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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um imenso espaço nos separa



“Podemos fugir de tudo – menos do coração”

          A grande sala está agora praticamente vazia. A maioria dos móveis foram vendidos em um leilão. Nela, agora se encontram uma estante de madeira antiga e velhos livros. Alguns quadros continuam na parede. Fotos de Esther jovem e fotos dos filhos. Na mesa da sala um vaso com flores amarelas. Um sofá grande e confortável está próximo a enorme janela da sala. É nele que deito para meditar um pouco e olhar um pedaço de lua que se forma.  Durante o dia o telefone tocou desesperadamente. Alguém precisava urgentemente falar. Talvez você. Ou é melhor nem pensar nisso?
          Á noite esta quente e silenciosa. Apenas o barulho de passos no corredor e o elevador que sobe e desce e nada mais. Esther me chama e pergunta com as pálpebras grudadas pelo sono se já não é tempo de morrer. Sinto vontade de dizer a ela: Sim, Esther já é tempo de morrer.Ninguém mais está pronto a se sacrificar por ela. Seus amigos, seus filhos são apenas fantasmas. Pobre mulher!Ela sonha. Ela sonha com a morte. Coloco-a na cama, dou-lhe um comprimido para dor enquanto massageio o joelho dolorido e apago a luz. Faz calor, um calor insuportável. Não consigo dormir, velhas histórias renascem dentro de mim. Então sinto sede, levanto-me e saio do quarto para beber água.Se não tivesse uma consciência nítida dessa vida diria: Que estranho.



          Estamos novamente no verão e eu em meio a imensas pilhas de folhas brancas que esperam. Sento-me em frente ao teclado e conto o tempo; passou um ano... Começo a digitar... Não. Vinte anos se passaram. Vinte anos nos separam. Mas agora... Eu não lhe disse o mais importante. Escuta...
          Ninguém virá nos incomodar. Portanto, acomode-se em sua poltrona preferida e coloque as pernas sobre um banquinho, cruze os pés nele para ficar mais cômodo e pegue uma xícara de café, acenda um cigarro (ainda fuma?). Então, tranquilidade ou serenidade, carinhos, ou paz, ou alegria, ou felicidade, ou o amor, ou como preferir que a chame que venha e se instale.
          Enquanto você lê essas linhas eu estou em silêncio para não chamar sua atenção. Você não pensou nisso. Mas eu pensei. E pensei também que tinha esquecido completamente o que havia lá no fundo. No fundo dos seus olhos. Os olhos são as janelas do coração.  Falta somente um minuto, menos de um minuto para ser feliz. Não precisaremos mais fugir pelos oceanos, nem pelas montanhas, não mais por caminhos tortuosos. Não serão necessárias explicações. Você poderá chegar mais velha, mais gorda, mais sofrida, não importa. E quando eu ouvir de longe o rumor dos seus passos voarei ao seu encontro.Há uma porta. Tente abrir. Verá como cede. Abra-a e entre.  Ouviremos músicas, contaremos histórias... Deitarei em seu colo, murmurarei ao seu ouvido coisas que ninguém soube lhe dizer. E terá desaparecido o abandono. Será primavera e os vasos estarão floridos...



           Estou no décimo andar, você não precisa usar o interfone, logo que estiver pisando na calçada, o portão se abrirá e os pássaros cantarão lhe dando boas vindas e eu lhe direi: “Há quanto tempo”... Começo a ouvir os seus passos o som do seu coração... Sua fisionomia se transformando em alegria, uma alegria extraordinária.
          Ninguém irá roubar-nos um só grão de nossa felicidade...
“Virá lentamente emergindo da névoa do tempo e da mudança
Virá lentamente, desafiadoramente, pelo corredor dos anos
Cortará a fita e as espalhará a sua volta e cuidadosamente os lerá página por página
E a antiga inocência do amor voltará”. (R. Chandler)


Mlailin

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