sábado, 13 de agosto de 2011

Procuro meu pai...





Dália,
          Li seu pedido, na página 7, no jornal Guia de Carapicuíba de número 16.  Consigo me colocar na sua situação e sentir o que você sente. Os estudiosos dão a isso o nome de empatia que significa: sentir a dor da outra pessoa em nosso coração. Recebi essa manhã pelo meu email uma mensagem de uma leitora sensibilizada com o seu pedido. Esta transcrito abaixo:
          
          Também perdi o meu pai, perdi-o por várias vezes e na última vez para sempre. Uma vez ouvi dizer que ele não era o meu pai. Mas como um pai o único que você conhece não pode ser o seu pai? E como pode alguém dizer que seu pai não é o seu pai? Somente um espirito de porco pode dizer isso pra alguém.
          Muitas vezes encuco pensando: A gente perde o que nunca teve? Mas, no meu caso, não foi assim de repente para depois se tornar um desaparecimento. Foi devagarzinho, em gotas. Um lento sofrimento. Começou na bebida e no descaso para com as necessidades físicas e materiais da esposa e na educação dos filhos. Como esquecer das brigas intermináveis, do pai sentado na cadeira, e próximo a ele em cima da mesa um revolver 38? A voz alterada, fria, os olhos vermelhos fixos na mãe que protegia os filhos atrás de si. Poderoso como um “deus”, dizia: “Eu sou uma grande autoridade. Quem manda aqui sou eu!” Já adulta, mãe e avó ouvi o pai dizendo essas mesmas palavras. Foi numa tarde quando disse a ele sobre o mal que a bebida fazia e sobre os falsos amigos que o rodeavam por causa disso. Com os mesmos olhos vermelhos, arregalados ao extremo, perguntou se eu não sabia com quem estava falando. Com quem? Com uma grande autoridade.  Como um filme que se repetia pela milésima vez, me vi me retirando suavemente para o meu mundo, e como das outras vezes ia olhar pela janela, observar o vento balançando uma pipa presa nos fios elétricos. Sentindo-me presa como ela segurava o choro. Procurava alguma coisa para assim ignorar o conflito. Só que desta vez não iria fugir pra canto nenhum e nem ignorar o conflito. Olhei pra ele, para seus enormes olhos vermelhos e arregalados e disse: “Sim, eu sabia com quem estava falando. Com a grande autoridade o criador, senão o seguidor, de toda espécie de imundície e sofrimento”.
          Aqueles anos foram anos de brigas até o dia que logo após o nascimento do último filho o pai foi embora com outra. Foi embora entre aspas, porque como todo nordestino que se preze no mau sentido o pai continuou indo e voltando. Sempre achei que isso era devido a sua cultura, mas depois após o seu falecimento no ano passado, quando tentei de todas as formas montar a sua história, entendi que o pai nunca viu as coisas com clareza, nunca teve discernimento em separar o certo do errado. E isso foi crucial em sua vida futura.  Naquele tempo ele ia e voltava, no sentido de que se achava no direito de ter duas famílias e todos os filhos, sem falar nos vizinhos, sabiam disso e silenciosamente comentavam entre si, mas não diziam nada. A única com coragem ali era a mãe que não suportava a sua presença e xingava-o de todos os nomes e quando ele entrava mostrava a ele a porta da rua.  Até o dia em que os filhos foram cuidar de suas vidas, e então ele não encontrou mais desculpas para retornar. Exceto uma vez. Retornou ainda uma vez mais, para visitar a mãe doente terminal, agonizando em uma cama de solteiro vitima de um agressivo câncer no estomago.
          Agora é como se os onze anos não tivessem passado, não tivessem nem mesmo começado, e vejo o pai com seu chapéu vermelho subindo os degraus que levam ao quarto da mãe. Ela esta deitada em uma cama de solteiro. Olha para ele e não tem mais forças pra dizer a ele que vá embora, que vá para casa de sua rapariga... Não tem mais força para dizer mais nada, absolutamente nada. Não sente nada, sua neta acabou de dar a ela uma dose de morfina e seus olhos estão começando a virar. 
          Ela nunca precisou me pedir para não participar daquela pouca-vergonha. Nunca precisou pedir para fazer a política da boa vizinhança ou para ter aversão pela sua amante, pelas suas ações. Ele, somente ele fez por onde. Ele contribuiu para o nascimento de um sentimento baseado na angústia, na frustração, na decepção, na desgraça que era aquela vida. Era um sentimento que habitou em mim desde sempre e continuou na adolescência e depois na maturidade.
          Às vezes quando falo com alguém me vejo falando como o pai falava com seus filhos, e isso assusta. Porque não quero ser como ele, agir daquela maneira. Desejo viver num lar normal, estável e feliz.
          O pai morreu ano passado, numa morte terrível. Sempre que penso em escrever sobre isso não tenho dúvidas, será uma história de terror. Digito alguns parágrafos e paro. Acabo sempre perdendo a coragem ainda não estou preparada para isso. Talvez se um dia isso acontecer encontrarei o pai. Não o pai que ele foi, mas o pai que deveria ter sido.               
          Faço votos que você tenha sorte em sua procura e que consiga isso enquanto existe vida.

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