sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Meu tipo inesquecível - Miguel Costa Junior



Acho que se apaixonar pelo professor acontece com todo mundo.
Foi o que aconteceu comigo.
Quando se é jovem é mais fácil lidar com isso, porque existe o sonho,
depois na velhice fica aquela coisa de que pode ser um engano, não é bem assim, é só admiração.
E aquela voz chamada consciência dizendo: larga à mão, ele tem 89 anos e você quer mais é a aposentadoria dele. Sei lá, passava mil coisas na cabeça.
Mas quer saber de uma coisa:
Fui uma besta uma tremenda de uma besta quadrada.
Mas a coisa estava nesse pé.
Eu fui contratada para ler para ele e um dia, fechando o livro perguntei:
Professor como foi a sua primeira vez?
Ele não respondeu, mas escreveu e graças a Deus eu guardei essa carta que diz:

Querida e adorada gatinha...

Hoje vou contar-lhe interessantes minutos de minha vida passada. Você, curiosa sempre, mostrando muito ciúme de meus dias de outrora, constantemente me pede que lhe conte essas coisas.
Até agora nada lhe disse. Hoje, porém, vou abrir o livro nessa página. Preste bem atenção. Compreenda como tudo ocorreu naturalmente. Nada por mim foi idealizado. Se planos houve, que me levou a esse desfecho deve ter sido obra dos outros. Ou foi maquinação do destino. Você acredita no destino, nega?  
De qualquer forma vale a pena contar. Mas, antes, confesse-me uma coisa. Se realmente eu lhe mostrar claramente, sem esconder nadinha, nadinha, você promete não se aborrecer? Também não ficará zangada comigo?  Diga-me com franqueza, toda franqueza neguinha do coração. Você quer mesmo saber como perdi a virgindade? Então leia devagarinho, lentamente, sem tomar partido nas questões. Faça todo esforço para manter a mais  absoluta isenção de ânimo. Lembre-se que naquele tempo você nem existia ainda. Logo, não foi traição da minha parte. Eu não podia sequer pensar em trai-la, não é? Isso foi em 1927. Há quase 70 anos, portanto mereço sua contemplação. Então vamos lá.

Eu fugira de casa, como você já sabe. Não aguentava mais viver com meu tio. Não que ele fosse mau, ruim. Até que, de certo modo, era bom e amigo. Só o fato de criar e sustentar três filhos de meu pai, eu e meus dois irmãos, já demonstra o lado bom do seu caráter. Mas ele era genioso. Tinha o pavio curto. Ademais, ele odiava minha mãe conforme já lhe contei. Talvez tenha sido essa a causa fundamental de minha decisão de abrir asas e voar para o mundo, para o além, para o desconhecido, para a grande incógnita. Vou pular muitos detalhes. Sei que você esta tremendo de vontade de saber logo como tudo aconteceu. Mas o caso é delicado. Não pode ser contado assim, de sopetão. Há certas minúcias que devem ser tratadas com bastante cuidado. Imagine se o joalheiro em vez de ter paciência para burilar uma joia, apressado, tomasse de um martelo só para acabar rapidamente seu trabalho. Mas vamos lá. Parte você já sabe. Depois de muito andar, fui parar em Belo Horizonte, a planejada capital de Minas Gerais, construída em quatro anos, versais, baseada que foi nas plantas de Washington e La Plata. Meu dinheirinho já havia acabado. Procurei, portanto a mais modesta das pensões, encontrando-a logo ali, nas imediações da estação. Estávamos numa segunda-feira  se não me engano. Na quinta-feira fui chamado à policia. Apresentei-me ao delegado que esclareceu o engano dos dois ignorantes esbirros da lei. Escute só que lástima, querida gatinha. Você vai dar risadas pelo que se passou. Mas o meu caso era outro; bem outro. Era caso de chorar. Imagina só. Se eu fosse preso, apanhasse da polícia, fosse torturado e depois de muito padecer, reenviado para o sítio de Corumbataí, ali perto de Rio Claro, onde meu tio plantava café e cuidava da lavoura com meus irmãos. Nem quero me lembrar dos terríveis momentos que padeci naquela delegacia de polícia.

Sabe como foi à tremenda confusão? Aqui em São Paulo, a firma Dolabela Portela – creio que era esse nome – estava construindo muitas grandes obras. Precisava, portanto, de trabalhadores braçais, Para tanto, contratou aliciadores encarregados de atrair peões em Belo Horizonte. Dois desses recrutadores de mão de obra, haviam acumulado cerca de vinte pobres coitados naquela paupérrima. Ora, como a empreitada não mandava os passes nem o dinheiro para as passagens, os sabidões foram à polícia pedir passagem grátis para seu lote de obreiros. E lá, declarando suas intenções, foram agarrados nas malhas da lei, pois era proibido o aliciamento de pessoas. A seguir, o delegado mandou dois agentes verificar o que se passava na pensão. Chegando, os “tiras” perguntaram, à dona da casa onde moravam os aliciadores e quem eram eles. A pobre senhora ignorando o significado da palavra respondeu:

 - “Olha seu moço. Não sei não. Só sei se fô esse tar que mora nesse quarto. Ele é o único que usa gravata e o único que come pão. Os otro comi farofa”.

Assim, portanto, por culpa de minha gravata e por causa do meu saboroso pãozinho, tive horas de angústia e apreensões. No sábado a mulher veio cobrar minha estadia na pensão. Eu não tinha como pagar. Então usei de um estratagema. Bem dizem que a ocasião faz o ladrão. Você há de me perdoar, querida gatinha, mas eu não via outra saída. Há momentos na vida de um homem que ele precisa.

Miguel Costa Junior
P/ Márcia Lailin