Millôr Fernandes - Um ano sem ele

O cabelo esvoaçando à brisa fresca do Corcovado, o Cristo de pedra chorava. Um milagre? Uma andorinha, só, parou. -Eu estava por aí - disse ela pro Cristo -, mas, como uma andorinha só não faz verão, vou indo pro Norte. Alguma coisa que eu possa fazer pra interromper teu pranto? -Daqui do alto eu vejo tudo -disse o Cristo. -Já não há mais o meu Rio. O mar batendo quase aqui nos meus pés, as moças passando lá embaixo sem a bunda de fora, os pobres conhecendo o seu lugar -como era verde o meu vale. Mas eu ainda gostaria de fazer alguma coisa pra ajudar pelo menos um carioca. Está vendo lá embaixo aquele imbecilzinho? Coitado! Acabou a pilha do super-rádio dele e ele carrega aquilo preso na cabeça, sem poder chatear os outros com a sua cacofonia. Arranca um dos meus olhos, pintassilgo, e dá a ele, pra que ele troque por uma pilha nova. A andorinha não entendeu bem, s...