segunda-feira, 9 de maio de 2011

Da condição humana







Na luta contra a realidade o homem tem apenas uma arma: a imaginação”
           Estou morando a uma semana na Rua 24 de maio no décimo segundo andar. Fui contratada para cuidar de um senhor de 97 anos. Há seis meses esse homem não anda mais e passa a maior parte do tempo dormindo. Esta inválido. Ele apertou minhas mãos em sinal de que gostou de mim – e eu gostei dele. Foi à primeira vista. Logo que entrei naquela casa quando vi aquele idoso de cabelo branco deitado, automaticamente, lembrei-me de meu pai em seu leito de morte. A mesma imagem do homem que fora tão forte um dia, agora estava ali estirado naquela cama, tão frágil, miúdo, os olhos cansados e tristes como um animal encurralado. Senti que a chama da vida se apagava. E eu teria que afastar os olhos para algum ponto na parede, uma mancha, uma luz, um quadro, alguma coisa que desviasse minha atenção do fato que sempre acaba me levando ao choro. Mas não havia saída para onde escapulir e eu podia chorar porque aquele homem com os olhos esbranquiçados não enxergava mais.
           A sua família preferiu cuidar dele em casa, em vez de coloca-lo numa instituição, é a retribuição, a “devida compensação”. A enfermeira do dia tirou uma semana de licença e eu permaneço o dia e a noite folgando somente os domingos.  Quando cheguei aquela casa a primeira coisa que fiz foi procurar os livros. Só havia uma revista na sapateira, uma revista em outra língua, em grego, é um senhor grego. Seu nome: Athanase. Nem tudo estava perdido, sempre carrego alguns livros comigo, assim estava salva da solidão. Lembrei que tinha em casa o livro Zorba o Grego. Na próxima semana não esqueceria de colocar na bolsa e leria para ele no tempo que passo ao seu lado velando o seu sono. Ele não consegue mais falar, mas pode ouvir, quando falo perto dos seus ouvidos. Dou-lhe de comer na boca, uma neta me ajuda na hora do banho e da troca de roupa. Muitas vezes sou os olhos, os ouvidos e a mente desse idoso. A empatia mais do que qualquer outro sentimento é a chave para cuidar dele de modo adequado.
          O mais difícil esta sendo ficar aqui nesse apartamento aonde o sol só chega pela manhã e por algum tempo não mais que uma hora. Sinto-me presa como alguém em exílio na Sibéria. Hoje pela manhã pedi a sua neta para ir até a farmácia. Precisava de um anti-inflamatório. Meu nervo ciático estava dando o ar da sua dor. Primeiro ela pediu pra ir em meu lugar. Como eu me recusei ela disse que fosse logo. O que eu queria mesmo era poder dar uma escapada e ir até a banca mais próxima para saber o que acontece no mundo. Ouvi dizer, ao telefonar para uma amiga que o terrorista, o inimigo público número um do mundo havia sido morto. E talvez  dar uma olhada em um novo livro. A voz daquela mulher impaciente e autoritária ficou martelando em meus ouvidos e não me permitiu ultrapassar os limites da sua liberdade. Sim, estava na Sibéria o lugar para onde iam os criminosos e inimigos políticos, onde as pessoas morriam de tristeza. 
         A sala onde estou tem como vista um monte de prédios um mais feio que o outro. Não consigo imaginar como alguém pode achar isso bonito. A sala tem uma pequena janela e os vidros estão sujos de poeira e marcas de chuva. Alguns mosquitos, parecidos com aquelas da banana se jogam no vidro parecendo mais um suicídio coletivo. Como pode haver saúde nessa casa fria onde o sol só aparece pela manhã e por alguns minutos? Na sala foi improvisado um enorme varal, mantido por duas cadeiras. Não tem televisão e nenhum rádio. Quando estou só ligo o radio do meu celular e escuto uma música, algo que acione meus neurônios. Agora, enquanto estou escrevendo uma claridade amarelada do que é o nascer do sol bate em minhas pernas, abaixo a cabeça para que ele alcance o meu rosto e fecho os olhos enquanto penso: “Como isso é bom”. Vou até a janela e observo a rua lá embaixo. Ainda tem montes de lixo esparramados pela rua. Na rua que ontem a noite estava cheia de mesas e cadeiras e as pessoas bebiam. O caminhão da Prefeitura está atrasado, e as pessoas que seguem para o trabalho pisam na imundície. Não conto mais as horas, isso é bobagem. Embora continue dizendo: “Daqui a pouco estará amanhecendo, outro dia”. Enquanto isso não acontece vou tentando lembrar a última coisa que me fez feliz e me vem a mente a foto de três enormes baobás que eu vi ao passar pela página se não me engano da May. Achei tão impressionante que eu não consegui mais esquecer. Minha admiração chegou a tal ponto que coloquei na bolsa o livro O pequeno príncipe. O livro é minha única lembrança dessas estranhas árvores. Se não tivesse aqui comigo esses quatro livros não sei o que seria de mim. Não me foi permitido trazer o computador. Alegaram que isso desviaria muito a minha atenção. Se soubessem de minhas fugas. Se soubessem quantas vezes fujo dessa condição. Até certo ponto me especializei em chás literários e coquetéis, logo fazendo-me conhecida entre os poetas e escritores. E era então graças a eles que eu entrava em uma estranha e secreta conspiração. Eu precisava deles eu desejava estar com eles... A minha atenção não pode permanecer durante muito tempo dentro desta casa. Observo no prédio ao lado um homem colocando algumas gaiolas na janela. Começo a contar. Oito gaiolas. Talvez com dezesseis passarinhos prisioneiros. Dezesseis presidiários que nunca cantam.
          Hoje pela manhã enquanto eu dormia um pouco escutei vozes e um homem me chamando, dizia ter ordens da sindica para fechar aquela porta com cadeado. Era a porta que dava para uma enorme sacada onde estendíamos a roupa que demorava mais pra secar e onde as tardes eu saia e procurava ver o sol se pondo no horizonte. Via somente um reflexo vermelho alaranjado no meio de dois enormes arranha-céus. Isso me chocou e me deixou com vontade de mandar um recado por eles a ela agradecendo por essa mesquinharia. Mas então eu sabia que seria em vão, essa gente nunca iria entender. E eu ainda podia, enquanto lia imaginar o pequeno príncipe sentado em seu planeta no dia em que ele viu o sol se pôr por 43 vezes. E eu me sentia simplesmente transportada me levantando do chão para o ar e depois mais alto ao nível do último andar. E não era mais eu nesse aposento, esse tapete, essa mesa, esse cheiro de remédio, cheiro de vida que se apaga. Era simplesmente uma pausa nesse instante de tempo.   
Cont...
mlailin  














       
           

Um comentário:

sueli aduan disse...

quero ler novamente.... e novamente ...e novam..
na mente nova... que gostei e muitooooo.

bjão