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terça-feira, 28 de maio de 2013

DANÇA MACABRA



Qualquer semelhança com Macabéa 
uma nordestina angustiada
e de poucos sonhos, não é mera coincidência.



MACABRA
Era assim que a chamavam

MACABREIA


Era assim que o pessoal dos 
Correios Telegramas fonados 135 
sussuravam, 
enquanto que com as mãos 
tampavam o fone de ouvido
- Macabra, não olha agora. 
O Serjão está no piano. 
- Macabra você tem 
quinze minutos para ir até o Bob's. 
- Macabra, no Belas Artes esta passando 
Nove semanas e meia de amor. 




- Macabra, tenho dois ingressos 

para o cineclube Oscarito. 

Dois, um pra mim outro pra você 
- E mesmo? E no c* 
não vai nada? - Pensava 






O cigarro queimava lentamente 
nos lábios de Aguinaldo 
encostado na pilastra 
do antigo prédio da Avenida São João


- Macabra, decifra-me ou te devoro -
- Ah, vai catar coquinho


- Macabreia, veja o que eu trouxe pra você. 
A tua cara mina.
Florbela Espanca. 
Roubei de uma biblioteca
somente para seus olhos

Flor flor bela... Sonetos
Eu
"Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte
Sou a irmã do sonho..."

Inconstância
"Procurei o amor, que me mentiu
Pedi à vida mais do que ela dava..."

....................
Tanto clarão nas trevas surgia...


- Macabreia! Espera que eu vou
de metrô com você até a Barra Funda

Macabreia e Acacio, 
veja só que horror, 
a um passo do adultério
Com certeza no outro dia Sergio 
o esperaria para ouvir
toda a história
para não perder nada
nenhum lance
E Macabreia lhe dava a mão
ria
enquanto descia as escadas do metrô
E Acacio passava as mãos em
seus cabelos
enquanto dizia
que iria dar mais uma aula
e não podia chegar atrasado
E ela sabia
que a aula era sua mulher que o esperava
em casa
- Você não acha ruim, né?
 Sim, achava ruim. Muito ruim. Mas ele era
tão simpático, tão divertido
um historiador
já tinha lido tantos livros
Falava deles e de tantos autores
e ela ouvia
ouvia em aramaico
tentando entender em
grego
Só tinha lido dois livros
somente dois 

do ínicio ao fim
So teve saco para dois
 lembrava....
O morro dos ventos uivantes
e o Castelo do homem sem alma
os dois 
atravessados em sua garganta


Não interessava sua vida particular
Claro que não achava ruim
Como podia achar ruim
se era um momento fugaz
e
a vida tão curta
abriria o livro
sem saber porque
Como se isso pudesse mudar alguma coisa
Impossível aparecer na sua rua
e chama-lo com um gesto
Impossível dizer
a sua esposa
dá licença
agora é comigo
Impossível contar tudo a ela
só podia estar ali
vendo-o
em pé na plataforma
esperando o trem
sabendo de antemão
que o romance já estava escrito
com inicio 

meio
e até a palavra
fim

Não podia
alterar nada
baixava os olhos
era tão nova ainda

Lailin


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