando e me imaginando dentro dele sumiu, e a sala ficou vazia sem vida.  No meio de tudo aquilo tinha achado e guardado comigo um papel amarelado, era uma poesia, dizia: “Hoje tenho muito o que fazer/devo matar a memória até o fim/minha alma vai ter de virar pedra/terei de reaprender a viver”.  Parecia um conselho escrito pra mim. Dobrei aquele papel e guardei na minha agenda e de vez em quando o lia.

          Tentei dizer isso a ela, o quanto aquele papel era importante para mim. Tentei dizer isso quando ficou doente e fui até a sua casa visita-la. Foi em uma noite que consegui dizer. Estava ao seu lado em sua mesa de jantar. Havia sido contratada para cuidar dela.  Eu e Rosana estávamos às voltas com a sua janta, preocupadas em como convencer ela, em como reverter o quadro a um tempo passado em que ela pudesse engolir aquele caldo sem vomitar. Ao lado do seu prato, um monte de remédios que ela deveria tomar. O mais importante Dimorf, como ela mesma dizia era sempre deixado por último. Senti que ela estava cansada de tudo aquilo e que eu deveria fazer algo para distraí-la. Então tive um estalo. A hora chegou, seria agora ou nunca. Fui pegar minha agenda. Peguei o papel com aquela poesia amarelada pelo tempo e li.  Ela sorriu e eu disse a ela sobre as revistas, os livros doados que eu esparramei por toda a sala, e fiquei durante todos aqueles domingos sonhando que todos seriam meus juntamente com uma antiga máquina de datilografar. Falei também sobre o longo tempo que carregava aquele papel comigo. Então ela se acalmou. Não sei se falei sobre a importância daquela anotação, acho que não foi preciso.

          Comecei a ter contato com Nena numa quinta-feira. Cleonice me ligou pedindo que eu arrumasse alguém para ficar no hospital como acompanhante. Ficaria com ela naquela noite. Mas na próxima não podia, estava cansada precisava descansar na noite de sexta. Comecei a procurar alguém. Encontrei uma senhora casada com três filhos. Ela se propôs a ir, depois fiquei pensando: “Como alguém com marido três filhos poderia ficar em paz num tempo indeterminado com uma doente?” Subia as escadas com essas ruminações quando minha voz interior me disse: “É você quem vai” Não questionei, mesmo sabendo que seria uma noite longa e dura. Nem quando o tempo passou hesitei, tinha comigo a voz de minha mãe que numa noite de insônia havia me dito: “Nunca ouvi dizer que alguém morreu porque não dormiu você não será a primeira”. Não lembro que horas cheguei. Sei que cheguei na hora combinada. Sei disso por que tenho essa horrível mania de cumprir o combinado, e esperar que se façam o mesmo. Quando penso naquele dia ele me parece tão distante como um sonho que acabamos de sonhar e ao acordar não lembramos mais.
        
          Era a hora do almoço. Nena estava sentada na cama. Cleo falou para ela que eu viria, mas ela não sabia quem era assim fomos apresentadas e Cleo foi embora. Estava magra, abatida e com as duas pernas inchadas. Passei as mãos pelos seus cabelos e ela disse que não gostava que fizessem isso. Então toquei em seus pés delicadamente mesmo assim ela gemeu de dor. Tentava distrai-la pedindo que me contasse algum fato da sua vida.

          Nossas conversas eram interrompidas pelos seus pedidos para a enfermeira ou para quem a visitasse. Pedia para sair daquele quarto. Queria um quarto só para si. Tinha esse direito. O convênio lhe dava esse direito. O hospital alegava excesso de enfermos. Tinha que ficar na fila de espera. À noite ela me pediu que colocasse no canal da novela, a novela a ajudava a distrair. Como ela não conseguia ouvir pediu que eu contasse o que eles diziam. Eu também não ouvia, a televisão estava muito longe.  Não entendia nada do que estava acontecendo. Assim comecei a inventar de acordo com a cara do personagem ia criando a fala. Acho que estava certo porque ela não reclamou. O que me fez chegar à conclusão de que novela é tudo igual só mudam os personagens. Quando acabou ela pediu que eu a ajudasse mudar de posição. Chamei uma enfermeira. Cada movimento, leve ou brusco fazia com que ela gritasse de dor. Todos os seus ossos doíam. Enquanto a enfermeira mudava pegava em suas pernas ela me abraçou fortemente pelo pescoço e me disse que se sentia acorrentada na dor e que só quem passa por ela e quem sabe. Quando o tormento terminou ela pegou minhas mãos e fez uma oração.  

          Quando terminou pediu para fuxicar os cobertores em cima dela. Fazer o quê? Fuxicar, ou seja, enrolar os cobertores em volta do seu pescoço. Depois ela fechou os olhos e eu pensei que eu também iria fechar os meus. Assim fui atrás de uma outra cadeira para fazer uma cama. O hospital não tinha aquelas cadeiras que se transformam em camas. Eles tinham uma cadeira comum dessas que ficam em consultórios. Juntei as duas e tentei entortar meu corpo cansado nelas. Acho que dei um leve cochilo e então acordei com ela me chamando e assim a noite foi passando e a dor não se acalmava e ela foi me acordando de hora em hora, às vezes pedindo que passasse creme em suas pernas ou então para perguntar as horas ou para desabafar comigo:

“Ah, como me dói às pernas. Ficar nessa posição de aleijada. Eu não sou aleijada. Deixaram-me aleijada. Quero morrer e acordar no paraíso. Se alguém disser: O quarto esta vazio pode ir para lá. Não vai adiantar nada. Nada me distrai. Quero ir para casa. Pra minha cadeira de rodas. Pro meu banheiro. A coisa pior que existe é gelatina de hospital. Sopa de hospital. Peixe de hospital. Cama de hospital...”

E a noite passou. Rosa veio me substituir e fui embora pensando que voltaria logo mais à noite. Rosana me ligou dizendo que não precisava, pois Nena havia feito um escândalo para sair do hospital. Não sei por que eu nunca estou presente quando os escândalos acontecem principalmente esses que me ensinam. À noite já em casa ela me conta sobre o escândalo e que se precisasse ela assinaria um termo de responsabilidade. Mal sabia ela que já estava em vigor o novo código de ética medica onde permite que o paciente terminal opine sobre o tratamento a que serão submetidos.  Agora ela estava em casa. Feliz da vida.  Sentada perto dela ela me dizia: “Estou melhorando. O tratamento em casa é outra coisa. Hoje eu estava com sono e consegui dormir. Ah, que pesadelo aquele hospital. Um inferno. Todo mundo quer o seu melhor e esquecem do paciente. Eu pedi para ir por causa da insistência de todo mundo. Não por vontade própria. Agora estou no céu”.

           Depois... Bem depois os dias foram passando e ela foi me ensinando muitas coisas, muitas vezes segurando as minhas mãos enquanto dizia: “Se você tem um armário é pra cada coisa estar no seu lugar. Se você deixar de usar, você bota lá, assim você sabe onde procurar... Somos muito apressados. Antes o tempo era bem organizado. Tudo em ordem. Agora que tristeza...”
          Na manhã do dia 8 li para ela alguma coisa e perguntei se ela havia entendendo. Ela disse que sim, mas não sabia explicar. Sua mente estava ficando confusa. Então depois de pedir para Deus colocar os parafusos em ordem foi falando:

“Precisamos procurar sempre nos fortalecer. Procurar sempre não enfraquecer lendo todos os dias, sendo otimistas tendo esperança. Porque se a gente deixa de sentir acaba enfraquecendo. Somos imperfeitos precisamos ser renovados. Nós precisamos... Será que entendi? Eu entendi, mas não sei explicar. Devemos estimular os outros também  pra que ele não enfraqueça. Sabe eu não estou com a cabeça muito boa, mas eu sei o que quero dizer. O incentivo que a gente tem deve ser dado para os outros também. Por que se isso não acontecer o que será de nós? Eu faço isso quando estou com força. Quando estou sem força eu peço alguém que leia”.

Então pensei parando para observá-la; Um cérebro tão magnífico quanto o dela deve ser diferente em todos os sentidos. Todos os grandes homens que conheci eram assim.  E houve a noite em que ela dormia profundamente na cadeira e eu tentava acorda-la para prepará-la para a cama. E foi uma luta no banheiro ao tentar coloca-la no vaso sanitário. Estava pesada, muito pesada e ouve um movimento brusco e afastei um pouco o mais do que devia a sua perna e machuquei sua perna e ela gritou e eu pedi desculpas e beijei seu rosto enquanto repetia: Isso acabará! Isso acabará!...
          Agora, Nena esta deitada na cama com os braços cruzados. Com um travesseiro grande nas costas e dois outros pequenos em sua perna. Acabei de lhe dar uma dose de morfina. Seus olhos estão ficando fundos e opacos olhos que afundavam. Disse algo que não consegui entender. Algo do tipo: “quero descansar um pouco”. Sim, querida. Agora ela esta mais calma e talvez por um tempo eu também possa descansar e colocar os olhos em algo que não seja uma bula de remédios. O sofrimento não deu trégua. Um leve movimento do lençol a fazia a fazia ficar louca de dor. Minhas forças estão se esgotando. Revejo-me nos meses que se seguiram ao diagnostico de câncer pélvico em que fiquei cada vez mais solitária e mais dedicada à enferma. O monte de livros que havia trazido com a ideia de ler durante toda a minha permanência nesta casa não saíram uma só vez da minha mala. A noite passada foi muito difícil de suportar, aquela maldita dor de novo se apoderou de Nena. Mais desenfreada, desarranjada, cruel com muitas náuseas e vômitos. Ocorreu o que mais temíamos uma metástase e num ritmo voraz. A vida estava indo embora com E maiúsculo. As células malignas já estavam no fígado, nos rins, nos ossos e a sua coluna que lentamente ia sendo atingida. Nena aceitava como um fato uma realidade, com muita firmeza e nobreza de coração. E eu preciso de muita coragem e de muito amor para lhe acariciar o rosto no momento que ela se agarra em meu pescoço e pede enquanto as lágrimas escorrem: “Me ajuda a sair desse corpo”. É preciso um esforço enorme para consola-la enquanto ela soluça sufocada pela dor e eu procuro encontrar uma posição que ela encontre menos dor.




          Pouco a pouco foi cessando a comunicação. Foi-se a fala, a vista começou a falhar, o cérebro só vivia em sono. Quando percebi que sua respiração ficou diferente, segurei suas mãos enquanto dizia a ela que podia seguir sem medo e que agora tudo iria ficar bem. Um suspiro de profunda saudade termina essa frase.

          A televisão estava ligada e o jornal da manhã disse que o céu esta azul sem nuvens. Fui até a janela e no meio dos prédios da Avenida Paulista comprovei; estava lindo. Um avião passava. Era terça-feira, dia do seu aniversário, 96 anos. Tivemos tão pouco tempo. Havia ainda tantas histórias para serem contadas. Tantos capítulos para serem lidos. Inúmeros lugares que não tínhamos ido. Haverá um tempo em que nada poderá nos deter. Quando irá se desprender de nossa personalidade a agitação, a pressa, o rebuliço e de nossos lábios saira um exclamação de triunfo porque lá estará à liberdade – e o que é mais agradável   - o poder da recuperação e viver num mundo de paz
Mlailin








Um comentário:

marcia lailin disse...

Tem dias que estou assim
tendo que ser ligada
na tomada
tudo muito lento
em câmara lenta
sigo
ouvindo gritos atrás de mim
Vai
Anda
mais rápido
Olho para a cara deles e pergunto
Quem são?
De onde vieram?
onde vivem?
Para onde vão?