segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

RESILIÊNCIA


 




"Para viver nesse mundo em que vivemos é preciso ser forte"


 

           A primeira vez que senti a veracidade dessa frase foi quando ao vivo e a cores vi as torres gêmeas caírem. A segunda vez por pouco não suportei tamanha covardia cometida contra as crianças de Beslan. Depois de segundo a segundo minha pressão foi ficando acima do limite diante de atos chocantes praticados por pessoas aparentemente comuns de nossa vizinhança. Os casos: João Hélio, Vinicius, Isabela, Mércia, Elisa... Com o tempo fui procurando alternativas para fugir da crueldade ao ponto de assinar uma TV paga e daquele dia em diante a única coisa que me sintonizava vagamente com o mundo era David Letterman.
          Quando imaginava que havia construído trincheiras seguras, uma voz vinda da radio USP disse: "Após dez meses, agredido com o taco de beisebol morre". Era sábado dia 23 de outubro de 2010. Estava passando pelo corredor em direção à sala, ia tirar o pó dos livros. Foi naquele momento que a droga dessa vida foi tomando forma e novamente não suportei. Minha fortaleza caia por terra enquanto ouvia: "Após dez meses e um dia em coma, o designer Henrique Carvalho Pereira, 22 anos, golpeado na cabeça comum taco de beisebol na livraria cultura da av. Paulista morreu ontem as 5:30". Corri até a bolsa onde guardava minhas drogas e tomei um comprimido de hidroclorotiazida. Agora sim poderia continuar ouvindo. Caso não fizesse efeito poderia engolir um outro, um tal de enalapril. Caso nenhum dos dois resolvesse poderia seguir para uma terceira opção: a sertralina. Pronto. Estava medicada. Agora não iria sucumbir junto com o jovem. Com as emoções sob o controle químico, já que eu pessoalmente não resolvo mais nada, agora podia pensar. Pensar e ficar de luto naquele dia que se transformou num dia triste. Muito triste.
          Desde dezembro do ano passado eu não pensava no caso, sabia que o jovem não tinha morrido, estava em coma. Em coma é sempre uma esperança. Agora isso. Essa notícia. O final da tragédia. Tá certo que eu estava aqui, aparentemente salva atrás das minhas trincheiras, das minhas barricadas. Mas ao mesmo tempo eu estava lá com ele, visitando-o todos os dias, em meu pensamento em minhas orações. Passando as mãos em seus cabelos. Pedindo: Não desista. Por favor, não desista! Não por mim ou por você, mas pelo seu pai e sua mãe... Como se eu fosse capaz de fazer milagres. Mas eu tentava e implorava. Na maioria das vezes, sei que você se agitava como quem quer acordar. Depois caiu em sono profundo. Até não acordar mais e nem reagir mais a estímulos.
          Nunca esqueci aquele dia em que soube pela mídia que um jovem havia sido agredido dentro de uma livraria por um maluco que carregava um taco de beisebol. Um taco de beisebol!! Que loucura!!! Procuro não imaginar o que seja isso. A imagem em si me deixa aflita. Depois daquele dia eu fiz o mesmo trajeto que a vítima. Não sabia qual metrô seria o mais próximo. Iria perguntar. Desci no metrô Trianon e segui em frente até o conjunto Nacional. Nunca tinha ido até a livraria Cultura. Conheci-a de nome de ouvir falar. Às vezes via algo interessante nas mãos de minhas amigas então perguntava: "Onde você comprou isso?". Elas diziam: "Na livraria cultura". E me olhavam como se eu não soubesse de nada. Eu ficava pensando: "Que livraria legal". Mas sempre ficava nisso. Afinal, meu negócio é sebo, quer dizer, onde minha carteira pode me levar.
          Naquele dia depois de me perguntar várias vezes: "Você quer mesmo ir?" Sim eu queria. Queria saber, queria sentir por que um desajustado, um doente mental "entre aspas", pois não acredito nisso. Isso é uma desculpa que os advogados de defesa encontraram para a impunidade. Bom, queria saber por que alguém cometeria uma atrocidade inimaginável com outra pessoa. Não sei o que doí mais, se o crime em si ou essa leviandade, esse pouco caso, essa facilidade com que os criminosos escapam sem punição e que incentivam outros a cometerem crimes mais brutais.
Lembro que era uma tarde quente dessas que está fazendo agora. Demorei para sair de casa. Enrolei. Não tinha pressa. Sabia que seria um pouco pesado. Naquele dia coloquei uma saia branca uma blusa cor de rosa e calcei sandálias rasteirinhas. Uma bolsa a tiracolo. Óculos escuros e os cabelos amarrados em coque. Estava me sentindo preparada para transitar junto com aquele povo bonito da Avenida Paulista. Estava um sol deslumbrante; alguém sorriu enquanto eu passava. As pessoas me viam. Eu estava viva.
          Andei um bocado até chegar à livraria. Quanto livro! Exclamei com meus botões. Mas o que era engraçado é que eu uma fissurada por livros naquele momento não tive nenhuma atração por eles. O que eu queria mesmo era sentar no mesmo sofá que a vitima sentou e esperar... Ir até o vendedor e perguntar: "Moço, como foi? Foi como aquela musiquinha de criança? Minha mãe mandou eu escolher esse daqui... Não chamou a atenção de ninguém? Como aqueles sauditas no dia 11 de setembro? Se eu entrasse aqui com um martelo na mão eu chamaria atenção? E com um machado? Uma foice? Um taco de beisebol? Ah, já sei! O registro que temos do perigo em nossas mentes é de um homem solitário; introduzindo-se sorrateiramente entre a gente com um aspecto portentoso e impressionante; olhos duros, nariz bicudo, barba por fazer, roupa esquisita; botas de couro cru e dois revolveres nos quadris. Além de tudo isso, estaria completamente bêbado"
          Fico imaginando como carregava a arma do crime o assassino o personal trainer Alessandre Fernando Aleixo.    Andou com esse taco pela Paulista? Ou carregava dentro de uma mala, já premeditado e ensaiado, como o criminoso do cinema. Com tanta coisa boa pra se ver, pra se fazer, um bom livro, um bom café, um bom papo, um bom descanso... Quem iria se importar com alguém perfeitamente senhor de si, gente como a gente, a não ser quando durante os golpes os seus olhos se arregalaram e a sua boca foi se abrindo escancarada, via-se-lhe a língua a refluir e a tremer lá no fundo da garganta, como a de um animal predador e um grito, vários gritos: "Que diabo foi isso?". "Segurem esse homem ele é louco!". Afinal, foi à única conclusão que se pode chegar, naquele momento, sobre esse imbecil.
           E depois... Não nem tudo está perdido. Deus tomará conta de nós. Sabe quando olhamos em direção ao sol no meio dia? E tudo fica branco e não enxergamos mais nada? Sentimos somente uma espécie de tontura, uma vertigem e uma leve dor de cabeça? E a sensação de ter ouvindo sua mãe chamando pra que saia do sol e vá para a sombra? Foi isso que ele sentiu. Depois ouviu uma linda música. Parecia aquele tema do filme que tinha emprestado semana passada na locadora. A valsa de Amelie Poulain.  Do seu lado reconheceu pela fisionomia nem precisaram se apresentar. Os poetas: Federico Garcia Lorca, Paul Verlaine, o músico John Lennon a princesa Lady Di, Anne Frank e sua irmã, John John, sua esposa, sua cunhada e seus pais, os passageiros do avião da TAM 3054 e tantos outros. Começou a pensar que os livros eram mágicos e tinham criado vidas... Quando milhares de crianças se aproximaram e do meio delas saiu um grupo...  Branquinhas, cabelos loiros, olhos azuis falando em russo perguntavam a ele se estava tudo bem? Por que não haveria de estar? Retornou a elas a pergunta. Estava muito feliz. A última vez que se sentiu assim foi quando viu o mar pela primeira vez. Estava feliz por alguma coisa. Mas não sabia por quê.

Mlailin


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