segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

"A PRIMAVERA ABANDONOU O ANO"

                    

          Quando Crizeida entrou em minha casa, juntamente com minha filha, as duas com lágrimas nos olhos, não imaginava que desse dia em diante só restariam quatro dias de vida para minha mãe. Crizeida sentou-se no sofá que estava na minha frente e começou a falar da urgência que havia em que eu fosse para perto dela e que falasse alguma coisa, que a ajudasse de alguma forma. Eu disse que não podia que não queria compartilhar essa dor, vê-la definhar, ouvir seus gritos. Que arrumasse outra para colocar os pés naquele mundo vil. Que não suportava esse modo bárbaro de morrer.
Depois que foram embora umoutro lado meu aflorou. Esmurrando a parede do banheiro enquanto as lágrimas caiam eu dizia NÃO. NÃO. Eu não iria.
 Naquela noite eu sonhei. Sonhei que fui até a sua casa, subi até o seu quarto. Desci lentamente as escadas com ela em meu colo. Coloquei-a no carro e descemos a serra até o mar. Ficamos lá o restante da noite observando a testemunha fiel no céu. Segurava suas mãos enquanto ouvíamos somente o barulho das ondas... E a água molhando os nossos pés.
          Ainda havia uma esperança de que o diagnostico do médico estivesse errado e aquela tenebrosa tomografia estivesse errada. E por que não? Os humanos sempre se enganam. Mas eles nem quiserem abrir o seu corpo. Simplesmente a mandaram para casa. Como quem diz: “Não tem mais nada para ser feito”
         E eu procurava. Procurava lá no fundo da minha mente. Nos livros na minha agenda. Procurava alguém que viesse em socorro. Alguém que tinha se empenhado com muita dedicação, muito além do normal e agora havia descoberto o remédio, a vacina, a cura, a salvação daquela enferma que começava a agonizar.
          Não mais ouviria aquela mulher da cristã do Brasil, sentada na minha frente, submetendo-me aquele horror: “Sua mãe esta muito doente, ela tem câncer”. Câncer? Psiu! Não fala essa palavra. Não acorda o monstro que dorme. Mas não. Desprezaram totalmente meu pequeno e insignificante mundo. Olhei a esperança desaparecendo.
          Não disse mais nada. Não tinha saída, a não ser falar a ela que iria e continuei dizendo que iria quando me encontrei só e depois em meus sonhos enquanto dormia: Eu vou, eu vou, eu vou... Antes precisava ver as montanhas, o nascer do dia, colocar os pés na terra molhada. Ver o voo dos pássaros quebrando o silêncio do ar, sacudindo as asas como que se livrando...  Se livrandodas lágrimas que deixei caírem sobre o lençol que cobria metade do meu rosto.
O degrau da escada que levava até o seu quarto e que ela costumava ficar sentada enquanto limpava as gaiolas dos seus passarinhos estava vazio. Tudo estava triste. Não deviam ter-me convidado. Não deviam ter vindo.
          Foi sexta-feira.Crizeida me chamou no portão e disse que eu podia ir. Na mesma hora Adriana chegou segurou minhas mãos e fomos juntas. Quando entrei no portão o chão começou a sair dos meus pés e comecei a penetrar numa névoa negra e então entendi o sonho que me perseguia já alguns anos: “Na casa da minha mãe, o vulto de alguém vestido de preto andando de um lado para outro em uma velocidade atemorizante”. Outra vez a angústia aguda fazendo meu corpo retorcer. Senti meu coração imensamente oprimido, foi como se de repente me encontrasse em pé numa pedra e ao meu redor todo um rio de águas turvas... Teria que atravessá-lo.
          Subi as escadas até o seu quarto. Levantei os olhos e olhei-a deitada na cama. Se pudesse retroceder. Como é que se faz para retroceder? Teria que buscar forças longe dessa energia que se formava a minha volta. Não conseguia ver a cor, não conseguia ver as formas, não conseguia pensar. Precisava pensar. Pensei na floresta de Aluminio quando íamos acampar com meu irmão e os escoteiros e aprendíamos a andar na mata a montar uma barraca a fazer trilhas a vencer o medo. Quando foi isso?
          - Esta ficando escuro. O que é que você faz ai?
          - Nada, mãe.
          - Não vá muito longe você pode se perder.
          - Sim, mãe.
          Como é que se despede? E quando não se consegue pensar nem sentir – onde se está? Seria possível que isso fosse vida? Assustadora, inesperada, cruel? Havia perdido a voz e só me restava uma parede de pedra, um gosto amargo em minha boca, um ar pesado, um tempo que não acaba...
          Olhei para a janela e além dela as roseiras com seus botões formando rosas. Seus livros na estante e um monte de revistas encadernadas. Sua cama. Seu guarda-roupa. Suas roupas. E tudo terminando assim dessa forma. O espelho estava cheio de fotos dos amigos, dos filhos... E na parede uma relação de nomes e telefones. Para quando o fim chegar ter para quem avisar...
          Esforçava-me ao máximo para ficar ali.
          - Onde é que você estava o tempo todo em que durou a tempestade? Estivemos procurando por você.
          - Encontrei uma gruta e fiquei dentro dela.
          - Ficou fazendo o que lá?
          - Fiquei olhando a chuva.
          Seus olhos castanhos estavam tristes. Pareciam me dizer: “Estou indo”. Sentei na beirada da sua cama. Olhei para suas mãos brancas. Estava magra a barriga inchada. Chorou enquanto engolia uma colherada de sopa. Quando se acalmou perguntou se iria ficar boa. Crizeida disse que sim. Pobre mulher. Comecei a passar as mãos em suas pernas e cortei as suas unhas que estavam grandes. Foi à última coisa que fiz. Usava uma camiseta branca e uma bermuda estampada. “É minha mãe”. Sim! Deveria ir até ela e abraça-la? Sim! E dizer que era muito bom tê-la como mãe? Sim! E que depois eu iria me sentir uma órfã muito triste? Não! Sim! E tudo isso que estava acontecendo era um sonho? Sim! E que nunca cresceríamos e nunca a deixaríamos e não daríamos trabalho? Sim! Murmurei boa noite e sai fazendo o trinco fechar-se suavemente.
          No meu quarto comecei a procurar nos livros algo que me ajudasse a pensar com a razão: “Algumas vezes, as armadilhas em que caímos sobre a maneira de nos relacionarmos conosco e com os outros são de tal maneira cruciais que se permanecerem por longo tempo, pode estressar muito o corpo. O corpo desmorona. O mecanismo de defesa contra o câncer pode ficar enfraquecido em virtude desse esgotamento. Todos nos adquirimos câncer muitas vezes por dia. Enquanto os bilhões de células individuais se dividem e multiplicam, algumas perdem sua ligação com o resto do corpo – sua habilidade para manter a relação com o órgão no qual elas se encontram é destruída então surge o câncer no qual elas se encontram. Isso acontece repentinamente, mas nosso mecanismo de defesa é acionado e rapidamente toma conta da situação. O único tipo de stress emocional que conhecemos hoje em dia e que certamente consegue enfraquece-la, é a perda da esperança de jamais vivermos a nossa vida de maneira significativa, de jamais podermos cantar a nossa própria canção e nos relacionar, ser, criar da forma que for mais importante para nós. Será que se recuperarmos nossa esperança na capacidade de viver nossa própria vida, nosso mecanismo de defesa contra o câncer irá recuperar sua força e virá em nosso auxilio de tratamento médico? Será que se procurarmos viver esse tipo de vida, nossa capacidade de autocura agirá mais eficientemente e aumentará nossa resistência ao câncer? É possível? A resposta é sim. Existe uma força dentro de nós, não temos a ideia dessa força, pois é tão ininteligível tão completamente hostil a nós, que nosso cérebro se dilacera no momento em que nos esforçamos por pensá-la. Não devemos nos preocupar com aquilo que o mundo deseja de nós. Ele nunca se satisfaz. Devemos sim nos preocupar com aquilo que nos faz sentir-nos vivos, pois o mundo precisa é de pessoas vivas”.
          Nem percebi a porta se abrindo. Só dei conta disso quando ouvi minha filha dizendo:
          - Ela está muito ruim. Gritou de dor e eu coloquei dez gotas de tramal. Ela não queria. Dizia que sua pressão iria cair. Mesmo assim ela tomou. Sai para chamar a Crizeida. Colocamos mais algumas gotas de tramal. Ela não queria. Falamos que era um chá que a Crizeida havia feito e ela tomou. Agora tá lá largada com os olhos virados. Eu a sacudi para que o seu olhar voltasse para a frente. E gritei para que ela ouvisse e puxei o seu vestido e mexi no seu corpo e então estendi o meu braço e a abracei e pedi para que não morresse. Não houve resposta e agora não sei mais o que fazer. - E assim minha filha contava a crise final que levou minha mãe. Na mesma noite a levaram para o hospital de onde ela saiu deitada em um caixão com flores amarelas.
          Da janela do meu quarto avistei uma noite negra, sem estrelas. Algumas pessoas falando alto passavam pela rua. Fechei a janela. Coloquei as mãos na cabeça e disse a mim mesma olhando para a enciclopédia aberta: “Eu não iria participar daquele ritual satânico”.
“Foi na Espanha que os homens aprenderam que uma pessoa pode estar certa e ainda assim ser vencida, que a força pode derrotar o espírito. Muitos deles foram ao front, integrando as brigadas internacionais comunistas, outras emigraram da Espanha e, no exílio, participaram intensamente na publicação de livros, manifestos e propagandas antifascista que se seguiu então. Alguns deles foram mortos durante o conflito como Garcia Lorca, fuzilado em 1936. Os intelectuais apoiavam o governo republicano eleito de forma democrática contra o exército da direita liderado pelo General Francisco Franco. A derrota seguiu-se um período de ditadura fascista na Espanha, que perdurou até a morte do general em 1975. Como um país pode calar diante da morte de um poeta como Lorca e deixar um ditador governar um país por 39 anos? Nunca entendi. Não nessa época”.
          Não. Tinha decidido, não iria chorar. Ninguém iria me ver chorar. Iria seguir um caminho que tantas vezes segui. Devagar, não tinha pressa. Iria por um campo verde, um campo de narciso e amarílis com um carvalho curvado sobre uma sinuosa vereda. Algumas minúsculas borboletas paradas debaixo da árvore como se estivessem a conversar – um poema – um trecho de uma música sublime cantada em meu coração, abrindo uma porta para o sublime, o inacessível, o inatingível... Avistei minha mãe sentada na grama. Corri ao seu encontro e sentei do seu lado e a abracei abrindo bem os braços como se quisesse medir o tamanho do seu corpo depois de tão longa ausência... Caímos sobre a relva e ficamos ali com as mãos sobre a barriga olhando o céu azul com algumas nuvens brancas... Não havia vento. Ela usava um dos seus chapéus e trajava um lindo vestido de flores amarelas. Seus cabelos estavam presos num lindo coque. Supreendentemente jovem e bonita. Ergui as mãos para proteger os olhos do sol e, com a cabeça inclinada para trás, detive-me para respirar fundo em gratidão... Fiz um lindo buquê de flores e coloquei algumas em seus cabelos desfazendo o seu coque e deixando que caíssem em seus ombros. Depois fiz um para os meus também e então sentamos numa pedra e começamos a conversar olhando através das montanhas e vales de um lugar conhecido desde a infância.
Primavera 1999





4 comentários:

Mlailin disse...

Amei amei amei. Continuei assim nem que para isso tenha que esmurrar paredes...

Marise Helena disse...

Está tudo muito bom por aqui. Parabéns e obrigada pelas ofertas. Carinho

Maria Goreti Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Goreti Rocha disse...

Um texto recheado de dor e sentimento, com um quê de poético que, apesar da dor, faz-se de uma beleza explendorosa!
Parabéns, amiga!
Beijos