domingo, 28 de maio de 2017

Alfa Pendular

                


                              Agora, a visão à beira do Douro já está....
concluída, e os turistas estão
passeando com os cabelos ao vento seguram na grade.
São barras de ferro baixas capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.


O comboio que liga Hospital São João a Santo Ovídio, é uma obra-prima.
assim penso e não tem mortal que tire isso de minha mente
Não vejo crianças à andar ou à procura de
um lugar para brincar pela Luis I piso superior


Entre as barras e sobre o rio
nada passará, exceto a Morte, a Chuva o Vento, Lai e o Dia de
Amanhã.
lai e Tú                                          




                                               Qual é o teu cheiro?
Enquanto caminho lembro do jovem português com cidadania americana... Steve é o seu nome. Estava eu sentada na grama do congestionado Porto... Sem sapatos... Ele se aproximou tirou os seus sapatos e sentou do lado. Adorei isso. São raríssimos esses seres que estão escondidos em casulos ou trincheiras, pois acabam sendo marginalizados. Falou um pouco de si, de onde veio e onde mora hoje: Viana do Castelo. Falamos sobre o mundo trágico em que vivemos e depois ele seguiu em direção ao metro, antes deixou comigo umas folhas de alfazema. Perguntei onde ele tinha encontrado essa preciosidade. Ele disse e eu mantenho o segredo


Tantas coisas passaram em minha mente... A casa quadrada modelo moderno em construção se tornando uma aberração no meio do verde que logo se tornara uma raridade. Um pé de hortelã na estrada. E a profecia da minha mãe se cumprindo: “Quando você arranca uma flor arranca o pé”. Uma rua sem saída e um senhor avisa que se eu seguir morro acima por uma trilha encontrarei uma vila, mas isso levaria uns três quilômetros. O que são três quilômetros? Sempre tive dificuldade em entender distâncias...
Ver é reparar não é a mesma coisa. Ver e reparar exige meditação.
Medita Lai...


Em que ano foi abolida a escravidão em Portugal?
Fui lentamente caminhando sem entender a estrada de concreto e a falta da terra para acalentar meus pés. No Ponto de autocarros uma propaganda: “Aberta às inscrições para utentes. (As empresas da cura) São eles: médicos, enfermagem, fisioterapia, psicologia, nutrição, banho vichy, massagem, jardim sensorial, animação, bio ginásio...”
Li a relação, entendi e pedi: “Me livre de todas elas”


Agora na manhã ensolarada no jardim dando várias voltas pela grama molhada lembrava-me deles, os engomados versados em anos de entendimentos da natureza humana dentro de uma faculdade agora formados a sorrirem com uma pele tão translucida misturado ao branco da roupa não fosse os cifrões nauseantes dos olhos acreditaria nos padecimentos ali expostos e criados de acordo com aquilo que o utente criou para si mesmo, somos maus o suficiente.
Será que conseguimos ver as cores por acaso? E entender o nosso corpo?
As abelhas precisam do pólen e as flores precisam das abelhas... Na casa ao lado uma criança canta... ia ia o...   

Lai                                         




                                                          O tempo e a terra
Todos os seres inteligente sabem da importância da natureza em suas vidas. Ia além. Se entrega a ela de corpo e alma. O que é o corpo se não a alma? O que é a alma se não o corpo? O que é a vida se não os elementos químicos encontrados na natureza? Senão é tudo junto ou separado?
As vezes o que fazia despertava nas pessoas um olhar inquisidor e sarcástico
- Lá vai uma tolinha descalça pela estrada – pensavam
- Lá vai um tolinho calçado pela estrada – pensava



Qual é mesmo o elemento que compõe as pedras? Não sabia
Precisava ir até o google, pai dos burros para descobrir....
Agora não é hora para ouvir Satie e Gnossienne numero 1 ou ler ali ao pé do computador que Marise Corrêia Menezes Corrêia enviou um anexo. Toda vez que faz isso sua mente foge e esquece...
Esquecer é preciso....



Encontrou um senhor antes do seu caminho se encontrar em uma bifurcação e perguntou a ele quantos anos tinha? O que fazia e se queria caminhar? Estava com um balde na mão tinha mais de noventa anos e sorriu quando perguntou se queria caminhar...
“Deixa-me trocar de lugar contigo”. Venha por alguns instantes até esse rápido movimento no tabuleiro de damas.
Respondeu ele com um sorriso suprimido, um sorriso indicado pelos lábios: “Siga em frente até uma bifurcação, depois vire a direita”.
Porque ele dizia tudo isso se tudo já estava predestinado, marcado?


Na bifurcação o concreto acabou e encontrou a estrada de terra... Louvada seja a natureza... O elemento químico penetrando em seus pés como reflexologia, não cobravam nada, pelo contrário era tão reconfortante que de minutos a minutos era preciso acorda-la para lembrar que estava em uma estrada sem mapas e não podia deixar aflorar essa parte do corpo que não tem consciência.


A claridade já havia amanhecido totalmente e era estreita e linda.
Lai



                                                Tão longe, tão perto...

Ontem encontrei uma senhora em um café na cidade de Braga. Brasileira do Rio de Janeiro. Logo mais estaria pegando o comboio para Famalicão ia visitar a filha. Olhei para seu rosto marcado e depois para seu corpo e perguntei:
“Há quantos anos esta morando neste país”
- Há trinta anos – disse-me ela 
Trinta anos... Pensei atônita
Levei um choque ao retornar lentamente no tempo de trinta anos...


Novamente olhei para seu rosto, suas mãos enquanto pegava a xícara de café e com a outra mão procurava um lanche, pão com queijo, na carteira (bolsa) que trazia no braço... Devo dizer que fiquei chocada. Trinta anos de angústia... É claro que não iria perguntar a ela como se sente hoje como se sentiu dia a dia, ano após ano. Claro que não. Pois já sabia o que iria dizer, iria mentir e dizer o quanto foi feliz e hoje vitoriosa... Sentia a verdade em seus olhos escuros e em seu sorriso triste. Do seu coração ainda se podia ouvir gritos de socorro durante aqueles trinta anos....


Esse fato me levou a outro... Ano passado em frente à igreja de Cedofeita encontrei aqueles dois portugueses que tomavam um lanche e bebiam um vinho em um muro espécie de banco... Ao me verem ali do lado perguntaram se eu estava servida. É claro que sim. Providenciaram um copo e me ofereceram. O mais falante perguntou se eu era brasileira. Disse que sim. Respondeu que seu avô há muitos anos foi para o Brasil, deixando a família, avó, netos, filhos e tudo o mais. Um belo dia com uma desculpa qualquer se foi. Falou sobre o fato com grande mágoa com um olhar que não me desfitava e com cólera. Quando terminou perguntei a ele se alguma vez ele voltou ou se alguém foi visita-lo. Ele disse que não... Que nunca mais voltou... Abandonou tudo. No Brasil viveu, no Brasil morreu... 


A angústia e a saudade daquele senhor que se foi e nunca mais voltou se abateu sobre mim, disfarcei olhando a igreja, o chão, o vento balançando as folhas das árvores ele me olhava com o olhar parado esperando uma resposta e tive vontade de dizer ao homem ali parado na minha frente que seu avô se tornou um morto-vivo. Dizer algo seria pedir demais a minha coragem, só porque eu era corajosa. Olhando-o, desanimei: Faltava-me a coragem de desiludi-lo. O que ele queria? Que seu avô voltasse e de joelhos pedisse perdão? Ou que a tortura eterna fosse a sua punição? Furtivamente olhei-o de lado e recuei deixando que o vinho fizesse a sua parte. Era cedo demais para eu ver tanto.
Lai





                                                       Meus tipos inesquecíveis

Estava pensando nisso sr. facebook...
Aliás vivo pensando neles. Naquela gente do bem que nasceram para deixar um exemplo a ser seguido.


No começo tinha por alvo gente famosa, tipo: Gandhi, Jesus, Maria Curie.... Depois fui conhecendo na minha vida, face a face... louvado sejam eles. Infelizmente dá pra contar nos dedos. Gente como o Professor Miguel Costa Júnior dono de uma sabedoria rara, que serviu a ele para deixar latente sua bondade. Em outros a arrogância. Era uma pedra preciosa. Quando ligava para ele, o que fazia todas as manhãs, perguntava como estava e ele dizia: "maravilhosamente bem" Não entendia como um senhor de 90 anos num sociedade podre dizia isso. Quando ele morreu em 2000, aquela biblioteca alexandrina deixou uma lacuna muito grande em minha vida que nunca mais foi preenchida e hoje quando amanhece sou eu quem diz para mim mesma "Estou maravilhosamente bem"
Uns quinze anos depois conheci Luciana Maria Fracalanza Pimentel pessoa que trata todos por igual, desde o empregado ao Dr. Honoris causa. E quando seu pai atingiu uma idade em que a maioria é abandonado a míngua ela cuidou com muito afeto, muito mesmo e seu Fracalanza ultrapassou os 100 anos rodeado de carinho e bondade.


São meus tipos inesquecíveis. Quando me sinto amargurada lembro do sorriso escancarado do professor Miguel. Ou do telefonema e da presença da filha todos os dias perguntando: "Pai você está bem?".
E assim sigo perguntando em empatia de maneira prática.
Lai



Alfa Pendular






Vou de Alfa Pendular, num dos melhores comboios do país.
Sigo através da planície vasta e aberta, sob um céu azul, e um ar escuro da noite que cai
Correm seis carruagens  com mais de 500 pessoas entre aqueles que irão descer nas cidades que antecedem Lisboa e os que ficarão pelo caminho como Coimbra por exemplo.
É em um dia nublado  cinzento e triste
Logo mais estarei no voo 4440 assento 13D, embarque 00:20
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferro velho;
Homens, mulheres e crianças  falam, conversam entre si...
outros solitários olham pela janela
no vagão a frente um homem de fato preto  o 'Pica',   nome que davam no passado  ao revisor, que entrava pelo autocarro adentro com uma máquina estilo grampeador e perfurava o bilhete, caminha com sua maquininha que em inglês recebe o nome de terminais PDQ 
Ao meu amigo do lado pergunto qual o seu destino
- Brasil - responde

Lai