domingo, 8 de janeiro de 2012

As mãos do meu pai


A primeira vez que prestei atenção nãos mãos
Do meu pai
Foi quando ele cortou o dedo concertando uma panela de pressão
Fiquei olhando para aquele dedo jorrando sangue
E ele como se nada tivesse acontecido continuou concertando a panela
Virei o rosto para não ver
Ele sempre infundiu terror no meu coração:
“Tenho medo! Tenho medo!”
Era uma garota medrosa
Jamais conheci alguém que, com tanta
Consistência e até loucura, agarrasse a vida
Com ambas as mãos
A segunda vez foi concertando outra panela
Dessa vez  ele estava muito doente
Suas mãos estavam fracas não
conseguiam mais segurar a alça da panela
A terceira vez foi nessa foto
Continuo a olhar para suas mãos como sempre fiz
Dessa vez não mais com medo
Mas com admiração
As mãos que nunca conheci realmente
Vi sempre de relance,
hora trabalhando,
hora gesticulando nervosamente
Prontas para virem em minha direção
Para fazê-las em bofetadas
Se já não estivesse na esquina
Poderia até ser

Olho para as minhas
Tem o mesmo formato que as dele
E é sempre mediante essa imagem que penso nele
Criatura estranha
Nunca entendi
Ao relembra-lo depois da sua morte
Chego, às vezes, a refletir
E percebo que já não fujo mais
Agora eu posso colocar a cabeça em seu peito
Agora você pode afagar os meus cabelos

Mlailin












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