As mãos do meu pai

 


Eu já tinha esquecido como eram suas mãos, alias eu já tinha esquecido muita coisa. Este ano de 2026 me fizeram lembrar. Tudo começou quando uma tia em troca de farpas com uma sobrinha no meio da avenida Cacilda depois de dizer:  "Bem que o Julio disse que você esta quadrada", se referindo ao seu corpo, pois embora sendo tia não se dava o devido respeito e mesmo estando entrando na casa dos sessenta anos com filhas amadurecidas para lhe dar netos, naquela manha, em uma rua de subúrbio fazia um escândalo, ali mesmo na calçada, para todos ouvirem. O banho que ela teve em 30 anos de Europa deve ter sido de lodo. Pois cultura era inexistente. A mesma pessoa que ao sair do Brasil declarou em uma espécie de  máxima para os que aqui ficaram: "Tenho certeza que os demônios moram no Brasil". Para alguém que só teve cabeça para dissertar sobre a vida da Xuxa e trocar receitas culinárias ou assuntos triviais, embora vez ou outra surgiam também assuntos humanos como a criação dos filhos, o marido italiano que envelheceu fez cirurgia da próstata e se tornou incapaz de cumprir as obrigações maritais, e as doenças oportunistas que a idade traz para uma mulher, tudo era dito. E a tia tinha prazer em conversar com a sobrinha, e a sobrinha também. A mae da sobrinha nao tinha ciúmes, considerava algo de bom grato, pois se entendiam como família. O que aconteceu com o tempo? Briga por causa de herança, tirar da sobrinha seu meio de sobrevivência, tirar da que nao tem nada, o pedaço de terra em que ela vive com seus tres filhos e seu companheiro. Pedaço de terra que seu pai daria ao avo de sua sobrinha de bom grato. Pois daria de bom grato. Tanto faria que fez o que pode por sua filhas e amava seus netos, se alguém achava que era melhor que o outro isso estava entre tres dos filhos e nao essa que hora escreve. E assim as desavenças se fez e tudo se perdeu no final da existência dos filhos. Então eu me pergunto. Que fim levaram os que brigavam, os que criavam desavenças por ninharias sendo que nao era preciso? Os que viveram no século XX e hoje estão Mortos? Os que viveram no século XIX e hoje estão mortos? Para onde foram suas terras? A quem pertencem hoje? Para onde irão esses que ora  trazem consigo a dor de uma infância, adolescência e escolhas mau resolvidas? E nao percebem que os que ficam ainda tem uma chance de caminhar para um entendimento, uma aliança de paz e conciliação? E perceber que o sistema as situações acarretadas durante toda uma existência, esse mal estar de viver uma vida mal resolvida devido nossas imperfeições ocasionam tanto transtornos para pais, filhos e netos?  

Eram faladas palavras que feriam e eram ouvidas naquela manha com testemunhas em toda rua e com pessoas que passavam. O ponto alto da baixaria aconteceu quando a surgiu o assunto de que o pai de uma e avô de outra, há exatos 17 anos morto,  foi um praticante de zoofilia e abuso de menores. Foi com esses dois temas que todo um passado veio a tona. E assim entre uma baixaria e outro foi mostrado o que tinha dentro de coração, uma vida mal resolvida, cheia de ressentimento, mostrando que ate as migalhas de um subúrbio, transformou-se em motivos de discórdia mostrando que as vidas dos tres continuavam como sempre foram: Mal resolvidas emocionalmente, sempre procurando um outro para acusar, e nenhum dedo para acusar a si mesmo, por que o conhecimento de si próprio a verdade de si mesmo dói, incomoda, a viagem para o interior nao é para todos é  para os fortes. E assim ressuscitou dentro de mim as mãos do meu pai. As mesmas que eu vi durante dois anos, nos dias em que trabalhei com ele em uma banca concertando panelas. Naqueles anos eu já o tinha perdoado.


As mãos do meu pai seria as mesmas que as minhas? Olho para elas e encontro alguma semelhança. Seriam elas todinhas? As da minha mae eram diferentes. Mais delicadas.  Diferentes da minha. Sendo assim devem ser iguais as do meu pai. Seriam elas também pesadas? 

No momento em que vivemos pensamos que ficara gravado os acontecimento minuto a minuto de nossas vidas. Mentira. Mal sabemos contar todo ele um mês após, que dirá toda uma vida.

Lembro da menina nos seus quatro para cinco anos, sentada em um avião, partindo de Fortaleza/CE, com destino a São Paulo. Sentada ao lado do seu irmão olhando as nuvens e depois pessoas pequeninas que  chamava de homenzinhos. Lembra do vestido que usava, parecia um vestido de festa, lembra  pouco da vida no Ceara, mas lembra. Lembra da casa onde vivia, dos dias chuvosos, dos pés de cajus, misturados a outras plantas. De uma casa grande de tijolos a mostra. Procurei uma foto no google, mas nao encontrei nenhuma que chegasse perto das minhas lembranças. São somente dois ou tres momentos registrados na memoria de toda uma vida.  E tem gente que diz que criança nao lembra. As crianças lembram, mas ficam para elas. São como os elefantes, lembram e nao esquecem. Conforme vamos crescendo as lembranças vão aumentando, conseguimos lembrar de um pouco mais, mas nao muito. 

Lembro da minha mae no aeroporto ela e um homem seu marido, sim ela estava casada, mas a criança nao sabia disso, só vim a saber disso depois da morte da minha mae quando tive acesso a seu registro de casamento. Minha mae nunca tocou nesse assunto. E eu como criança nunca perguntei quem era aquele senhor que me tratava tão bem. Andávamos nos tres pelas ruas lembro que um dia ele me carregou em seu pescoço, de cavalinho o nome que damos. E lembro que comprava para mim chocolate branco lacta. lembro da marca porque ficou gravado em minha mente aquele papel branco plastificado que cobria o chocolate. Também lembro onde morávamos. Era Domingos de Moraes, ali mesmo próximo ao local onde mais tarde vim a morar toda uma vida. Foram momentos tranquilos, de paz, sem tumulto, sem palavras impronunciáveis, sem tempestades. Depois como em um sonho em que nao lembramos como viemos parar nele sendo que estávamos em outro. Me vi de repente na cidade de Alumínio, sem nem saber depois que cresci como se deu a mudança. Sei que me encontrei naquela cidade tão charmosa, e minha mae trabalhando no hospital. Cidade construída pelo Sr. Antônio Ermírio de Moraes. Deveria sentir saudades assim como sinto do Porto. Devia reconhecer a cor dos dias, o vento fresco, a terra molhada.. Mas lembro sim, quando volto a mente quando fecho os olhos, vejo o jardim da frente da casa, com suas plantas, suas rosas e dentro da casa, ainda consigo medir o tamanho da sala, o sofá o quadro de crianças pregado na parede, aquele quadro  antigo onde eram fotografados com a mão no queixo. Vou novamente pedir ajuda ao google

Era a casa da senhora Lurdes que tinha duas filhas de nome Josy e Hilda. Posso ter me enganado com o nome da mae mas das filhas nao. Josy era a mais jovem. Tinha o pai e mais alguém que nao sei quem. A casa tinha tres quartos, sala, cozinha e banheiro. A mae era benzedeira. Benzia crianças para combater quebrantos ou mal olhado. Na sua cozinha tinha um fogão a lenha. Fogão em que todas as manhas Josy a filha caçula ao levantar subia no cimento vermelho do fogão e ali sentava para se aquecer. Tinha tanta vontade de fazer o mesmo. Mas pelo pouco que lembro isso nao era permitido. Dona Lurdes quando recebia uma mae com seu filho pegava um copo com agua e uma colher ia ate o fogão, tirava uma brasa, deixava cair dentro do copo, sentava perto da criança no colo da mae, fazia o sinal da cruz na testa da criança, depois uma oração que eu conseguia ouvir enquanto movia os lábios, depois com a colher pegava um pouco da agua do copo com a colher e dava para a criança beber.  Devia dar resultados pois as mães sempre retornavam. Meu café da manha era sempre um pão francês com mortadela e café preto, o almoço também devia ser algo tão simples quanto o lanche da manha. Lembro que tinha fome, mas a fome eu conseguia esquecer com a vida produtiva que criava para mim. Ia observar as plantas no jardim, ou então ia andar pelas quadras daquelas belas ruas, conhecia todas as casas, nao lembro de ter comigo uma companhia, exceto Josy a filha mais nova, brincávamos de casinha. Nossos brinquedos eram latas de conservas vazias, limpas e trabalhadas para nao terem cortes que nos ferissem. Tínhamos tudo que precisássemos de brinquedos elaborados para crianças daquela época. Josy tinha uma boneca de porcelana que dificilmente tocava, ficava na cristaleira. Quando ela pegava eu pedia para colocar em meu colo, queria tocar, ela mandava eu sentar e deixava por alguns minutos eu tocar, e eu tocava. Depois ela tirava de mim e colocava de volta na cristaleira e fechava com uma chave. Eu desejava ter uma, mas desejava ter assim como alguém deseja ter o vento.


Se conseguisse lembrar com mais detalhes, mas é tudo entrecortados como se tudo terminasse naquele momento. Nao sei se as lembranças de todos são assim ou se conseguem lembrar com mais intensidade do que eu. 










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