terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A NOITE DO GENERAL





Para: Yuri Costa

           Aconteceu na noite do apagão. Havia embarcado no trem das 22 e 20m, na estação Barra Funda. Estava cansada e com muito sono. A fluoxetina estava perdendo seu efeito e tudo se tornava muito nítido, dolorido e cruel. Olhava para as fisionomias dos passageiros. Rostos cansados, pele suada, um calor insuportável. O pior de tudo são os esmolentos. Como se não bastasse aturar uma vida estressante temos que ouvir essa ladainha. Que força nos move a enfrentar isso todos os dias? Perseverança e paciência em esperar um mundo melhor. Então pensei: só vou fechar os olhos e minha mente irá continuar ouvindo as pessoas que conversam do meu lado; o vendedor de chocolate o barulho do trem e a voz do maquinista anunciando as paradas... Uma vez isso já tinha acontecido e meu pensamento não foi maior que meu cansaço. Mas iria tentar novamente e novamente apaguei. Acordei com a voz de um vendedor de cerveja e pela porta que se abria. Li o nome da estação: Miguel Costa. Duas depois da minha. Rapidamente peguei minhas coisas e juntando os livros que caia do meu colo sai daquele trem com a porta quase me prendendo com aquela parafernália toda. Agora iria esperar o próximo trem e voltar. Foi ai que se deu o apagão. Tudo ficou escuro como breu. Olhei em volta e observei uma estação deserta e uma cidade em silêncio exceto pelo barulho dos carros que transitavam pela Avenida dos Autonomistas. E agora?  Quanto tempo ficaria assim? Não tinha mais dinheiro para pagar outra condução. Uma carona? Poderia ir a pé? Há essa hora? Essas coisas só acontecem comigo. Caminhei até o final da estação e olhei para a Vila Municipal e a curva que o trem fazia antes de entrar em Carapicuíba. A minha esquerda estava o antigo porto de areia e próximo do lago famílias inteiras que moram em inúmeros barracos um em cima do outro numa tristeza sem fim. Era uma noite sem lua, somente algumas estrelas brilhavam no céu azul escuro. Não precisava ser astrônomo para observar a grandeza do céu à noite. Por outro lado não sabia nada sobre ele. Seu Onofre, o astrônomo uma vez me disse que podemos ver numa noite estrelada a Nebulosa de Águia, uma nuvem de gás e poeira na nossa galáxia, a Via-Láctea. Disse também que a Nebulosa de Águia parece uma ave com as asas abertas e com as garras à mostra. Por mais que eu olhe não vejo nada a não ser estrelas distantes. Poderia ligar para ele e perguntar que estrelas eram aquelas se naquele momento eu tivesse credito para isso.  Suspirei enquanto me maldizia em minha frustração. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim que dizia:
 - Noite agradável.
 - Que? – Disse enquanto voltava o rosto para ver quem falava comigo. Um homem muito bem vestido estava quase do meu lado segurando folhas de papel, me dirigindo a palavra e agora sorrindo para mim.
 - Preciso falar com você.
 - Comigo? Mas eu não o conheço. O que o senhor quer de mim? Uma informação? – Havia um banco próximo e o homem alto e forte sentou-se nele e me chamou para sentar também. Há muito tempo minha mãe havia dito para não falar com estranhos, mas como resistir ao pedido de um homem tão bem vestido e educado. Depois inclinando-se para a frente, passou a mão repetidamente nos cabelos bem cortados e após abrir sua agenda  disse:
 - Há algum tempo eu espero encontrar a pessoa que me sirva - uma competente estenografa com qualidades para transformar-se numa secretária particular – e que não pareça inclinada a vaidades e a seduzir um homem e que esteja disposta a gastar-se longas horas em pesquisas, e leituras e em ouvir um homem que precisa contar sua história.
     Por um segundo passei a observá-lo. Estava impressionada com a sua educação bem treinada a inteligência espontânea, a limpeza pessoal e – mais alguma coisa que me fugia. Infelizmente não tinha nem o tempo nem a disposição necessária para analisar aquilo. Recomecei a pegar minhas coisas pronta para ir embora quando ele me pegou pelo braço e disse:
 - Por favor, fique e tome nota disso.
     Pedia por favor, e num leve sorriso, mas algo a sombra do sorriso era uma ordem.
 - Estou atrasado para um encontro no quartel em Quitaúna. Você encontrara tudo o que precisa. Se tal não acontecer fale com Yuri. Quando terminar deixe os papeis em cima da mesa para serem revisados. Costumo estar aqui às 23hs, sempre. Quero que tire um xérox e traga aqui os originais quando estiverem terminados.
      Começou a ler uma pequena pilha de folhas escritas à mão que trazia consigo, assinando ao pé da página de cada uma delas, ao acabar a leitura.
 - Você serve muito bem! – repetia constantemente com satisfação – Pelo menos quanto à organização. E graças a Deus tem a sua dose de bom senso e disciplina. Isso é perfeitamente observável. Se apronte. O resto vira com o tempo. Seja como for alegro-me por ter vindo.
     Levantou uma página que tinha entre as mãos até onde havia luz e então começou a ler com curiosidade: “Nossas forças caminham pelo solo brasileiro. Que esse espírito indomável continue a nos inspirar. Lutamos pelos vossos lares, pela liberdade, pela igualdade pela civilização triunfante sobre as forças despóticas do barbarismo. Dos quatro cantos do Brasil nos chegam ofertas espontâneas de ajuda. Andamos pela mata fechada... Por enquanto, comida não é problema. A água, entretanto esta limitada. Daqui a pouco estará escurecendo. Dei ordens para que logo mais a marcha pare pra descansar. Sei que essa travessia é a dura prova da minha habilidade e coragem – mais do que tudo que já tenha experimentado antes...” 
     Voltando a cabeça para onde eu estava, enquanto a claridade da rua iluminava o seu bonito rosto, estendeu os papeis para mim e disse:
 - Toma são seus.
    Depois estendeu o braço como a me dizer até logo e foi se afastando. Meu coração pôs-se a bater mais depressa. Podia ver tudo àquilo claramente. Aquele homem podia vê-lo sumindo na escuridão. Corri e gritei:
 - Não sei o seu nome. Qual é o seu nome? – Antes que pudesse terminar a pergunta, ouvi a resposta bem próxima a mim como num sussurro – General Miguel Costa.
     Agora eu estou me aprontando. Temendo que em matéria de conhecimento ele venha a se envergonhar da minha ignorância. Começo a estudar com afinco. Não na escola, pois os dias escolares já acabaram. Mas recorrendo aos livros da biblioteca da cidade, em sebos e aos empréstimos feitos a vizinhança. Velhos livros, a maioria deles comprados em sebos, alguns muito áridos e se decompondo conforme vou folheando, outros muito sábios e difíceis de entender. Todos, porém oferecendo-me algo que pode ser-me útil nessa árdua pesquisa Nesses dias quentes de verão vieram somente dois e-mails e uma fotografia via correio. Depois – silêncio. Duas das estrelas que estavam em seu uniforme e não no céu, eu consegui decifrar sem a ajuda do seu Onofre, queria dizer coragem, a outra lealdade. Estou me aprontando.   

Um comentário:

Yuri disse...

Talvez possa parecer complicado pq ainda não se entende os motivos disso tudo, mas quem sabe brevemente as coisas mudem. Obrigado.