sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Meu tipo inesquecível - Nelson Rodrigues




<3

Com indisfarçado orgulho, o “Correio da Manhã” anunciou durante uma semana, em chamadas de primeira página, as “Memórias de Nelson Rodrigues” para o dia 18 de fevereiro de 1967, uma quinta feira. E ele entregou em grande estilo. Começou dizendo que nascera no dia 23 de agosto de 1912, no Recife. Duas linhas depois, Mata Hari estava ateando paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris - e, daí a vinte linhas, a ação passava para o presente para a esquina de São José com avenida Rio Branco, com um camelô agitando um folheto e gritando:“A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil”Nelson descreve seu estupor. Nunca vira uma prostituição sendo apregoada nas ruas como se fosse sabonete, E o que mais o estarrecia era o povo passava pelo camelô, numa espécie de escoamento vacum, e ninguém achava nada estranho naquilo. Finalmente Nelson deu-se conta: fora vitima de um monstruoso engano auditivo. O que o camelô estava gritando era:


“A nova Constituição do Brasil! A nova Constituição do Brasil”Nelson nem precisaria explicar, como aliás não explicou: a nova Constituição do Brasil, a de 1967, elaborada a frio pelo sinistro Carlos Medeiros Silva - que lhe proibira “O casamento” - prestava àquele tipo de ilusão sonora.


<3 Lai



2 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

Considero Nelson Rodrigues não só o maior teatrólogo do país, como um dos mais fecundos escritores, querida Marcia. Excelente jornalista, diga-se de passagem.
Beijo
Jorge

marcia lailin disse...

exatamente
incompreendido em sua época e mesmo assim não se rendeu
Um vencedor, embora morto em corpo