sábado, 19 de fevereiro de 2011

Esperando a ocupação


Eram seis horas da manhã, dia 16. Não importava se ainda era cedo, muito cedo, e eu um exagero. Tinha justificativas: Iria fazer algumas coisas pelo centro. Rever os amigos; ficar algumas horas em algum sebo do centro velho e depois seguir caminhando até a Paulista. Sentaria na biblioteca da casa das Rosas e ficaria esperando o dia terminar e o começo da noite chegar. Assim estava programado na minha mente e exatamente assim tudo aconteceu.
O tempo demorou tanto pra passar... Para esquecê-lo lia o livro do desassossego de Fernando Pessoa enquanto anotava algumas frases. Uma forte chuva começou a cair e eu já em arrependimento: Por que havia dito sim? Por que havia dito que viria? Por que essa horrível mania de ter compromisso com aquilo que falo? Por que não fiquei em casa ou junto com Ana massageando seu braço e sua perna inertes, depois do trágico AVCI? Talvez fosse mais produtivo... Depois de um dia como esse eu apreciaria uma deliciosa taça de champanhe. Nem tudo estava perdido. Pensando nisso cruzei a rua em ziguezague e entrei.

Sentada na sala de espera, fitei absorta uma mulher acomodada na primeira fila. Era-me como uma pessoa conhecida. Seria ela uma daquelas pessoas com quem eu falava tarde da noite no facebook em meus excessos de despertar? Seria ela Sueli a escritora? Reflito enquanto imagino como seria a aparência de um escritor. São eles humanos? Subumanos? Ouço alguém perguntando: Onde vai ser a ocupação? Uma voz responde: Lá dentro. Lá dentro onde? Penso.
E súbito, fitando as pessoas que chegavam, refleti em quanto tempo fazia em que realmente desejei ser como um deles. Uma figura singular e glacial. Simplesmente extraordinária – simplesmente espantosa! Como Saramago, como Virginia, como Clarice, como Poe, como Baudelaire... Ali estava eu uma mulher havia já longos anos; desejando ser conhecida pelo direito e pelo avesso, por cada curva da minha letra e cada mudança de direção de minha voz; minha paixão por livros, minha ridícula maneira de andar, as manchas do sol em meu rosto, a extrema insignificância de minhas mãos, minhas pernas, meus cabelos presos em coque e minha extrema aversão a tudo que não fosse poesia.
Nesta altura a sala estava ficando lotada. E eu não podia deixar de refletir nesse instante em como tudo aquilo era extraordinário! Ali estava toda aquela boa gente transitando por mim se abraçando, se beijando, vozes se faziam ouvir enquanto eu escrevia devagar em meu livro de anotações: “Não conheço ninguém. Ninguém para dizer: Olá que bom te ver por aqui! Não tenho ninguém para abraçar. Ninguém para beijar. Por isso não. Abraçarei a mim mesma. Beijarei a mim mesma. E tudo acabara em alegrias. Sim: em alegrias”.
Percebi que a multidão começou a ser conduzida para o fim da sala. Parece que iriamos enfim realizar a nossa ocupação. Então, eu segui a multidão em minha servidão de passagem. Seguia em uma lenta arremetida como mosca. As luzes se apagaram e na semiescuridão ouvi a voz de um homem que dizia: “Mosca ouro/mosca forca/mosca prata/mosca preta/mosca íris/mosca reles/mosca anil/mosca vil/mosca azul/mosca mosca...” (Haroldo de Campos)

Mlailin

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