domingo, 11 de dezembro de 2016

A vida como ela é ....


A vida como ela é.... (De Lai e não do Nelson)

Tem dias...



Tem dias que dá uma vontade de falar com alguém. Alguém que não esta mais presente fisicamente, mas que vive na memória. O escritor Caio Abreu em uma de suas viagens para a França escreveu: “Então me sentei no banco de Quai de Bourbon de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, do outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se: II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) - frase de uma carta escrita por Camile Claudel a Rodin, em 1886.



Não estava em um dia tristíssimo assim como Caio. O caso é que sempre que passo por essa rua em frente desse cemitério e vejo essas senhoras portuguesas com seus maridos suas netas ou suas filhas, vendendo suas rosas, violetas, jasmins, cravos de defuntos... Lembro-me da minha mãe. Sinto o espirito dela próximo de mim. Sou acometida por uma vontade louca de comprar uma rosa, uma rosa vermelha e atravessar o belo portão de ferro e ali no meio daqueles túmulos branquíssimos, escolher um e depositar uma rosa para uma mãe qualquer. Mas não faço, sou má, fico na vontade e digo a elas bom dia enquanto passo, lembrando da mulher que ela foi um dia e da menina que fui e agora ainda sou. Será que essas senhoras tem a mesma ansiedade que minha mãe tinha em relação ao comércio, ao tempo e aos dias? Estava sempre ansiosa e aflita. Quando chegava a casa dizia que as vendas não foram boas, que ninguém comprou nada... Ficava nervosa. Eu nunca entendia, pois nunca nos faltava nada.



Esta anotada em uma agenda minha o último dia em que subi a rua do hospital, na rua que não era, mas agora é o local onde os remanescentes seus amigos os que restaram do seu tempo ainda estão lá a comercializar. Passei pela banca do Senhor Luizinho, as suas frutas ainda são as melhores e olhei para seu braço para ver se era o mesmo senhor e vi que era pois não tinha uma mão, a mão esquerda. Ao passar pela banca do queijo percebi que o dono me olhava eu passei reto fingindo não ver, não que não queria recordar, é também era isso, mas não queria era olhar para seus pedaços de queijos expostos, suas deliciosas azeitonas pretas, e o queijo faixa azul comprado todos os domingos para o macarrão que fazias com frango. Não estava a fim de passar por isso. E muito menos lembrar de mim a menina peralta que dias depois procurava em todas as latas, escondido por ti, um pedaço do queijo para comer com café preto assim como você fazia e que eu adorava. Hoje nem isso mais faço. Dizer que tudo ficou uma droga seria muita ingratidão minha com coisas boas que vieram. Aquele senhor que vendia limão ainda está lá. Como era mesmo o nome dele? Tenho raiva de mim metida a recordar se não sou capaz de chegar perto e perguntar: Qual é mesmo seu nome?
Mas o pior de tudo é a banca do Paulo, o Paulo pasteleiro. O pastel especial ainda é o mesmo, igualzinho, o mesmo sabor, a mesma azeitona, o mesmo queijo, a mesma massa, o mesmo ovo cozido... Só mudou os personagens. Paulo não está mais lá. Está lá seus filhos, um casal. Faz tempo que perguntei por ele, ouvi dizer que estava doente, hoje já deve ter morrido... E eu prometi a mim mesmo não me meter mais nesse assunto de lembrar. O local de enorme ficou restrito a bem poucos, mas os poucos que estão lá de dez, sete eram seus amigos. E todos queridos por ti. Você não está mais presente e tampouco o Q querido J Joana (meu pai) era assim que você o chamava.

Lai


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