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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

VINTE ANOS DEPOIS



Mas o que aconteceu? Perguntei, enquanto Dona Yole ia contando os fatos que culminaram com a tragédia. O que sabia sobre os suicidas? Nada. A não ser o que Dante Alighieri havia escrito em sua “Divina Comédia” onde ele colocou os suicidas no segundo recinto do sétimo círculo infernal, transformando em espécies de árvores, eternamente dilacerados pelas harpias, monstros fabulosos, com rosto de mulher e corpo de ave de rapina. Procurei as palavras, as palavras certas para dizer que não iria, procurei uma raiva por essa covardia maldita, mas não encontrei nada. Abaixei os olhos enquanto dizia: “Conta comigo” Na realidade eu dizia: “Eu farei isso, especialmente por você, minha amiga, porque você significa muito para mim”.

Sentei na cadeira ao lado da cama e olhei o rosto daquela mulher que dormia. Senti uma angústia muito grande, em parte pelo seu trabalho, pelos seus filhos, pela importância que um dia ela teve em minha vida e por estar desperdiçando a sua vida. Para ela dava no mesmo que as pessoas rissem ou ficassem zangadas com ela. Talvez agisse como fez um dia, tentando convencer a mim e a Damião, dizendo: “Todos vocês estão enganados, vocês são dois ultrapassados, eu tenho coragem e estou atualizada dos fatos”. E vi ódio chispando dos seus olhos e senti que num instante algo explodiria, mas então a via refrear-se e todo o seu corpo parecia emitir faíscas, mas não palavras... Olhei-a buscando sinais disso em seu rosto.

O que houve com você? Onde esta aquela mulher corajosa? Sempre que me sinto desanimada e sem esperança e em você que eu penso. Eu e você subindo e descendo as montanhas de Monte Verde, rindo, contando histórias e depois deitando o corpo cansado no alto do pico do selado ficando ali até anoitecer procurando Andrômeda, Cassiopéia, o Cruzeiro do sul e o planeta Vênus sempre a leste na direção da sua casa no meio do vale...  Aconteça o que acontecer eu voltarei para te buscar, disse a ela, enquanto me agarrava ao mato tentando alcançar a estrada.

É preciso tomar muito cuidado, disse Damião naquela tarde. Esse caminho para Campos do Jordão é usado somente por motos e Jeep com homens no volante, é uma estrada de difícil acesso, esta cheia de buracos e escorregadia devido às chuvas dos últimos dias. Não importa, disse Pauline. Todos os dias vejo jeep e motos chegando, nos iremos e voltaremos amanhã a tarde – disse isso sentando ao meu lado. “Nós”, isso era o bastante, pensei. Ela sempre fazia coisas ao seu modo.

Não voltamos na tarde seguinte e nem na outra. Já tínhamos percorrido um longo trajeto e uma chuva fina caia. Pauline não viu o buraco e então o Jeep tombou lentamente e capotou uma duas vezes ouvi o barulho de galhos quebrando, vidros quebrados, óleo derramando. Procurei por Pauline e não a encontrei, procurei ouvir sua respiração não ouvi barulho algum. Arrastei-me até o início do barranco segurando no mato muito assustada. Devia ir procurar ajuda. Resolvi seguir em frente, ao dar o primeiro passo cai numa poça de lama, minha calça ficou toda encharcada. Não devia andar muito rápido para não gastar as energias, e também porque não conseguia enxergar um palmo a frente do nariz. Tremendo ante a ideia de que estava sozinha no meio do mato, correndo perigo de ser atacada por algum animal selvagem esfreguei minhas mãos para ativar a circulação e cambaleando segui. Algumas vezes engatinhando, com as mãos no chão para saber onde pisava, eu avançava com uma determinação que me surpreendia. A noite avançava... Os únicos ruídos eram da chuva que caia, do meu pensamento e da minha respiração. Então por sobre esses ruídos, outro som, mais alto começou a crescer, constante e pleno. Era magnifico! O latido de um cachorro. E mais a frente à estrada começou a ficar mais firme, e as árvores foram se tornando mais escassas, então avistei uma luz e uma casa. Não foi tão difícil quanto imaginei. Com  uma explosão final de energia cheguei até a porta. Bati, bati... Um senhor veio atender. Ele me examinou, toda molhada e suja. Eu me mexi tentando ocultar a calça rasgada. Então pedi a ele que socorresse Pauline, que um jeep havia caído num precipício e havia uma pessoa debaixo dele. Ele ouvia sem compreender, dizendo para falar com calma. Lá em cima... Na serra... Cansada demais para pensar, afastei-me quase caindo. Levei a mão na cabeça e novamente pedi: por favor, preciso de um telefone, minha amiga Pauline esta lá em cima machucada... Então não aguentei mais e comecei a chorar e não conseguia mais conter as lágrimas. Ele chamou sua mulher e num tom mais delicado, disse às palavras que eu estivera esperando a noite toda para ouvir: “Fica com ela, vou até a  cidade procurar ajuda!” Pauline foi localizada. Havia escoriações por todo o corpo e uma perna quebrada. O jeep foi retirado por um guindaste. Algum tempo depois Damião nos levou para ver o local. Uma árvore caída havia impedido o jeep de cair num enorme precipício.

O que se passou com você no fundo do seu coração? Está tudo escondido atrás desse rosto tão tranquilo semelhante à máscara. Meus olhos acompanham o movimento da colcha e as sombras do quarto sobre o seu corpo. Você ficará bem, pensei. Olho a cidade lá fora, tudo está em silencio, poucos carros circulam.  Notei que agora podia ver a lua saindo atrás do prédio em frente, e, enquanto olhava esse mundo, as vozes chegavam muito estranhas...

Não sei mais muita coisa daquele tempo. Evito a todo custo retornar para aquelas montanhas. Damião e o pai de Pauline estão enterrados no pequeno cemitério da cidade. A linda casa no vale foi vendida e o  Jeep  vendido a um jovem que durante longo tempo levou turistas até o início das trilhas. Procuro na minha mente o nome do homem que me socorreu e o nome da cidade, não encontro nada, tudo está encerrado do lado de fora das vidraças.

Márcia Lailin








2 comentários:

Renata disse...

Que tudo fique onde deve ficar!!! Beijo

Mlailin disse...

outro querida!