Sobre poesia
Uma borboleta fica sempre bem, num poema,
uma manada de nuvens desbocadas também, ou um laço azul.
Mas há outras coisas que não,
definitivamente não, não vão lá muito bem com o poema.
Como estrumeira, esgoto, ou charco.
Mesmo a palavra ‘rei’ já incomoda
(‘rainha’, então, nem se fala),
os reis antigamente eram simpáticos,
hoje nem por isso.
Quem como eu anda zapeando nas redes sociais a procura de algo interessante para ler, para aprender? Me pergunto por qual razão eu vivo fazendo isso, será que existe alguma coisa a mais para aprender, para ver, para sentir? Tenho procurado nos livros, tenho ido aos museus a exposição de artes e sempre a mesma coisa, quando não uma cópia de outro, é um modernista que pendura uma banana na parede ou algo parecido. A era da mediocridade é essa? Eu pensava que já tínhamos passado por ela no século XX, mas creio que foi impressão minha. Acredito que todos estão indo dormir com dor de cabeça, com tanta informação e nenhuma solução. Estou agora assim como os psicanalistas e psiquiatras procurando uma alquimia para o desaguamento das aflições, da energia pesada que paira em nossas cabeças quer você queira quer não.
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Porém, se fossemos capazes
de tropeçar numa estrumeira com uma borboleta;
ou tivéssemos de descer ao escuro dos esgotos
para contemplar um cacho de nuvens;
ou encontrássemos um laço azul
enlameado num charco de sangue,
aí sim destilaríamos algo de poesia.
Exatamente, é na poesia que encontro a resposta. Se fossemos capazes de tropeçar em uma estrumeira ou em uma borboleta, ai sim destilaríamos algo de poesia. Estrumeira, local onde se deposita estrume para fertilização do solos. Quem nunca atolou os pés em uma grande quantidade de estrumes? Simbolicamente e literalmente estamos atolados em uma quantidade imensa de estrumes, atolados e sufocados até as vísceras. Procuro nas ruas, nas fotos, no tempo registrado na memória uma alquimia, uma borboleta. Uma borboleta. Sim é isso. Uma somente.
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Mas com um rei, nada de nada,
com um rei não me ocorre nada
nesta tarde de primavera
para compor um poema.
Os reis estão de capa caída,
desfeiam tudo o que tocam,
mesmo as estrumeiras,
mesmo os esgotos.
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O que será que o poeta desejou dizer quando escreveu: desfeiam? Enfeia? Estão de capa caída e enfeiam tudo que toca, ao contrario do rei da Frigia, o rei Midas que tudo que tocava virava ouro, ou seria uma semelhança? Pois o tocar para Midas foi sua derrota. Assim como aqueles que perpetuam o poder de ter, de possuir de governar, acabam encontrando a sua própria derrota e levando outros, os inocentes, nessa maldição inglória. Reis onde vocês estão? Rei Agripa foste tu o responsável pela morte e encarceramento das borboletas? Então, Agripa se dirigiu a Paulo e disse: Por pouco me persuades a me fazer cristão. Seria este o mesmo Agripa que matou Tiago? Uma genealogia de nomes iguais registrados na sanguinária historia humana.
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