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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Não se importe

Se você não contar a verdade sobre si mesmo, 
não pode contar a verdade sobre as outras pessoas.

Virginia W



Tinha decidido que não iria se importar. E não se importar significava não ligar a televisão, não ler jornais, revistas, incluindo aquelas que ficam expostas nas filas dos supermercados onde o meliante fica por horas a espera da sua vez. Para o caso, já tinha bolado o meio de escape. Olharia para o meliante atrás de si na fila e manteria com ele um dialogo surdo visual.  A sua última visita ao mundo cão foi quando leu e pesquisou sobre a queda do avião que caiu de bico na terra e a sua profundidade ao cair no chão, foi ai que deletou tudo e registrou:
Não se importe. Não se importe.
  

Para fortalecer sua decisão lembrou-se das lições de sua mãe. Uma delas aconteceu no seu primeiro ano de eleitora. Sua mãe se aproximou com um papel e um número escrito. É um número inventado, este eu criei, nos anos vindouros é por sua conta. 
- Então? Qual é o problema hoje? Nenhum.


Segunda lição aprendida:  Em todo e qualquer momento de opressão ouvia sua mãe cantando: "Livre nasci como a brisa..." Os anos passaram e ela conseguiu entender sua verdadeira intenção e seu alcance. Tem seguido seus conselhos, os que lembra e os que chegam de repente como do nada.


Acordou cedo, perambulou várias vezes pela casa procurando uma motivação, descobriu que motivação não é sinônimo de motivo. Encontrou um motivo, com este seguiria. Depois disso, se alimentou com uma xícara de café preto adoçado com adoçante. Um horror! É uma maneira recomendada por Dickens àqueles que estão a ponto de suicidar.
Não se importar. Não se importar.
Voltou a refletir sobre isso enquanto caminhava e depois no vagão do trem lotado. Foi quando percebeu aquele jovem sentado no banco de idosos e dois idosos em pé na sua frente. O jovem pouco fazia para disfarçar. Era como se dissesse: "Vão fazer o quê? Estou em um trem de suburbio onde o que vigora é estou me lixando para idosos, gravidas, deficientes..." Bom ela também ja tinha decidido: Não se importar. Não se importar. Estava de costas nem precisava ficar olhando. Olhou para as pessoas ao seu redor e descobriu que ninguém também se importava. Quantos são ninguém? 
Não se importe. Não se importe. Conseguiria se toda uma história de vida não estivesse martelando em sua mente. Foi ai, com o fone de ouvido no ultimo volume, (Ainda bem que era Phillip Glass) não tendo um pingo de noção da altura de sua voz, que se fez ouvir até o fim do vagão disse olhando para o jovem: "Garoto, esse banco é dos idosos. Existem dois idosos em pé ai na sua frente" Quem estava de costas se virou para ver quem estava falando com tanta verdade. O garoto rapidamente se levantou como se recebesse uma ordem e o senhor se sentou e sentado ficou até o fim da viagem onde todos desceram, inclusive EU.





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