domingo, 27 de março de 2011

Através dos olhos dela

          Estava quase cochilando quando ouviu a voz do carteiro. Desceu as escadas e recebeu o envelope laranja. Assinou o papel e subiu as escadas enquanto olhava detalhadamente a encomenda endereçada a ela. Nena dormia um sono agitado. Passou a mão em sua testa e beijou o seu rosto e com o envelope ainda em suas mãos sentou próxima ao computador. Parou alguns minutos lendo o endereço do destinatário. Imaginou onde seria. Não teve coragem de abrir sozinha, precisava de alguém que segurasse suas mãos. Fechou os olhos. Folheou página por página era como se fitasse a sua alma largamente escancarada...  O sangue gelou nas veias enquanto caminhou em sua direção. Não era mais ela própria, essa sala, essa tela, esse cheiro. Não era mais ela própria recebendo uma visita desconhecida pelo qual sentia uma sutil e perturbadora e inebriante atração. Longos anos de paciente espera, guerras, desastres, abandono, evolução e mudanças, idade de trevas de lutas e preconceitos tudo trabalhara para o cumprimento deste momento único, deste perfeito florescimento de duas mentes que se encontravam.
          Se isso não fosse verdade ela não poderia estar segurando a encomenda como fazia, ela não poderia estar passando a mão pelo rosto e dizendo é o meu rosto, segurando a caneta como fazia, ou levantando levemente o cabelo como costumava fazer, ou segurando deliciosamente, o sorriso de uma deliciosa confissão que  sabia  estava a ponto de fazer...

mlailin

Um comentário:

GRUPO NARRADORES DE CORDEL disse...

Querida amiga, gostei muito da àgua que bebi aqui. Sempre que estiver com sede eu volto. Abraços "CORDELADOS".