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quinta-feira, 28 de julho de 2011

A ÚLTIMA VEZ COM MEU PAI




Foi no mês de agosto. Domingo, dia dos pais. Mês do meu nascimento.
Vou retornando e meus passos ressoam pelas escadas da estação do trem com destino a Santo Amaro.
Irmã Luísa (irmã dela) e a usurpadora me esperavam
As duas com suas fisionomias estranhas e vestimentas que iam até o chão conversavam alguma coisa
Eu no outro banco, ora olhava para elas, tentando a todo custo manter um ar amigável, ora olhava pela janela para o céu azul cheio de nuvens brancas, como agora de manhã
Ora abaixava a cabeça e dizia: “Meu Deus me livra desse horror”
Ia para o hospital Vida, visitar um homem que morria
Por que tinha que ser eu?
Porque somente eu poderia fazer desse momento uma dádiva
Não podia falar sequer pensar o que achava dessa aventureira
Dois anos já se passaram em que eu estive em seu quarto deitada ao seu lado
Pela última vez, sentindo sua respiração enfraquecendo passo a passo, seu corpo apodrecendo
Não sei se dormi, não sei se chorei
Lembro que nos meus olhos havia uma enorme claridade e eu sentia falta da escuridão
Quando começou o dia a ambulância chegou e quatro homens um de cada lado carregaram meu pai estirado em um lençol branco
Foi nesse dia que uma lâmina fina e penetrante entrou em minhas costas
Amanhecia quando eles passaram com seu corpo próximo ao meu naquela sala cheia de espelhos
O reflexo de todos eles apontava para os braços e as costas daquele enfermo enormes feridas
 Segurei a fala, segurei o grito
E me voltei para olhar por um instante nas dezenas de espelhos pregados por toda sala enquanto perguntava: “Quem sou?”
Foi no pronto socorro a última vez que o vi com vida
E ele olhou para minha direção, foi um olhar tão meigo, o único que ele me deu em toda minha vida
E eu não aguente e chorei
Não devia
Estou sempre fazendo coisas erradas na hora errada
Ele não podia saber que estava partindo e que eu estava sofrendo
Eu tinha que ter dito: “Você vai ficar bem. Eu vou te levar pra casa. Para minha casa”
Não é assim que se diz?
Mas eu não disse nada. Só silêncio e lágrimas
E fui obrigada a acompanhar aquelas duas malucas para não perder o meu pai
Na UTI o médico perguntou quem estava cuidando daquele enfermo cheio de escaras e com os dois pulmões completamente destruídos
A usurpadora não soube responder e como sempre entrou em transe
O que fazer? O que poderia fazer?
Naquele dia andei a esmo pelas travessas da Avenida Nossa senhora do Sabará
Como seria o amanhã? O daqui a pouco?
Estava sozinha quando o médico disse: “Seu pai está mal em virtude de assepsias que afetou a área cardíaca, respiratória, renal e metabólica. Com enormes secreções calcataneas e escaras no cotovelo, nos braços e nas costas. Havia dado entrada no hospital já com essa infecção generalizada. Está totalmente dependente de aparelhos. A pressão está muito baixa, mesmo a custa de drogas. Tudo se espalhou completamente. Ocorrerá o óbito”
Foi isso que ele disse.
Não mediu as palavras indesejadas, muito menos eu disse: Pare!
Fitava-o nos olhos, estava tão passada, mas ainda deu pra sentir nas costas uma lâmina fina e pontiaguda penetrando fundo...
Caminhei em direção ao morto pela última vez
Despedi-me com um último olhar
E desci uma escada escura, tateando o meu caminho...
Atrás de mim, porém de quando em quando escuto
A voz do meu pai me acordando
Relembrando coisas da minha infância
Mlailin

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