As mãos do meu pai - My father's hands

 'O que é o inferno?' Defino-o assim: "O sofrimento de  não se saber amar'."


Essa historia tem como base fatos reais



Eu já tinha esquecido como eram suas mãos, alias eu já tinha esquecido muita coisa. Este ano de 2026, fui obrigada a lembrar. Tudo começou quando a Tia1, voou em sua vassoura diretamente do seu palacete em Casteldelfels para armar barraco com sua sobrinha. Logo que a viu disse:  "Bem que o Dominado (seu marido) disse que você esta quadrada", se referindo ao seu corpo, pois embora sendo tia não se dava o devido respeito e mesmo  entrando na casa dos sessenta anos com filhas amadurecidas para lhe dar netos, agia como criança naquela manha, e em uma rua de subúrbio, cheia de maloqueiros como ela sempre disse, e assim  fazia um escândalo, para que além de tudo todos soubessem que ela estava ali, tinha voltado a que se acha vencida nessa vida. Tinha voltado. A rainha de Casteldelfs, a que  todos ali deveriam fazer um ato de reverencia afinal ela vinha das "Oropas" e eles, coitados, não. Ali mesmo na calçada, para todos ouvirem dissertava imundícies. O banho que ela teve em 30 anos de Europa realmente foi de lodo. Pois cultura era inexistente. A mesma pessoa que ao sair do Brasil declarou, em uma espécie de  máxima ou seria de profecia? Foi essa frase: "Tenho certeza que os demônios moram no Brasil". Para alguém que só teve cabeça para dissertar sobre picuinhas com sua sobrinha tipo: a vida da Xuxa, trocar receitas culinárias ou assuntos triviais, embora vez ou outra surgiam também assuntos humanos como a criação dos filhos, o marido italiano de Milão, "o dominado",  que fazia tudo o que ela queria, afinal era a gostosura brasileira. O tempo passou e envelheceu, o dominado fez cirurgia da próstata e se tornou incapaz de cumprir as obrigações maritais. E a Tia1 contava a sobrinha sobre o fogo que sentia para "dar". Embora as doenças oportunistas que a idade traz para uma mulher, deixava ela um tanto transtornada sem saber se era "dar" ou colocar seu bloco na rua. Ainda menina a mãe tinha feito um exame, um eletroencefalograma para saber se a Tia1 tinha herdado a loucura de um familiar do pai, pois ela desconfiava pois algo não batia bem naquela cabeça. Sim, durante quase trinta anos a Tia1 teve prazer em conversar com a sobrinha, e a sobrinha também. A mãe da sobrinha não tinha ciúmes, considerava ate algo de bom grato, (Deus sabe dos seus calafrios) pois se entendiam como família. Afinal a Tia1 era agradecida por ter tido a sobrinha presente nos últimos momentos de vida de sua mãe, era na casa grande da mae que a sobrinha ficava e a mae no quarto alguns degraus acima padecendo de um câncer de estomago devastador. 


 O que aconteceu com o tempo? Briga por causa de herança, tirar da sobrinha seu meio de sobrevivência, de MORADIA, tirar da que não tem nada, um pedaço de terra em que ela vive com seus três filhos e seu companheiro. Pedaço de terra que o pai das tias e avo, daria a sua neta, que também esteve presente nos seus últimos momentos de vida. Tanto faria que fez o que pode por sua filhas e amava seus netos, se alguém achava que era melhor que o outro isso estava na cabeça dos filhos que sempre um se achava mais merecedor que o outro no meio familiar. Exceto a quarta filha que hora escreve que sempre desejou ser ela mesma e nao aquilo que nao era. E assim as desavenças se fez e tudo se perdeu no final da existência dos filhos. Quando a união e o bom senso poderiam prevalecer. Afinal caminham para os anos septuagenários. O tempo voa.  Mas nao. Então eu me pergunto. Que fim levaram os que brigavam, os que criavam e criam desavenças por ninharias, sendo que não é preciso. Sendo assim pergunto:  Os que viveram no século XX e hoje estão Mortos. Os que viveram no século XIX e hoje estão mortos.  Para onde foram suas terras? A quem pertencem hoje? Para onde irão esses que ora  trazem consigo a dor de uma infância e adolescência com escolhas e caminhos tortuosos? Nao percebem que os que ficam ainda tem uma chance de caminhar para um entendimento, uma aliança de paz e conciliação? Transferem aos filhos que tiveram, o mesmo mal estar, a mesma tristeza, de nao entenderem, e se entendem para que isso? Afastaram os primos de uma existência pacifica. Pois acabam ficando do lado dos pais, embora nem queiram saber que diabo é aquilo. E logo mais serão eles a brigarem entre si quando os pais se forem, afinal o exemplo fica.

A Tia1 a muito tempo nao falava com a Tia2. Sempre que a sobrinha contava a ela algum acontecimento ou ela ficava sabendo por amigas que iam visita-la na Espanha em seu "palacete em Castelldefels". Então Tia1 dizia: "Nao quero saber". Depois que a Tia2 foi colocada de castigo no canil dos cachorros pelo italiano de Roma, a Tia1  dizia: "Que se dane". Outros momentos piores vieram.  Isso se deu por muitos anos. Gravida do segundo filho na cidade de Galileu Galilei, viu se obrigada a procurar pessoas religiosas de sua antiga fé, precisava de ajuda, chegou lá com o olho roxo, mas não disse o porque, inventou, havia batido a cabeça  na quina da mesa, atingindo o local. Quem naquele lugar distante iria querer saber mais detalhes? Meter a colher? E por que ela, a Tia1 não queria saber?  Por que a Tia1 era a metida a dar ordens a todos. Ou seja aos fracos. E também porque toda vez que ela um dava ordem para a Tia2, ela não obedecia. E a ordem era: "Larga desse homem!". Sua humildade era tocante. Ela nunca erra, Afinal ganhou na sorte grande, casou com um destinado ao domínio e sem doutorado. Nunca em 55 anos de existência Imaculados, não há registro de um único "me desculpe, eu errei". Há apenas milhares de registros de "você me fez fazer isso" ou "voce nao fez o que eu mandei". Ops, falei. É o milagre da infalibilidade sendo estendido. O Vaticano precisa ser avisado.

Mas como a Tia2 iria largar, jogar tudo para o alto? Tinha dois filhos ainda pequenos e além do mais nem havia conhecido todos os 193 países reconhecidos formalmente pela ONU. Afinal ela havia casado com alguém importante, que era mandado, por um ano ou dois para países do mundo todo a procura de gênios, pois gênios reconhecem gênios só de olhar, pelo cheiro. E depois com o tempo o marido conheceu a fama de ser um conceituado mestre, especialista na Geometria de Bernhard Riemann. Como uma mulher que se ancorou no evangelismo para guiar os seus passos e quem sabe do marido e usava a máxima: "A mulher sabia edifica a sua casa". Conversa evangélica para um romano? A capital da Itália é Roma, não é Brasília. A única coisa que a Tia2 podia fazer era malas e carregar malas, pois nenhuma bagagem intelectual tinha e com o tempo esta ficando provado que vai de mal a pior, basta olhar seu tik tok e ver suas postagens sobre a "perseguida". E assim como serva correu a maior parte de sua vida atrás do romano. Correu, porque acompanhar a mente do homem, nunca conseguiu, nem com reza brava. Como iria saber disso? Com 28, ou nos seus 29 anos, quando o conheceu, como alguém iria saber que a cabeça de um italiano não é a mesma de um brasileiro? Ainda mais um italiano romano e com doutorado. Nunca soube que era muita areia para quem nem caminhãozinho tinha. Nao era para quem chorou quando soube que a a sua amiga Erica foi para a Inglaterra e ela não. Nao era para quem chorou outros rios quando soube que a Tia1 foi para a Espanha, pois havia encontrado um italiano na concessionaria da Fiat onde trabalhava como vendedora, mas esse era de Milão e não de Roma, era um fácil de ser dominado. Interessante é que essa mesma historia de conhecer na concessionaria da Fiat foi a mesma contada pela Tia2 as amigas da época e familiares. E assim a Tia2 vivia ressentida. Sim, com o tempo os banhos de abô, os banhos da prosperidade começaram a  fazer efeitos e ela encontrou o seu ROMANO, o homem que ficaria caidinho com sua magia. E então fez a suas jogadas como toda brasileira, o charme brasileiro a beleza brasileira, a simpatia brasileira. Logo no inicio usou a cena de Harry e Sally, a cena do orgasmo fake no restaurante. E o romano como vivia nas geometrias sem fim não teve tempo de perceber a farsa, pois não tinha tempo para filmes com vãs finalidades. Olhava o além o que o olho humano não percebe, onde esta o que perdura para a eternidade. 

E foi assim que as beldades da Av. Cacilda pegaram seus passaportes para outros mundos. Afinal quem aguenta a Cacilda? E depois mais sabiamente a Tia2  fez o nó na corda,  afinal um italiano  não abandonaria um navio com inocentes, pois não era um brasileiro. E o que Tia2 fez? Usou a barriga. E assim se fez. Mas como é do saber de todos,  o Italiano de ROMA um dia de saco cheio de carregar a mediocridade deu um basta. Com os filhos crescidos e formados veio o divorcio. E a Tia2, chorosa, mas não por muito dias arrumou um novo relacionamento, desta vez com uma mulher, pois de homens (sim no plural, pois se refere a todos como lição para outras) segundo prega nas redes sociais esta saturada. E assim depois de se mudar para a casa de sua marida e nao se adaptar a dividir o mesmo espaço. Pensa: se uma mulher já é um porre imagine duas,  voltou para a Cacilda e a primeira coisa que fez foi colocar uma placa com os dizeres Travessia. Uma pergunta: Quando alguém sai de um lugar que era o terror de toda sua vida e volta e coloca uma placa Travessia, ela volta para o inferno novamente? Bom, um passarinho me disse que a marida quando soube onde ela estava ria rios de dentes dizendo que ela havia voltado para a favela. Nao sei. Sei que deve fazer trinta anos ou mais que não sei de nenhuma das duas. Sei que a Tia1, depois da tentativa de se congregar na mesma religião que a finada mãe se converteu as missionarias da caridade, congregação fundada por Santa Madre Teresa de Calcutá, embora na forma de irmã cajazeira. Quando estive em Portugal uma vez liguei para a Tia1. Estava perto, talvez "pudéssemos" nos ver. Nao que eu quisesse a esmola de conhecer o seu "Palacete de Castelldefels". Mas ainda tinha esperança de resolver questões. Afinal sempre acreditei que o tempo cura muitas coisas, para os sensatos sim! Quando sua filha mais velha atendeu muito simpática e sorridente, mandou que eu esperasse pois iria chama-la. Voltou e disse: "Minha mãe esta no banheiro". Quem iria incomodar alguém que esta batendo um barro? Ninguém. Mas vamos deixar as imundícies de lado e vamos ao que interessa. As mãos do meu pai.  

Nao eram palavras que curavam, e sim palavras que feriam, ditas e  ouvidas naquela manha com testemunhas em toda rua e com pessoas que passavam. O ponto alto da baixaria aconteceu quando a surgiu o assunto de que o pai de uma e avô de outra, há exatos 17 anos jazia enterrado no cemitério do Ariston,  foi um praticante de zoofilia e abuso de menores. Foi com esses dois temas que todo um passado veio a tona. E assim entre uma baixaria e outro foi mostrado o que tinha dentro de coração, uma vida mal resolvida, cheia de ressentimento, mostrando que ate as migalhas de um subúrbio, transformou-se em motivos de discórdia mostrando que as vidas dos tres continuavam como sempre foram: Mal resolvidas emocionalmente, sempre procurando um outro para acusar, e nenhum dedo para acusar a si mesmo, por que o conhecimento de si próprio a verdade de si mesmo dói, incomoda, a viagem para o interior não é para todos é  para os fortes. E assim ressuscitaram dentro de mim as mãos do meu pai. As mesmas que eu vi nos dias em que trabalhei com ele em uma banca concertando panelas. Naqueles anos antes de sua morte eu já o tinha perdoado.


As mãos do meu pai seria as mesmas que as minhas? Olho para elas e encontro alguma semelhança. Seriam elas todinhas com essas curvas que mais parece mãos de homens? As da minha mae eram diferentes. Mais delicadas.  Diferentes da minha. Sendo assim devem ser iguais as do meu pai. Seriam elas também pesadas? 

No momento em que vivemos pensamos que ate os nossos pensamentos ficarão gravado, acontecimentos minuto a minuto de nossas vidas. Mentira. Mal sabemos de um dia todo, que dirá de um mês após, que dirá toda uma vida.

Lembro da menina nos seus quatro para cinco anos, sentada em um avião, partindo de Fortaleza/CE, com destino a São Paulo. Sentada ao lado do seu irmão olhando as nuvens e depois pessoas pequeninas que  chamava de homenzinhos. Lembra do vestido que usava, parecia um vestido de festa, lembro  pouco da vida no Ceara, mas lembro. Lembro da casa onde vivia, dos dias chuvosos, dos pés de cajus, misturados a outras plantas. De uma casa grande de tijolos a mostra. Procurei uma foto no google, mas nao encontrei nenhuma que chegasse perto das minhas lembranças. São somente dois ou tres momentos registrados na memoria de toda uma vida.  E tem gente que diz que criança nao lembra. As crianças lembram, mas ficam para elas. São como os elefantes, lembram e nao esquecem. Conforme vamos crescendo as lembranças vão aumentando, conseguimos lembrar de um pouco mais, mas nao muito. 

Lembro da minha mae no aeroporto ela e um homem seu marido, sim ela estava casada, mas a criança nao sabia disso, só vim a saber disso depois da morte da minha mae quando tive acesso a seu registro de casamento depois de sua morte. Minha mae nunca tocou nesse assunto. E eu como criança nunca perguntei quem era aquele senhor que me tratava tão bem. Sandor era seu nome. Um húngaro. Andávamos nos tres pelas ruas. Lembro que um dia ele me carregou em seu pescoço. Lembro que comprava para mim chocolate branco o lacta. lembro da marca porque ficou gravado em minha mente aquele papel branco plastificado que cobria o chocolate. Também lembro onde morávamos. Em Domingos de Moraes, ali mesmo próximo ao local onde mais tarde vim a morar toda uma vida. Foram momentos tranquilos, de paz, sem tumulto, sem palavras impronunciáveis, sem tempestades. Depois como em um sonho em que nao lembramos como viemos parar nele sendo que estávamos em outro. Me vi de repente na cidade de Alumínio, sem nem saber depois que cresci como se deu a mudança. Sei que me encontrei naquela cidade  charmosa, e minha mae trabalhava no hospital. A cidade foi construída pelo Sr. Antônio Ermírio de Moraes. Sinto saudades assim como sinto do Porto. Devia reconhecer a cor dos dias, o vento fresco, a terra molhada.. Mas lembro sim, quando volto a mente quando fecho os olhos, vejo o jardim da frente da casa, com suas plantas, suas rosas fora e dentro da casa, ainda consigo medir o tamanho da sala, o sofá o quadro de crianças pregado na parede, aquele quadro  antigo onde eram fotografados com a mão no rosto.

Era a casa da senhora Lurdes que tinha duas filhas de nome Josy e Hilda. Posso ter me enganado com o nome da mae mas das filhas nao. Josy era a mais jovem. Tinha o pai e mais alguém que nao sei quem. A casa tinha tres quartos, sala, cozinha e banheiro. A mae era benzedeira. Benzia crianças para combater quebrantos ou mal olhado. Na sua cozinha tinha um fogão a lenha. Fogão em que todas as manhas Josy a filha caçula ao levantar subia no cimento vermelho do fogão e ali sentava para se aquecer. Tinha tanta vontade de fazer o mesmo. Mas pelo pouco que lembro isso nao era permitido. Dona Lurdes quando recebia uma mae com seu filho pegava um copo com agua e uma colher ia ate o fogão, tirava uma brasa, deixava cair dentro do copo, sentava perto da criança no colo da mae, fazia o sinal da cruz na testa da criança, depois uma oração que eu conseguia ouvir enquanto movia os lábios, depois com a colher pegava um pouco da agua do copo com a colher e dava para a criança beber.  Devia dar resultados pois as mães sempre retornavam. Meu café da manha era sempre um pão francês com mortadela e café preto, o almoço também devia ser algo tão simples quanto o lanche da manha. Lembro que tinha fome, mas a fome eu conseguia esquecer com a vida produtiva que criava para mim. Ia observar as plantas no jardim, ou então ia andar pelas quadras daquelas belas ruas, conhecia todas as casas, nao lembro de ter comigo uma companhia, exceto Josy a filha mais nova, brincávamos de casinha. Nossos brinquedos eram latas de conservas vazias, limpas e trabalhadas para nao terem cortes que nos ferissem. Tínhamos tudo que precisássemos de brinquedos elaborados para crianças daquela época. Josy tinha uma boneca de porcelana que dificilmente tocava, ficava na cristaleira tinha medo de quebrar. Quando ela pegava eu pedia para colocar em meu colo, queria tocar, ela mandava eu sentar e deixava por alguns minutos que tocasse, e eu tocava. Depois ela tirava de mim e colocava de volta na cristaleira e fechava com uma chave. Eu desejava ter uma,  desejava ter assim como alguém deseja ter o vento. Nao posso esquecer da escola. Meu primeiro ano e o fascínio que sentia quando era colocado figuras em cartolinas pregadas na lousa e embaixo as vogais. Foi ali que começou a minha paixão pelas palavras. 


Essas lembranças seriam melhor lembradas pelo Tio1, ele era escoteiro. Os escoteiros e os acampamentos que fazíamos com o grupo. Ia eu e minha mae juntos. Nao vou prolongar a historia nao hoje, ainda mais por que Alumínio e Domingos de Moraes foram os melhores momentos de minha vida. E historia feliz nao cabe aqui, nao nesse meio tempo, aqui agora só cabem John Steinbeck e Fiodor Dostoievski.



Então, um belo dia ele apareceu. Meu pai. Já estávamos em outra casa que minha mae havia alugado ou alugaram para ela. Nao mais morávamos na vila construída por Antônio Ermírio. Íamos para mais além, próximo a rodovia com destino a Sorocaba. As lembranças trazem o dia em que fomos ver a casa. Eu, minha mae e mais um homem. Sim, meu pai estava ali alugando o local onde moraríamos por algum tempo. E depois voltou quando tudo estava pronto. Trouxe nao um mais muitos presentes, um de cada tipo. E assim acontecia por mais algum tempo, difícil lembrar minha idade, penso ser por volta de 7 ou 8 anos. Minha mae tinha pedido o desquite do Sr Sandor, e agora se enfiava de corpo e alma no seu antigo relacionamento. Quando penso nisso, acredito que ela se arrependeu pelo rosto da vida, pois trocou uma vida tranquila, onde era respeitada e amada, para uma vida atribulada com gritos, tristezas e violências domesticas. Ele tanto fez que conseguiu. Levou minha mae consigo para Carapicuíba. Alugou  uma casa de dois cômodos do Miguelão ao lado da antiga linha de ferro Sorocabana, uma pequena casa de dois cômodos, dormíamos todos juntos no mesmo quarto. Minha cama era encostada na parede. Eu tinha um sonho que me acompanhou durante muito tempo ate depois dos meus vinte anos, eu e minha mae andando por um rio cheio de pedras onde mulheres lavavam roupas e minha mae se equilibrava comigo no colo pedindo licença as lavadeiras, uma nao deu e minha mae teve que ir por pedras pontiagudas. Minha mae nessas noites trazia para perto de mim uma santa branca com um manto azul, fazia uma oração e pedia que eu olhasse para ela eu olhava e dormia. De resto lembro das brincadeiras com os filhos do dono da casa que moravam no mesmo quintal. Esconde esconde, bolinha de gude, amarelinha, a minha preferida e a continuação dos estudos agora no SESI. Ali nao havia sinais de brigas, exceto uma vez que meu pai em sua crise de Sansão, quebrou o portão da entrada que nunca foi concertado, ficou da mesma forma ate quando partimos para outra casa. Minha  mae trabalhava em sua maquina de costura o dia todo costurando lenços para meu pai vender na feira e tinha também os guardas chuvas que chegavam aos montes, eu tirava as etiquetas que mostravam o endereço de onde foram comprados. Como criança eu odiava pois parecia que aquilo nao tinha fim. Meu pai nunca entrava pela estação quando ia as compras de material  no centro de São Paulo, corria pela linha do trem no espaço vago. Eu ficava um aflita torcendo para que o maquinista esperasse. As vezes ele esperava com pena daquele homem. Naquela época esses lugares nao eram fechados, nao havia seguranças. Eu sentava nos degraus que levavam a linha do trem e ficava olhando aquele vagão de madeira com aberturas ali parado, olhava para aqueles montes de bois e vacas amontoados uns aos outros sendo levados para o matadouro do quilômetro 21. Tinha pena deles mas nao imaginava que todos seriam mortos, se sabia, nao havia sentimento em mim de pesar. O pesar existia nos olhos dos animais. Quando parava um vagão vazio eu subia em cima e ia com ele um pouco mais a frente, ate quando ele tomava certa velocidade e assim eu pulava. Quando minha mae começou a trabalhar na biblioteca no SESI e abandonou as costuras Tia2, nasceu. Eu cuidava da Tia2, eu preparava sua comida que minha mae deixava. Ia buscar caldo de feijão fresco que Dona Santa cozinhava e dava a ela com arroz que mae havia deixado. Nao sei como consegui cuidar de uma criança com menos de um ano. Foi então que devido as economias dos dois foi possível comprar uma casa na Av Cacilda. E assim mudamos. O portão de entrada era de madeira e o chão era de terra ate a entrada da casa. A casa era de tijolo sem laje, com madeira e telhas. Nao existia a janela comprida na frente e nem as venezianas de ferros no quarto na sala. Nos fundos da casa tínhamos como vizinhos a família Patrinhani, terreno dividido com um muro de madeira e eu depois de fazer amizade passava por ela para ir na casa dos meus novos vizinhas que tinham como filhos tres rapazes que eu costumava chamar de Huguinho, Zezinho e Luizinho os tres personagens sobrinho do Pato Donald. Eles tinha uma avó. Avó Georgina. A casa foi mudando de figura, foi construído dois quartos de madeiras no fundo onde guardávamos coisas. Um desses quartos foi uma vez alugado para o Luiz mecânico. Minha mae havia saído da biblioteca do SESI e se tornou feirante para meu pesar. Ela e meu pai trabalhavam na feira. Meu pai bebia muito e as brigas eram grandes, meu pai costumava carregar um revolver e deixar na mesa quando elas aconteciam. Uma vez minha mae saiu de casa e levou todos nós, fui digitar nós e digitei dói porque dói mesmo. Fomos com ela, fomos parar em uma casa de uma vizinha que estava sem inquilinos. Era no terreno do seu Dede casado com dona Marli. Eram dias negros com uma sensação tão estranha de dor, tristeza, solidão. Mae acabou voltando. E tudo continuou na mesma. Trabalho gritos e brigas. Eu estava crescendo, ficando mocinha, como falamos no Brasil.  Nao sei se a Tia1, havia nascido, sei que a noite dormindo no beliche na cama de baixo, na sala, onde fazíamos de quarto, sentia uma mão forte pesada mexendo em minhas partes genitais, lembro que eu tirava a mão, mas ela voltava, descaradamente voltava. Por algumas noites se repetia, duas, tres, então tendo certeza, nao era um pesadelo ou era? Contei a mae e ela fez o que deveria fazer. Chamou a atenção dele da forma que deveria fazer e nao deixou barato contou para as amigas, desabafou com Lourença e outras da rua, com sempre fazia para contar seu sofrimento. 
Mae e vó Georgina

Então chamou a avó  Georgina que gostava de ir em casa costurar, para  dormir comigo. Eu mijava na cama, e acordávamos toda molhadas. Era uma fase estranha. Uma rua sem asfalto, uma casa construída em cima de uma valeta a céu aberto onde eu via as aguas escuras correrem. As mesmas aguas que acompanhavam meus sonhos, estranhos sem sentido e amedrontador.  Mas havia um lado bom. Havia os livros que eu já havia tomado gosto por eles. As mil e uma noites, Sherazade e seu príncipe árabe. Havia a serie papai sabe tudo e o mundo submarino de Jacques Cousteau. Minha mae contava sobre os livros que ela tinha lido. Todos de Jose de Alencar, Iracema, era o seu preferido e falava muito do livro, A pata da gazela. Anos mais tarde fui ler Iracema e nao consegui, achei muito triste. Havia também a fileira de formiguinhas pretas em fila indiana que corria pela parede perto da pia de lavar louça eu ficava olhando para elas, e ate mesmo com o dedo desviava o caminho delas e ocorria um alvoroço. A casa foi mudando foi construído um quarto no fundo e depois mais um em cima, A casa de telha foi substituída pela construção de uma laje. O Tio3 assumiu o quarto nos fundos e lá fez seu quartel general, trabalhava como eletricista, amava musica clássica e com ele eu aprendi a maravilha que são essas sinfonias. Foi naquele mesmo quarto que durante uma briga com meu pai, Tio3 com um pedaço de pau quebrou a cabeça do pai. Como a mae sempre recordava o fato aos quatro cantos da terra eu nunca esquecia. Era noite logo após os gritos entrei e vi um homem de camisa vermelha enxugando com um pano branco o sangue que escorria. Nao foi possível mais esquecer isso, pois esse assunto sempre vinha a tona e doía. Muitas coisas começaram a doer e eu precisava fugir. Na época eu percebia que existia a dor mas também existia a alegria enquanto eu deitada no chão do quintal olhava as nuvens e via elas se transformando em coelhos gatos e cachorros.  Cachorros, sim havia cachorros em casa e meu pai mantinha relações com eles, minha mae ficava apavorada. A neta mais velha um dia presenciou. A mae por varias vezes, os parentes sabiam, os vizinhos sabiam. Eu cresci, as coisas foram mudando, fui fazendo um caminho de aprendizagem com erros e acertos. Tinha vergonha do meu pai. Quando eu estava em uma rua e de longe via ele com seu andar rápido e seu chapéu vermelho eu atravessava a rua e seguia por um outro caminho. Mas isso terminou. Foi um dia andando pela av Rui Barbosa quase perto do colégio, comecei a conversar com Deus e pedi a ele que me ajudasse a compreender aquele homem, que tirasse do meu coragem a vergonha que sentia de ter ele como pai. Foi uma oração sincera de coração, eu nunca pedi nada a Ele que nao fosse sincero, sem segundas intenções, sem barganha, mas sim de coração. E ele me atendeu de forma tão plena, tão magnifica e colocou em meu coração o amor o respeito e a consideração. E eu o entendi como ser humano, fraco e imperfeito. Nunca soube se tinha estudos, ou ate que ano foram. Nunca soube quase nada, exceto o que eu comecei a ver quando na época de aprender a ler ele entrou na minha vida e novamente na vida da mae. Um pouco da historia dele que sei é  que ele veio para São Paulo e se instalou na rua  Helena Zerrener. Nunca esqueci esse nome pois o pai se gabava de ter um apartamento nessa rua. Durante anos existia contas de luz na casa com esse endereço. Mas era criança demais para ir constatar em que nome estava. Nao sei se o irmão mais velho percebia coisas. Só sei que a situação instalada desde quando a mae deixou um casamento certo e entrou em um relacionamento incerto, tiveram novamente dois filhos mas nunca se casaram, e ele abandonou minha mae em 1972, para viver com uma mulher que conheceu, como muitas outras que conhecia. Além de se tornar uma usurpadora de tempo e economias que poderiam ter sido usados para a educação representou a vida toda ser uma mulher de bem. O medico no verídico de sua morte no hospital vida, foi muito claro ao dizer quais os motivos daquele homem nao ter mais nenhuma chance de sobrevivência, fazendo cair por terra os cuidados, a qualidade de vida e o bem estar que ela proporcionou aquele homem durante 37 anos ou mais. Mas era isso que o pai alegou quando largou a mae, Disse que encontrou a mulher que cuidaria dele. Talvez tendo como base isso. Quando um dia pedi ajuda, pois o pai estava muito mal, a Tia1, ela retrucou dizendo: Foi a vida que ele escolheu.


Com a mae eu nao tive chance foi tudo muito rápido. A religião dela nao permitia que eu chegasse perto dela e eu também havia dado motivos para ela se afastar de mim. Ela dizia que tinha medo de mim. Eu nao seria capaz de fazer mal nenhum, talvez o que a assustava era a coragem que existia em mim. Se ela tivesse analisado melhor veria que todos seus filhos eram muito corajosos e algumas vezes cruéis e covardes. Quando analiso a escolha de minha mae, percebo que como outras, fez a escolha errada, trocou o certo pelo duvidoso. Quando o pai veio para São Paulo havia deixando-a para trás, e ela, na primeira oportunidade que nao sei como se deu, tentou refazer a sua vida encontrando alguém e casando com um húngaro. Um homem com uma educação diferenciada, que deveria dar valor ao estudo e nao deixaria sua mulher e prole ao deus dará. Como ela deve ter se arrependido. As lagrimas derramadas tinham motivos imensurável. A dor saia do coração e parava em outros órgãos essenciais para a sobrevivência.  Mas ela tentava sobreviver e nos momentos de felicidades acontecia quando ela cuidava de seu pássaros uma arara que ela amava e o papagaio Calebe que nunca aprendei a dizer louvai a Jah mas aprendei o que o Apoena filho nao declarado do meu, em sua única e ultima vinda para São Paulo ensinou: "Vai tomar no c*". O pai tem também uma outra filha no Ceara do qual havia prometido uma casa e nunca deu, tanto que ela nunca quis ver ele vivo ou morto. Interesses e nao amor que nunca foi dado. Sim, a mae tinha seus gatos, seus cachorros. Sim havia cachorros e o pai era praticante de zoofilia. Esconder o sol com a peneira? Como esconder um fato que nunca morreu de mentes? A mae tinha visto e a neta também, se os outros membros viram nao sei, pois nunca perguntei, era um assunto que incomodava. A vizinhança mais próxima sabia, pois afinal a mae fazia questão que soubessem para provar que o homem nao era tão santo assim e moral nenhuma. Claro que no fundo existia na mae um arrependimento do tamanho do mundo, mas o que fazer quando nao há retrocesso? Nada exceto suportar e tornar aquilo, como lição, e tentar ser uma pessoa melhor principalmente consigo mesma, cuidar da sua dor. Embora nao tenha feito da forma correta. Mas quem faz? E assim  sozinha em terra, começou a viver com o objetivo espiritual uma esperança celeste e nao terrena. Deixou de cuidar de si de seu corpo, nao se preocupava mais em ir ao medico, usava somente os remédios já receitados, de pressão e de diabetes. Mas como ajudar alguém que construiu muros de silencio diante de si? Como ajudar alguém que nao saiu pedindo ajuda quando seu estomago começou a doer. Havia se isolado em uma casa que nunca batia sol, casa que precisava de uma limpeza. Nao tinha tempo para si mesma que dirá para casa. E quem ela confiaria para entrar ali e colocar em ordem as comidas do bichos suas roupas, limpar sua geladeira, seu banheiro. Eu nao podia me aproximar pois a ultima vez que fiz isso fui acusada pelas Tias1 e 2 e com aviso ao Tio3 de que eu havia chamado o hospício. Queria leva-la para o hospício. De onde tiraram essa ideia? Em uma época que hospício nem existia mais.  Elementar meu caro Watson. Precisavam de um culpado para o desprezo que davam a senhora suas mae. Depois de saber e ter visto em sua geladeira, garrafadas de remédios feitos pelos índios que ela comprava na Praça da Se, e achar um absurdo e vendo que os outros tres nao se importavam, só comentavam, conversei com um vizinho próximo que ainda vive o que poderia fazer e ele disse: Chama o SAMU! E eu chamei, talvez ali estivesse a chance dos médicos descobrirem qual a causa de sua dor de lado, sua depressão e outros maus que nao sabíamos. Quando a ambulância chegou ela fugiu correu para dentro de casa. Tinha medo dos jalecos brancos, tinha medo do câncer desde o dia, anos atrás quando descobriu um caroço no seio que na época foi diagnosticado e tratado como inofensivo. A ambulância foi o estopim para eu ser definitivamente riscada do mapa familiar, nao pelo pai, mas pelos outros tres familiares. A mae continuou com sua garrafadas de ervas feitas pelos índios e aprovado pelos outros membros da família que diziam se importar. Algum tempo depois, um ano, talvez, quando os órgãos já estavam totalmente comprometidos, foi ao medico, levada pela Tia1 que saiu do seu palacete na Espanha, e o medico disse que nao havia mais nada para fazer.  Antes de retornar a Península Ibérica a Tia1, deixou uma ordem com sua sobrinha que estava com ela e com Crizeida a vizinha eleita pelos moradores da rua como cuidadora dos pobres e oprimidos a ordem era: "Eu estava proibida de ver a mae". Crizeida com seus princípios morais e espirituais,  nao seguiu essa ordem e eu fui ver a mae, estava branca, magra, nao tinha mais expressão de dor ou alegria estava entregue, fiquei algum tempo, cortei suas unhas e fui embora. Durou uma semana. Tia2 devia estar viajando, correndo com o marido em sua corrida de sucessos. Nao escondia a vergonha que sentia da mae. E de todos do local originário. Um dia quando a mae foi visitar o seu segundo neto em Pinheiros foi recebida com: "Toma banho, a senhora esta cheirando a galinha" Nao, nao era galinha, era apodrecimento dos órgãos vitais. Interessante também que a mae nao esteve presente no casamento da Tia2 com o romano. Por qual motivo? Quanto ao Tio3, ele nunca visitava a mae, só ligava para pedir dinheiro. E se a mae nao tinha falava impropérios no telefone e a acusava de ter ficado do lado do pai no caso da paulada. Elogiava o Paulinho como pai, um morador do final da rua e dizia que quando tivesse filhos cuidaria bem deles e os levaria para pescar. Nao vou entrar em detalhes e dizer que Tio3 era a copia do pai no que se referia ao alcoolismo, a violência domestica com esposa e filhos principalmente o segundo filho, e um adultero. Nao visitava a mae e nunca perguntou o que faltava a ela. Por outro lado ia visitar a casa da sogra uma rua atrás da casa da mae. A mae ficava sabendo pela sogra muito sua amiga. A sogra dizia: "Fulano esteve aqui, com os netos". Esteve? Perguntava surpresa. Com meus netos? Então chorava e chorava e chorava. Uma vez? Muitas vezes, o filho, saia do seu reduto em um estado distante duas horas  de carro e nao visitava sua genitora. Veio no enterro para pegar as escrituras. O que mais poderia dizer?  Tantas coisas. 

A mae deixou meu amor por imensuráveis coisas: Os livros, Tolstoi, Dostoievski, Camus, Hemingway, Faulkner, os pássaros, os filmes de bang bang, as plantas, os cactos que ela amava e aqui tem de monte e nem é preciso molhar, nao morrem  e a musica que que ela cantava: "Livre nasci como a brisa". Sim hoje ela é a brisa que bate em meu rosto, a sinfonia que toca meu coração pois pela luz vinda dela, dada por intermédio do Criador eu posso ver a luz, nao somente as trevas que mata mas a luz que renasce, fazendo de mim uma pessoa reflexiva, cujo seu grande medo era nao ter onde morar ou o que comer, travando uma luta honesta para comigo mesma, diante de uma fuga, para descobrir a essência de existir. E os anos foram ensinando a ser uma pessoa melhor e a cuidar de outros necessitados, e recusar participar,  ser cumplices de  fins sutis, insidiosos, maquiavélicos. 

In Memorian a mae lua





California 14.09.2026

MarciaMesquita
MarciaLailin
MarciaPayne - 

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