terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O crepúsculo da noite - Charles Baudelaire




O Crepúsculo da Noite
XXII


O CREPÚSCULO DA NOITE


O dia acaba. Uma grande paz surge nos pobres espíritos fatigados
pelo trabalho da jornada e seus pensamentos 
tomam agora as cores ternas e indecisas do crepúsculo.



Entretanto, do alto da montanha chega à minha sacada, através das nuvens transparentes da tarde, um grande uivo, composto por uma multidão de gritos discordantes que o espaço transforma em lúgubre harmonia, como a da maré que sobe ou a ameaça de uma tempestade.


Quem são os desditosos que a tarde no acalma e que tomam, como as corujas,
 a chegada da noite como um sinal do sabá? 
Esta sinistra ululação nos chega do negro hospício empoleirado sobre a montanha; 
e à tarde, fumando e contemplando o repouso do imenso vale, 
arrepiado de casas onde cada janela diz: 
“A paz agora está aqui, está aqui a alegria da família”, eu posso, 
quando o vento sopra do alto, embalar meus pensamentos
assombrados por essa imitação das harmonias do inferno





O crepúsculo excita os loucos. 
Lembro-me que tinha dois amigos que o crepúsculo tornava doentes. 
Um passou a desconhecer todas as relações de amizade e de polidez, 
e maltratava, como um selvagem, o primeiro que aparecesse. 
‘Vi-o jogar na cabeça de um mattre de hotel um excelente frango, 
em que ele via não sei qual hieróglifo insultante. 
A noite, precursora de profundas volúpias, para ele estragava as coisas mais suculentas!



O outro, um ambicioso frustrado, tornava-se, à medida que
o dia baixava, mais azedo, mais sombrio, mais impertinente. Indulgente e sociável durante o dia, ficava impiedoso à noite, e exercia, raivosamente, suas manias crepusculares não somente em relação aos outros, mas, também, consigo próprio.
O primeiro morreu louco, incapaz de reconhecer sua mulher e o filho; 
o segundo leva em si a inquietude de um mal-estar perpétuo, e mesmo se fosse gratificado com todas as honras que possam conferir as repúblicas e os príncipes, creio que o crepúsculo acenderia ainda nele o ardente desejo de receber distinções imaginárias. 


À noite, que introduzia trevas em seu espírito, iluminava o meu, e, ainda que seja raro ver-se a mesma causa engendrar dois efeitos contrários, deixa-me sempre como que intrigado e alarmado.



Ó noite! Ó refrescantes trevas! Vós sois para mimo 
sinal de uma festa interior, vós sois a redenção de uma angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos pedregosos de uma capital, a cintilação das estrelas, a explosão das lanternas, vós sois o fogo de artifício da deusa Liberdade!
Crepúsculo, como sois doce e terno! Os clarões róseos 
que se arrastam ainda no horizonte, como a agonia do dia sob a opressão vitoriosa da sua noite, os fogos dos candelabros que criam manchas de um vermelho opaco sobre as últimas glórias do poente, os pesados cortinados que uma mão invisível atrai das profundezas do Oriente, imitam todos os sentimentos complicados que lutam no coração do homem nas horas solenes de sua vida.


Dir-se-ia, ainda, uma dessas vestes estranhas de dançarinas, 
onde uma gaze transparente e sombria deixa entrever os esplendores
 amortecidos de uma saia deslumbrante, como sob o negro presente transparece o delicioso passado; e as estrelas vacilantes, de ouro e prata, dos quais é semeada, representam estes fogos da fantasia 
que só se iluminam bem sob o luto fechado da Noite



Mlailin via Charles Baudelaire





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