quarta-feira, 27 de abril de 2011

MISSING




“Procuro nas nuvens o seu sorriso. Soube que é seu último rastro...”

          O sentimento de perda debilitou-me. Passei a noite toda pensando onde encontra-lo.
          - Onde? Onde quiser – Digo a mim mesma enquanto olho nuvens negras se formando.
          - Carlos! – Quando pronunciava em meu íntimo o seu nome, um meigo olhar, envolto nas dobras de uma manta, e um sorriso lindo nos lábios brilhou diante de mim, e logo depois desapareceu como um fogo fugaz pela esquina da Praça Oswaldo Cruz.
          - Carlos! – Voltei a chamar enquanto entrava na casa das rosas.
          Precisava entrar na biblioteca. Um lugar silencioso. Sentir palpável e viva a lembrança que desde a véspera flutuava em meu pensamento. A sua imagem perturbou-me com uma persistência estranha.
          - Por quê? – Perguntei-me. O desejo de justificar-me apoderava-se de mim; um desejo confuso a princípio, logo mais claro, mais agudo e vivo. E resolvi juntar as peças para assim entender esse sentimento que renasce agora quando passou tanto tempo.
          Tiro minha agenda da bolsa. Iria por minhas emoções no papel. Recordava-me perfeitamente o livro que Carlos havia me dado, ao despedir-se. Com a dedicatória. “Que este livro te acompanhe em sua jornada e que encontre o fascínio que uma palavra produz. Irá gostar de algumas palavras de outras não. Algumas terão certo desenho, certa cor, certo sabor.  Com o tempo as palavras irão se formar no ar. Palavras mágicas. E você irá se identificar profundamente com elas. Felicidades nessa procura”.  
           Comecei a ficar ansiosa torturada pelo arrependimento.
          - E agora? – Um desejo atravessou meu pensamento. Precisava reaver aquele livro.
          Na minha frente uma mulher de cerca de 30 anos, semi-adormecida, com lindas mãos e os cabelos castanhos escuros caindo sobre o rosto clareado pela luz macia do sol vermelho dourado, lia o livro O diabo na cabeça de Henri Lévy. Apoderou-se de mim um desejo de adivinhar que ser, que inteligência, que caráter, escondia-se atrás daquele rosto. Precisava saber.
          - A gente dá aquilo que ganha? – Pergunto a mim mesma reconhecendo o meu ato repreensível.
          - Carlos! – Chamei-o sem pronunciar palavra.
           Como soava bem a sua voz! Voz bondosa; voz paternal boa e carinhosa como meu próprio pai.
        
           - Agora, ouve... Preciso dizer que dei o livro... Ficou comigo durante dezenove anos. Faz um ano que não estou mais com ele. Estava sem a capa e suas folhas amareladas estavam rasgadas e gastas...  Esta perto...  Tive um plano, uma ideia. Irei lá e direi: Sabe aquele livro que te dei? Preciso dele. Tem algo perdido dentro dele e eu não sei o quê. Sei que tem porque desde ontem isso não sai do meu pensamento. Fiz mentalmente uma lista de palavras para tentar descobrir onde definho... Coragem... fé... bondade... egoísmo... ganância... malícia... orgulho... mentira... amor... autodomínio...  discrição...  brandura...  alegria...  verdade...
          Uma luz súbita nascia. Irresistivelmente. Aproximei-me da porta enquanto dizia: “Estou indo! Estou indo!”.
MLailin
Para: Carlão    


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