domingo, 30 de janeiro de 2011

TERRA DESOLADA

Tive tempo apenas de correr para fora de onde vi toda a destruição. Nos dois quartos da casa ficaram meu pai, minha mãe e meus irmãos. Tão logo amanheceu os bombeiros empreenderam tentativas para liberta-los dos escombros em tentativas inúteis. Era impossível retirar tão rapidamente a lama, de modo que se pudesse libertar os soterrados ainda com vida. Ninguém iria conseguir desfazer o que estava feito. Uma chuva fina e constante caia do céu cinzento molhando o meu rosto. Tanto sacrifício destruído em segundos. Em dezembro ficamos todos envolvidos com a reforma da casa para ficar mais bonita para o ano novo. Agora quando olho para ela só vejo o telhado, muita lama e corpos soterrados. Soterrados. Soterrados. Dentro de uma casa destruída. Pedras enormes, vigas rachadas e a lama cobrem o local. Ouvi alguém dizendo: “A coisa tá séria. Se as pedras também foram deslocadas, vai ser difícil encontrar alguém com vida ali”.
Amanhã de manhã meus pais deveriam estar viajando para Curitiba. Já tinham até a passagem comprada... Lá estariam seguros.
“Vamos conseguir” Alguém disse. “Sim! Mas quando?”
Dois dias depois conseguiram resgatar os corpos. Foi quando tive consciência do que havia acontecido. Tive? Fiquei imóvel esperando que me ajudassem a fazer o reconhecimento dos corpos.
Eram dezesseis horas. Logo mais eu estaria sendo atendido pelo conselho de psicologia e depois seria encaminhado para o abrigo. Assim dizia o programa. Assim tinha sido combinado. Por quem? Lamentava muitíssimo mas não iria comparecer.
O relógio marcava dezesseis horas e vinte minutos. A luz do dia me parecia absurda e estranhei até minha própria voz que pedia que alguém tirasse o plástico que o cobria. Então vi o seu rosto machucado e deformado. Ela era terrivelmente ordeira e vaidosa. Não queria nada fora do lugar em sua bonita casa. A casa com cortinas brancas e transparentes na janela do nosso quarto. Uma grande cama, supermacia e perto uma cômoda onde estavam exposto fotos dos filhos. Tinha os cabelos muito curtos. Usava óculos que papai havia lhe dado com uma bonita armação vermelho transparente. Éramos tão parecidos. Nossos olhos viam a mesma coisa. Nossos ouvidos percebiam o mesmo. Retenho a respiração até parecer que meus ouvidos vão estalar e a cabeça explodir. Sinto mãos me segurando formando uma espécie de suporte. Mordo os lábios para sufocar um grito à medida que a dor vai atingindo o coração.
Depois me levaram para outra sala. Eu não voltaria para aquela sala. Isso era certo. Um homem de branco sentou na minha frente. Com uma voz bondosa me deu um copo e um comprimido. Olhei pela janela para as folhas das árvores lá fora. Já estava começando a anoitecer. Tinha que seguir. Para onde? Não sabia.
Acho que minha pressão começou a cair e a noite escureceu rapidamente. E eu comecei a sentir-me melhor.
“Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas
Quando juntos sussurramos
São quietas e inexpressivas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada” - (Homens ocos – T.S.Eliot)

Nenhum comentário: