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sábado, 2 de agosto de 2014

Madame Bovary




Em sua Poética (c.350 a.c), Aristoteles tentou definir os 
componentes centrais de uma tragédia eficaz.
 É necessário um personagem central, disse ele, 
a ação tem de se desenrolar em um espaço de tempo relativamente estreito e,
 o que não é de surpreender, "a mudança na sorte do heroi"
 tem de ser "não da infelicidade à felicidade", 
mas o contrário, "da felicidade à  infelicidade".



Mas havia dois outros requisitos mais eficazes.
Um heroi trágico tinha de ser alguém que não fosse especialmente bom nem especialmente mau,

um tipo de ser humano comum no nível ético, alguém de fácil relacionamento, uma pessoa
que combinasse uma gama de boas qualidades com certos defeitos, 

talvez orgulho excessivo, raiva ou impulsividade. Esse personagem cometeria então um erro
espetacular, não por qualquer motivo maldoso profundo, mas pelo que Aristoteles
denominou em grego harmathia, ou lapso de julgamento, uma cegueira tempóraria,
ou um delize factual ou emocional. E a partir daí adviria a mais terrivel peripeteia, ou
reverso da fortuna, durante a qual o herói perderia tudo que lhe fosse querido e quase certamente pagaria com a vida.




A piedade pelo herói e o medo por nós mesmos baseado na identificação com eles seriam o resultado emocional natural ao acompanharmos a hitória. 
A obra trágica nos educaria para
que adquiríssemos modéstia sobre nossa capacidade de evitar desastre 
e ao mesmo
tempo nos guiaria para a solidariedade em relação aos que o vivenciaram. 

Deveríamos sair
do teatro ou (cinema) sem nenhuma inclinação em relação aos decaídos e fracassados.




O insight de Aristóteles é que a solidariedade que sentimos pelos fiascos dos outros
 quase sempre tem origem na percepção óbvia da facilidade com que também podemos, 
sob certas circunstâncias, nos envolver em uma calamidade como a deles; 
assim como nossa solidariedade diminui proporcionalmente 
ao grau em seus atos dão a impressão 
de que estão fora de nossa possibilidade.





Como uma pessoa normal e sadia faria aquilo?



No verão de 1849 na Normandia.... Uma mulher de 27 anos chamada Delphine Delamare, nascida Couturier, morando na cidadezinha de Ry, perto de Rouen, por estar insatisfeita com a rotina fa vida de casada, contyraíra muitas dívidas com roupas supérfluas e utilidades domésticas e começara um caso, até que, sob pressão emocional e financeira, 
acabou dando fim à própria vida
bebendo arsênico.


Madame Delamare deixou uma filha pequena e um marido atormentado,
Eugène Delamare, que tinha estudado medicina em Rouen 

antes de assumir o cargo de diretor de saúde de Ry, 
onde era amado por seus clientes e respeitado pela comunidade.


Um dos leitores do jornal era o aspirante a romance Gustave Flaubert, então com 27 anos.
A história de Madame delamare permaneceu nele, tornou-se uma obsessão, seguiu-o em uma viagem pelo Egito e pela Palestina até que, em setembro de 1851, ele pôs-se a trabalhar em madame Bovary, publicado em Paris seis anos depois



Uma das muitas coisas que aconteceram quando Madame Delamare, a adultera de Ry, trasnformou-se em Madame Bovary, a adúltera de Yonville, foi que sua vida deixou de ter as dimensões de uma história moral em preto e branco. Como uma matéria de jornal, o caso de Delphine Delamare foi tomado pelos comentáristas conservadores provincianos 
como um exemplo do declínio do respeito pelo casamento entre os jovens, da crescente comercialização da sociedade e da perda dos valores religiosos.



Mas, para Flaubert, a arte era a antítese do moralismo crasso
Era um reino em que as motivações e o comportamento humano podiam ser explorados em
uma profundidade que zombava de qualquer tentativa de construir santos ou pecadores.



Os leitores do romance de Flaubert podiam observar as idéias ingênuas de Emma sobre o amor,
mas também sabiam de onde elas vinham: elas a seguiram desde a infância, leram por sobre seu ombro no convento, sentaram-se com ela e o pai durante longas tardes de verão em Tostes, em uma cozinha onde se ouvia o som de porcos e galinhas que vinha do quintal. Eles observaram Emma e Charles caindo em um casamento mal entrosado. Viram como Charles fora 
seduzido pela própria solidão e pelos encantos físicos de uma jovem mulher e como Emma 
fora impelida por seu desejo de escapar de uma vida enclausurada e por sua falta de experiência com homens fora da literatura romântica de terceira. Os leitores podiam se solidarizar com as queixas de Charles contra Emma e com as queixas de Emma contra Charles.



Mas ai, enquanto os leitores estavam perdendo a paciência com ela, quando achavam que ela nada mais era que uma hedonista egoísta, ele os traz de volta para Emma, conta-lhes algo sobre a sua sensibilidade que o faz chorar. No momento em que Emma perde seus status na comunidade, derrama arsênico na boca e se deita na cama para esperar pela morte, poucos leitores tem ânimo para julgá-la.



Terminamos o romance de Flaubert 
com medo e tristeza por sermos feitos para viver
antes que possamos saber como, 

pela limitação de nossa compreensão 
de nós mesmos e de outros
porque as consequências de nossos atos são grandes e catastróficos, 

e pelo grau a que
nossa comunidade pode ser impiedosa 

e intransigente em resposta a nossos erros.




Extraido do livro de Alain de Botton (desejo de status)

p/sua leitora atenta e disciplinada MLailin


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