segunda-feira, 24 de abril de 2017

A procura de Agustina Bessa-Luís



O sentimento do Porto

Lai a procura de Agustina Bessa-Luís


Há dois anos atrás ao perguntar a um amigo portuense se tinha contato com Agustina, ele respondeu que não. E eu perguntei nunca fostes saber como ela está? Onde mora? Disse que não, que ela estava reclusa, doente ou não lembro mais o quê. Disse a ele que isso não impedia de ir até o seu portão se fosse atendido muito que bem se não, que deixasse um bilhete na caixa de correios ou um ramalhete de flores. Sempre achei que ações carinhosas devem ser feitas enquanto existe vida.Tempo depois fui a uma exposição no Museu da língua portuguesa. Até hoje não sei quem foi o responsável pela exposição sei que o responsável merecia uma bela de uma reprimenda. Confesso que fiquei triste e ao mesmo tempo privilegiada por estar ali ao lado de fotos e nada mais... 

Nenhum livro é nenhum português que comentasse um pouco sobre a poeta de sua terra. Um vazio em um lindo prédio que virou fumaça preenchido por painéis com fotos e nada ....



Foi alguém do facebook que pedi e um dia me deu o endereço no Porto.

 Se algum dia fosse... Nada me impediria de ir até a rua.... ao portão. ... e pedir:

 Posso ver Agustina Bessa? Petulância minha? Não!

 Por que ser hipócrita depois da sua morte? 

Se puder ver falar ou fazer algo por mim e por alguém que seja em vida

Foi na terça estava em minha caminhada, no meio de mais de 20 quilômetros andados quando na minha frente a placa da rua. Meu coração pulou e disse: A rua, e ela! Quase cantei: olé , olé olá. Era tarde e não podia contornar ali a minha direita e não tinha comigo o livro..... A muralha.
Na quarta fiz novamente os quilômetros e até mais porque não tinha a noção da localização geográfica do local e já estava quase chegando no Aleixo.... quando percebendo que algo estava errado parei em uma agência de Correios e pedi informação. Um senhor atencioso ouviu o nome da rua e disse desconhecer então procurou no google. Teria que voltar novamente o caminho feito. Vai Lai, vai com alegria pela Campo Alegre.
Está certo que desde criança minha mãe me chama de cambitos finos, mas as cabritas tambem cansam. Estava com sede e fome....
Encontrei a rua, não encontrei antes porque o Porto era uma Aldeia e suas ruas me parece que foram feitas para isso: para se perder nelas...



A rua de sua casa engana. Engana porque quem procura e acha pensa: "Já era. Informação errada" O que existe a primeira vista é uma pequena rua com um estacionamento de carro de esquina a esquina do lado esquerdo e do lado direito um prédio um muro e na frente de tudo o beco duas rodovias e fim.Fim uma ova. Fiquei olhando como quem olha no novoeiro e de repente um farol alguém me deu sua mão. Era uma mão de coragem.... atravessei a avenida congestionada de carros...e entrei em uma casa antiga de portão aberto. Seria aqui a casa que permaneceu quando destruíram uma parte da rua para construírem partículas de carvão? Passei pelo estacionamento e entrei somente para descobrir que era uma escola. Não me interessava saber do quê.Voltei e comecei a descer a rua quando novamente a mão me puxou e me levou ate o barranco cheio de arbustos folhas secas e árvores onde vi o Douro, quando virei o rosto do meu lado direito vi a casa e o que restou do que foi um dia uma aldeia. Demoliram à aldeia até o limite da casa. Fiquei alguns momentos olhando para a casa de dois andares. 


Todas as janelas estavam abertas exceto os vidros. Olhei pelo interior de uma de suas janelas no térreo, era uma sala de estar com as estantes cheias de livros, um sofá com uma manta caindo e uma escrivaninha com livros abertos.... Que feio.... pensei... ficar bisbilhotando. Sai e voltei. Vi um vulto passando e dei uma batida. Uma jovem se aproximou e falei com ela pelo vidro fechado. Disse o que queria, perguntei se ela estava entendendo a linguagem labial, ela disse que sim e mandou que eu fosse ate o portão e apertasse a campainha e foi o que eu fiz....


"Atrás das suas pedras há a nobreza mourisca, ha o judeu caviloso e astuto, o fenício do grande comércio, o homem da Lusitânia criticador e inerte. Ela é a muralha, povoada de funcionários e mestres-de-obras, de colegiais, de artistas, ingleses colonialistas - e pelo capital. A sua alma é funda e profética, os seus costumes rigorosos mas não severos - e há mais espírito na sua gente de ilha, na sua gente crua de sentimento e afeição à desgraça... Ela é a muralha, com a cintura rodeada de novoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça"

(Agustina Bessa-Luís)

Lai - outono de 2016



O sentimento do Porto
Lai a procura de Agustina Bessa-Luís


Já tinha escrito uma vez como conheci Agustina. Foi no museu da Língua portuguesa. Foi em um sábado, eu e as moscas. Nunca vou em exposição, a única exposição que frequento com prazer, sem tédio, tipo: me tirem daqui! É das flores, das gaivotas, dos patos, das gramas e do mar... Foi um amigo que tive aqui no facebook que um dia me perguntou: Terá uma exposição da Agustina Bessa no museu da língua portuguesa ai em SP, você vai? Sabedor que era do meu fascínio por essa mulher, fez por bem me avisar. É claro que fui. O que me deixou furiosa não foi ter sido eu a única visitante naquele dia e não duvido nada que em todos os outros dias também. O que me incomodou foi não ter nenhum livro dela ali exposto ou alguém contando a sua história. Só havia fotos dela e nada mais. Olha, sei que vocês devem estar desconfiados, mas tempo depois aquilo lá pegou fogo e juro que não tenho nada com isso.
Ai um dia me deu na telha: vou para o Porto. Porque o Porto e não Lisboa? Por causa do vinho. Todo mundo na minha vizinhança fala desse vinho e eu pensava com meus botões: que raios tem esse vinho que os outros não tem? E também queria só de raiva conhecer Agustina Bessa e dizer a ela onde já se viu uma exposição daquelas. Pedi para um amigo bem informado que mora no facebook, um advogado de nome... melhor esquecer o nome, se ele saberia dizer onde morava a Agustina. Respondeu que iria confirmar e depois de me fazer esperar uma semana e alguns dias, passou o endereço e eu anotei. Para quem não sabe o esposo da Agustina é advogado e foi encontrado por ela nos classificados. Sorte grande teve o estudante de direito Alberto Luís ao responder o anúncio. Não sei por que digo isso, talvez pelo mesmo motivo que a malta portuguesa tem de dizer séculos depois que o pobre do Camilo esteve preso na cadeia da relação por adultério.


Um belo dia entrei naquele avião sem medo e sem asas e atravessei o oceano. Somente vim a descobrir a grandiosidade e a delicia que é esse oceano Atlântico na Vila do Conde, quando em uma bela manhã calma e ensolarada eu vi com esses olhos que a terra não há de comer a nau (uma miniatura tamanho gigante) de Cabral e meus olhos se encheram de lágrimas diante de tanta coragem daquele homem teimoso como uma mula.



 Hoje quando penso nisso meu coração ainda pula. Por causa de Cabral? Não mais, agora é por causa de mim mesma.
E aqui, fiquei saracoteando por ai. Conheci Camilo Castelo Branco, sua última morada e fiquei estarrecida com seu paradeiro. Os dias passando... Até aquela tarde em que eu caminhava feliz como uma noviça pela Rua Campo Alegre, e então a surpresa. Foi como se alguém tivesse segurado meu pescoço e dito: Olha! E fiquei assim tipo estatua olhando para aquela placa com o nome de uma rua. Sabe quando você vê algo que queria e não esperava, fiquei ali olhando, dando voltas sobre ela, parecendo um altar de adoração. Como fiz para chegar até a casa contei isso no verão passado.

 E contei também da moça que estava no andar de baixo e eu olhei... E a chamei e ela veio e me mandou ir ate o portão de entrada e eu fui... A empregada atendeu. Empregadas são treinadas para serem muralhas... Mas eu pedi a ela e ela disse que iria levar meu livro para ser autografado. Não era isso que eu queria. Mas entre isso ou o nada. Preferi isso. Foi e quase não voltava mais. É que o Dr. Alberto Luís deve ter levado longo tempo lendo a crônica da Agustina no livro de vários autores que eu tinha. Ou estava ocupado sei lá, não me disseram... Sei que ela voltou com seu passo apressado, não sei o que deixa essas mulheres assim tão pesadas. Entregou-me o livro que carregava nas mãos como se fosse um empecilho dos seus afazeres e fechou o portão. Ali estava a dedicatória... Não era isso...Não era isso sua mula. Quem era mula? Eu ou ela? Não sei quanto tempo fiquei ali parada na porta de ferro verde. Minha mão batia no nada e eu dizia: Não é isso, não é isso... volta aqui!
Tentei encontrar um buraco de ferrugem onde eu pudesse olhar...



Dei uns passos atrás e sentei em um resto de muro. Ah, foi tão triste. Queria tanto dizer, queria tanto que sentissem o tamanho da minha tristeza naquele dia. Se soubessem viriam aqui e derrubariam todas as portas, abririam todas as trancas... Teria que fazer algo não podia ficar ali parada.

Dei umas voltas pelos restos do que foi um dia uma aldeia e hoje esta cortado por uma rodovia


 dupla e rodopiei como se estivesse caindo em um labirinto.

Toquei com os olhos e com as mãos cada pedaço daquela quinta. Olhei através das janelas


e encontrei as nuvens e o céu azul, tão lindo.


Fechei os olhos e imaginei como era a vida daquela mulher quando ali existia esperança e vida.
Lai em a vida como ela e os poetas da sua vida <3




Primavera de 2017

2 comentários:

marcia lailin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marcia lailin disse...

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