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segunda-feira, 11 de abril de 2011

ENTROPIA




"Como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes... Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saia o arco-íris. Um arco-íris que cubra a terra de um extremo ao outro...” – Murilo Rubião.
Acordei várias vezes durante a noite sentindo um frio gelado que entrava pela janela, mas se a janela estava fechada de onde vinha esse frio? Não iria levantar pra ver. Poderia pegar outro cobertor, mas isso significaria levantar da cama? Não! Era só levantar o corpo, o cobertor estava no final da cama. Esse simples processo poderia acordar meu cérebro e eu estava no meio de um sonho. Ele poderia se perder não que fosse bom, não existem mais sonhos bons, se é que algum dia eu tive algum. Eram todos repetitivos, todos conhecidos. Estava cansada deles. Estava cansada de passar pelo ritual, o ritual do começo do sono. Um processo tão trabalhoso que a simples ideia de interrompê-lo me deixa aflita, porque é melhor dormir do que acordar. Fechei os olhos novamente e com o corpo gelado voltei para onde estava.
Não que tenha acordado mal humorada acordei foi chateada. Chateada com a repetição minha de cada dia. Já está tudo programado. Não haverá novidades nenhuma nesse dia, será tudo igual ao dia que passou e eu cheguei à conclusão de que não levantei em dia nenhum estou contando tudo isso em sonho. Um sonho repetitivo. Se é um sonho por que as pessoas a minha volta me chamam? Elas me chamam porque precisam encher a paciência de alguém. Por causa disso perdi minha memória e hoje é um tormento saber onde estão minhas chaves, se a porta está fechada e o ferro está desligado. E só lembro isso quando estou lá na casa do chapéu. Foi pra isso que nasci: pra ser posta a prova. Faça isso, faça aquilo. Se fazer isso ou aquilo fosse bom não haveria problemas, mas não, tudo cede a desordem total. Ao abandono a desintegração. Finjo que acredito na lei e na ordem e naqueles que dizem que são bons honestos e que logo mais serão arrebatados para o céu. Me engana que eu gosto. Foi preciso que eu aprendesse a misturar a indiferença com a compreensão. Acima de tudo, foi preciso nunca perder o sangue-frio. Agora quero ficar na cama. Já que é um sonho que eu fique aqui deitada. Por tempo indeterminado. Até saber em definitivo que essa vida é um sonho. E eu não quero sair dele.  Não quero mais pagar as contas. Nem tirar o pó dos móveis, muito menos varrer a casa. Tampouco estou me importando se Joana não quer mais andar e sua perna esta ficando atrofiada. E isso que ela quer. Conscientemente é isso. Depois de tentar me tirar do sério, ela diz que eu sou calma demais. Não sei de onde vem a minha calma quando a minha  vontade e lhe dar uns chacoalhões. Assim como Annie Sullivam deu em Hellen Keller. Decidi, não vou mais dizer a ela sobre sua linda casa e o lindo jardim que tem nos fundos da rua. Tampouco vou falar como faz bem para um corpo doente deitar na grama e olhar as nuvens e imaginar em qual figura cada uma se transforma. Ela acha tudo isso uma bobagem.  Ela não quer saber de nada, exceto do seu terço e suas rezas. Espera um milagre. Diz que tem fé. Se fé resolvesse não existiria mais aleijados nesse mundo.  Eu digo que a fé precisa de obras senão é morta. Ela diz que eu com o meu pessimismo não ajudo em nada. Desde o AVC, em agosto do ano passado ela se tornou amarga e triste. Tentei ensiná-la a viver em sonhos, ela se recusou. Preferiu viver a realidade imposta a ela a vida toda. Insistiu para que a TV ficasse meio metro longe de sua cama e o controle debaixo do travesseiro, juntamente com o relógio de pulso e o despertador. Continuou olhando a hora a noite toda e despertando as cinco com a sensação de que estava atrasada. Continuou tomando rapidamente o seu banho, fazendo isso em eternos resmungos e indignações e não deixou de ter pressa, muita pressa, como se ainda precisasse pegar o trem e bater o cartão de ponto.   Vou cobrir a cabeça e não vou mais pensar em nada. Não quero mais saber dessa história.  Minha mente vai ficar em branco. Pronto.
 Quero que um infeliz me dê um motivo. Um só para levantar essa manhã? Uma falta de sentido. Tudo tão ridiculamente maluco. Se minha mãe estivesse aqui ela falaria uma coisa engraçada que me faria levantar. Se meu pai estivesse aqui ele pegaria a cinta e eu levantaria rapidinho. E meus irmãos... Esses seriam os mais cruéis. Eles gritariam dizendo que eu sou uma preguiçosa que só quero ficar na cama e que se quiser vencer na vida deveria vender a alma ao diabo, como eles fizeram. E como castigo eu irei viver o resto de minha vida no quartinho dos fundos, aquele destinado as tralhas. Não me dariam chance. Sou órfã. Órfã de pai, de mãe e de irmãos vivos. Sorte deles que estão mortos e não sofrem mais os dissabores da realidade. Azar o meu. Olho para os livros na estante. Livros que sempre me deram força. Fico procurando alguma coisa neles e não encontro nada. No banheiro, que é outra biblioteca da casa, encontrei o livro: 100 impulsos positivos. Abri na sorte como fazem as pessoas com suas Bíblias e surgiu a página 87 que dizia: Animemos alguém hoje! Pensei: Animar! Quem? Quem quer ser animado? E para quê? Comecei a ler, mas até as palavras positivas de Goethe me soaram banais. Quando fechei o livro estava com vontade de vomitar. Acho que tudo começou depois daquilo. Não vou falar sobre aquilo, eu me recuso a falar sobre aquilo. E depois, todo mundo sabe, já falei pros quatro cantos da terra que minha vida mudou de remediada para pior desde o massacre de Beslan. Tamanha covardia, eu ainda não tinha visto. Tá certo que existiam milhares de outras, mas com crianças, foi minha primeira grande desgraça. Agora eu estou fora disso eu não preciso de mais nenhum outro metal atordoante em minha cabeça ou em meu corpo. Assim como os judeus que desde o holocausto não precisam mais de nenhum tipo de terror eu também não. Não tenho mais cabeça. Essa que vocês olham aqui em cima do meu pescoço não é minha, é uma emprestada para representar. Posso tira-la a qualquer momento, como fazia com minhas bonecas. E essa mulher que eu quase esqueci seu nome verdadeiro, eu detesto, principalmente porque ela foi fabricada tem os cabelos gordurosos que prende em um coque ridículo no alto da cabeça. Ela nada representa em minha vida. A identidade que ela carrega é uma sinistra invenção... Mas, prossigamos! O que incomoda nesse sonho e que muitas vezes tenho que sair dele e agora quando preciso mudar o fundo musical não encontro um diferente porque não consigo ter acesso a Israel pra que ele me diga o nome daquele cara, aquele que estava em sua página e tem o estilo de Phillip Glass e só ele sabe. E não adianta perguntar pra ninguém porque ninguém soube me responder o que significa essa desordem do universo observável e muito menos o que significa a nossa vida aqui na terra. Porque não vivem em sonho. Aliás, todos os meus amigos, quando eu encontro um, perguntam: Onde você estava? Eu e que deveria perguntar isso a eles. Lembro que anotei o nome do compositor em um papel. Aqui em casa papel é uma papelada. Gostaria muito de um dia fazer uma limpeza e jogar o que realmente precisa ser jogado. Fico sempre achando que vou precisar deles e vou socando, socando em algum lugar e quando preciso quem disse que eu acho? Por que eu não peguei o e-mail de meio mundo só pra dizer que eu estou num sonho morrendo de saudades de alguma coisa que eu não sei bem o que é. O que eu posso fazer é sonhar com eles e dizer isso a eles em sonho. Isso seria possível se eu acreditasse neles. Quem?
Agora, que eu estou sonhando isso é verdade. Não é possível viver essa vida que não seja em sonho. Quem vive uma realidade que levante a mão? Não falei? Aprendi como viver esse sonho. É só ficar quietinha e fingir que não é com você. Depois de tanto dizer a mim mesma: “Isso é verdade”. Acabou por ser verdade. Isso é um sonho e daqui a pouco não irei acordar. Minha mente já sabe disso e quando eu começo a ficar aflita porque não encontro meus óculos, mesmo tendo milhares esparramados pela casa e quando o encontro, ele esta embaçado e sujo, e eu preciso dele urgentemente porque tenho algo para escrever ou algo para ler e ai eu preciso encontrar um pano macio para limpa-los e por mais que olhe no meio dos panos não encontro e meu sangue começa a correr muito rápido e muito quente e meu cérebro começa a pesar e antes que as faíscas dos olhos comecem a sair ouço uma voz interior dizendo: “Isso é um sonho sua boba, você esta sonhando, olha o pano aqui e os óculos ali, você estava sonhando, como sempre”. Que alívio sinto então. Ou quando andando na rua encontro um Nóia, passando por mim, feio como o diabo, tenho a sensação de que ele me viu, e descobriu que não estou em sonho e irá sacar a arma que  carrega na cintura e furar meu coração. Tenho somente um segundo, um milésimo de segundo. Escuto a voz dentro de mim dizendo: “Bobagem isso é um sonho”. E ele passa por mim, e eu passo por ele tão leve, assim como o vento balançando os meus cabelos e refrescando o meu rosto.
O mais difícil depois de aprender a viver em sonho e tentar dizer a si mesmo e aos outros: “Eu estou sonhando”.  Ou então cansada de ouvi-los buzinando em meus ouvidos: “Você precisa acordar, se divertir, arrumar um namorado, ou o que é pior, casar. Ir ao shopping, você precisa comprar roupas. Está se vestindo como uma velha. Olha só pra sua cara de acabada!”. Eu ainda tentava. Juro que eu tentava tá certo que na maioria das vezes era de mau humor, e na marra e pior; representando que compartilhava uma realidade que já não ara mais minha. Aliás, nunca foi. Forçaram-me. Foi sempre tudo muito forçado. Mas como dizer isso? Eles diriam: Você é louca? Ou: Ninguém nunca reclamou. Uma violência. Foi como alguém violentando outro alguém anos seguidos e por trás.  Devo agradecer por isso? Obrigado por terem me colocado numa camisa de força, e terem segurado meu rosto e terem forçado meus olhos e segurado meu corpo enquanto eu me debatia em gritos e batiam em meu corpo e tiravam a minha alegria o meu ânimo a minha paz e gritavam cuspindo em meu rosto numa língua que eu recusava a entender: “Você vai aprender, você não vai fugir. Você vai cumprir as exigências oficiais e não oficiais. Você vencerá graças a sua índole serviçal”. Enquanto outros como uma música de fundo, lembrando crianças em uma escola cantavam: “Não brinca com ela não coisinha! Não brinca com ela não coisinha!”. Segurando em meus braços começaram a me rodar de um lado para o outro e a terra começou a sair dos meus pés. Seguiram-se anos terríveis. Acordei com Elie Wiesel passando a mão em meu rosto e na outra um copo d’agua. Pensei que estivesse delirando. Ouvi-a o dizer: “Eles te bateram e deixaram uma chaga a mais no seu coração, um ódio a mais, uma razão a menos para viver. Agora procure adormecer”.  Minha respiração estava pesada. Mantive as pálpebras fechadas. Mas eu tinha certeza de que estava enxergando tudo. De que agora estava enxergando tudo. “Ainda há chances de escapar. Faça o que estou lhe pedindo, a ordem agora é sair lentamente, não deixe que te vejam, seja invisível, só assim irá encontrar o caminho de volta...”. As palavras saiam do fundo da terra. “Ouça-me, siga o meu conselho”. Deixei-me levar pelas suas palavras. Era um dia lindo de primavera. Perfumes de flores flutuavam no ar. “E quem é essa mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de me perguntar?... Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome. E talvez eu seja senão um sonho desse. Alguém que não existe...”. (Floresta do alheamento – Fernando Pessoa)
 mlailin
  



  

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