Carlos Heitor Cony - Lua de São Jorge



Cony

Conheci Cony no início da década de 90, quando morava nas montanhas, já tinha o hábito de ler jornal, coisa que hoje abandonei completamente. Naquela época morava na última casa enfiada nas montanhas de M.V. E assim para preencher o tempo, quando cansava de olhar as nuvens descendo e subindo pela janela da sala, comecei a colecionar crônicas de jornal. O primeiro caderno, o cotidiano a ilustrada e o caderno 2, o resto eu jogava fora. Ia uma vez na semana até a Vila, a rua principal e ali comprava ou pedia para os amigos que assinavam que guardassem os jornais e assim fui adquirindo as crônicas de Cony. Na verdade, comecei com Tarso de Castro, mas ai ele morreu... e passei para o Otto Lara Resende, mas ai ele também morreu... recortava-as e colava em um caderno. Tenho esses cadernos até hoje, ruídos pelas traças. Recentemente folheando um, encontrei Lua de S. Jorge, procurei no google, achei no link da Folha de São Paulo que só autoriza o acesso se eu for assinante, como não sou e não mais serei tive que digita-la na integra. Eis...


Lua de São Jorge
Coisas que acontecem: ia fazer 50 anos, teve um caso por aí, nasceu-lhe um filho. Brigas daqui, brigas de lá, separou-se da mulher, dividiu bens, mas não foi morar com a mãe do garoto, preferiu continuar sozinho.
Cumpria suas obrigações, pagava contas, mas não queria nada com a mulher que lhe dera um filho à revelia.
Eis que ela teve de se internar, um acidente de carro. O garoto caiu-lhe como um dever, que ele dividiu com uma jovem que se oferecia pelos jornais para cuidar de crianças de pais solitários.
Ele então chegava cedo do trabalho para ver a moça adormecer o filho. Ela cantava baixinho, a voz parecia vir do espaço e não da sua boca. Nada de “Eu fui no tororó” nada de bicho-molungu, boi da cara preta, o repertório gasto que fez dormir todos nós.
A moça cantava Lua de S. Jorge, a música que ele mais gostava do Caetano Veloso. Evidente que o menino não entendia a letra mas adormecia no embalo da melodia que vinha mais do espaço do que da carne do mundo.
Ele entendia a letra, amava a música e amava sobretudo o canto da moça, baixinho, soprado no rosto da criança. Ela cantava, em parte para acalentar o guri, em parte para acalentar a si mesma.
Invocava a lua.
Nem era a lua que ela invocava, mas um duende boiando no infinito da noite, o santo-guerreiro que nunca existiu e por isso ficou exilado lá em cima, mancha azul num disco de prata rolando na treva.
A mãe do menino saiu do hospital, veio para casa, pediu de volta o filho. Ele nunca mais ouviu a voz da moça, cantando baixinho a lua soberana, a lua que acalenta o sono das crianças e que acalentava o sono dele.
Sozinho na noite, ele ouve ainda aquela voz macia. O dia amanhece, e a lua de S. Jorge nem aparece para iluminar o que restou dele – se é que restou alguma coisa

Carlos Heitor Cony  
Lai 









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