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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A BANCA






“Hoje entendo por que alguém carrega junto a si, durante tantos anos, a descrição de uma morte”.

Para Leão, meu pai:
          A banca do meu pai não estava mais lá na sexta quando passei indo pegar o trem.

          Observei que havia um buraco no lugar e ao lado concreto destruídos. Olhando de longe parecia a cratera de uma guerra.

          A prefeitura havia dito que iria tirá-la dali então pensei: tiraram-na dali. Com um único agravante: fizeram isso como uns animais. Como bichos, fizeram isso a sangue frio, homens seriam cautelosos, porque saberiam que estariam agindo de igual para igual, com gente como a gente, porque teriam vergonha de fazerem um mal para um homem que há mais de quarenta anos ganhou a vida honestamente concertando panelas de pressão, vendendo martelo e empenadeiras e metros para os trabalhadores da madrugada, alguém que sempre pagou os seus impostos e procurou viver honestamente.

          Foi na presença de todos que estavam por ali. Na presença daqueles que passavam. Os trabalhadores que iam e os que voltavam ou faziam suas compras. Todos assistiram à destruição e entortamento das folhas de zinco material que compõem uma banca de jornal, mal dando tempo ao funcionário de retirar as coisas que havia dentro, o ganha pão de toda uma vida daquele homem. Ele teve que tirar apressadamente a mercadoria debaixo da chuva que caia em poças de água e de lama da chuva...

          Enquanto isso um guindaste a levantava como quem levanta um entulho numa total falta de preparo e recursos. No meio a tudo isso, rodeado por todos os lados, estão os marreteiros que não pagam impostos e as bancas de CDS piratas, os traficantes, e os vendedores de cigarros do Paraguai. Continuam espalhados por toda a região, ou seja, a bandidagem esta a solta e não é por obra do espírito santo, é por obra da omissão da prefeitura que dá corda a eles.

          Um homem conhecido pela alcunha de jabiraca com uma agenda na mão fazia o papel de benfeitor, faltava somente o chicote e as esporas. Um homem que até uns meses atrás corria dos fiscais da prefeitura, porque o mesmo trabalhava na ilegalidade.

          Tive que procurar um dicionário especial, o Houaiss, para descobrir o que significa essa alcunha, porque num dicionário comum esse termo não existe. Não deriva de termo nenhum, é algo pejorativo, de origem chula, algo que nasce da sarjeta, da imundície, assim como a visão que temos ao entrar em Carapicuíba de trem e olhar-mos quer do nosso lado direito quer do nosso lado esquerdo, quando somos agredidos tanto pela vista quanto pelo olfato pela presença e o cheiro repugnante que exala de duas favelas cercadas de muito lixo cobertos de moscas e esgotos que são derramadas na linha do trem se transformando em um rio de água podre e gosmenta. É nesse descaso que nascem os jabiracas que com o tempo se transformam em moscas varejeiras.




          Obrigada Jabiraca por você ter feito um trabalho de porco. Agradeço a você por ter sido eu e não ele, um senhor de 85 anos, quem chorou um bocado ao ponto do meu teclado ter ficado todo molhado e a tela embaçada. Ainda bem que meu pai naquele momento como uma criança dormia, porque agora é isso que ele é: Depois de dois AVC, uma criança que precisa ser cuidada e alimentada e agora ele não sofre mais com as mazelas dessa vida.


          Que estranho é agora quando desço do trem e tenho poucas coisas a olhar, ou quase nada. A banca do meu pai que era um porto com uma luz imaginaria já não existe mais, e aquele senhor de boina vermelha e camisa florida que concertava panelas há essas horas luta num corajoso braço de ferro com a morte, porque ele tem mil motivos para morrer e somente um para viver e é esse que prevalece.

Mlailin


       

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