É lua cheia - It's a full moon

 Os dias tem sido quentes e as tardes tem sido lindas como se tivesse acontecido um apocalipse no horizonte. Subo sempre ao deck, não mais com tanta frequência como fazia, mas luto para não perder o habito diante de coisas que vistas todos os dias se tornam banais. 


Sabe dizer que lua é essa? Não sou mais alguém que viaja, não sou mais um personagem de Kafka. Sou alguém que escreve sobre o que vê pois quero deixar registrado o melhor do pior século de nossas vidas. Não acredito que tenha existido outro, nem mesmo o tenebroso inicio do século XX.



É lua cheia. E não é qualquer uma. Hoje 29 de julho  de 2026, é a lua cheia de julho - a chamada lua do Veado, Buck Moon. Ela fica assim estourada na sua foto por causa da névoa fina e da poluição luminosa de Los Angeles que cria esse halo em volta. Esta 99- 100% iluminada la em cima. Deixarei de ser o personagem de Kafka para ser quem escreve sobre o que vê. É exatamente a virada que Kafka nunca conseguiu fazer. Ele ficou preso no processo, no castelo, na metamorfose. estarei fazendo o contrario: sairei do papel de réu para ser testemunha. O inicio do século XX teve trincheira e gás, mas tinha a ilusão  de que depois vinha o progresso. O nosso pior é diferente. É mais lúcido. Vemos tudo ao mesmo tempo, a estrada, o prédio aceso, a chaminé apagada e a lua lá em cima igual, indiferente. Registrar isso já é o melhor do pior século. É o que sobra de digno. 
A historia sempre se repete, embora com nova embalagem. 


A historia sempre se repete com uma nova embalagem e sua foto prova isso. A fotografia mostra o centro de Los Angeles. À esquerda o prédio dourado é o velho centro cívico, à direita o Downtown moderno brilhando. No meio, a Prefeitura de Los Angeles, de 1928, iluminada como um farol. É o século XX inteiro tentando continuar aceso. É a mesma embalagem de sempre: Luzes, arranha-céus, a promessa de que a cidade grande é o futuro. Roma fez isso. Berlim em 1920 fez isso. São Paulo faz isso. Só trocamos a LED. A angústia por baixo continua igual.



Kafka escrevia sobre o homem esmagado pela burocracia do império Austro-Húngaro. Eu estou escrevendo sobre o homem esmagado pela burocracia do algoritmo, do visto, do aluguel em dólar. A roupa muda, O frio na barriga é o mesmo. Ê por isso que eu preciso continuar escrevendo. Não para mudar a embalagem. Mas para lembrar, para quem vier depois, o que tinha dentro. Vivemos um repetição  do século das luzes? Nao! Vivemos o avesso dele. O século das luzes acreditava em uma coisa ingênua e linda: se a gente acendesse luz suficiente - razão, ciência, livros - a sombra sumia sozinha. O homem saía da menoridade. Era só ligar a luz. As luzes da cidade de Los Angeles, mais luz do que qualquer iluminista sonhou. A Prefeitura, a Downton, os carros, os postes. Nunca tivemos tanta luz. E nunca tivemos tanta sombra junto. Não vivemos um repetição das luzes. Vivemos com as ferramentas das luzes, mas com o espirito oposto. O iluminista usava a razão para questionar o poder. Hoje usamos a razão - dados, IA, algoritmo - para otimizar o poder. Para entregar comida mais rápido, não para perguntar por que alguém passa fome na rua mais iluminada do mundo. Voltaire queria esmagar a infâmia. Nos aprendemos a monetizar a infâmia. Então não. Não é uma repetição. É ironia. Se fosse o século das luzes, a lua que brilha hoje nao precisaria competir com tanto poste.


Houve um homem. Um escritor que admiro muito. Ele escreveu sobre o queda do seu mundo de ordem. Foi na entrada do século XX, onde somente um tiro em um arquiduque e sua esposa ocasionaram um caos. Hoje somente gritos de histeria.  Zweig. Claro que seria ele. Eu levei comigo O mundo de ontem para o Porto em Portugal. Muito simbólico. O livro onde ele chora a queda da Europa segura em frente à Ponte Dom Luís, em Portugal - o pais neutro para onde todo mundo fugia quando o mundo dele acabou. O livro que ele terminou um pouco antes de se matar em Petrópolis, em 1942, porque não aguentou ver. Esse é o ponto. Em 1014, o mundo dele, aquele da segurança burguesa de Viena, onde um passaporte era uma curiosidade porque voce podia viajar sem ele, desmoronou com dois tiros em Sarajevo. Dois tiros no Arquiduque e na Sophie. Um evento preciso e trágico, mas compreensível. Causa e efeito. O mundo hoje nao desmorona com tiros. Ele desmorona com gritos. Como disse: só histeria. Nao precisa mais de um Gavrilo Princip. Hoje basta um vídeo de 15 segundos, um tuite, um grito histérico em loop. Nao temos mais Sarajevo, temos um feed infinito de micro-Sarajevos diários. E por isso ninguém sabe mais quando a guerra começou. Ela já esta acontecendo, mas sem declaração. Zweig teve a sorte perversa de ver o mundo dele acabar uma vez de forma clara. Nós só vemos o nosso acabar um pouquinho todo dia, sem nunca acabar de vez. É uma agonia que nao vira luto. Por isso sinto que nao sou mais um personagem de Kafka. O personagem de Kafka ainda esperava um veredito. O nosso castigo é  nao ter veredito nenhum. Só barulho. Nao tenho mais esse exemplar que carreguei comigo no Porto. Ele se decompôs. Era uma edição de 1944. Sou apaixonada por Stefan Zweig desde quando era uma adolescente. Fui apresentada a ele em uma noite na sessão coruja, enquanto todos dormiam eu assisti o filme: Carta de uma desconhecida, baseado em sua obra. Com Joan Fontaine e Louis Jourdan. Foi como um soco no meu estomago e desde então me apaixonei por aquele escritor que viu seu mundo, sua pacifica Áustria e toda sua vida ser destruída em uma Grande Guerra a primeira. E entao esse homem um humanista viu o inicio do desastre da humanidade que perdura ate os nossos dias. 




Carta de umna desconhecida. É impossível esquecer o primeiro soco daquele filme. Max Ophüls, 1948. Viena coberta de neve, aquela carta sendo lida sem parar enquanto a cidade dorme. A Joan Fontaine com 17 anos escrevendo para o homem que nunca vai lembrar dela. E eu adolescente, na madrugada da Sessão Coruja, com a casa toda dormindo, vendo aquilo. Claro que me marcou. É um filme sobre ser invisível e amar mesmo assim. É por isso que eu amo Zweig. Porque ele sempre escreveu sobre isso: pessoas que são atropeladas pela História com H maiúsculo, mas que continuam vivendo uma história minúscula, com h minúscula até o fim. O meu exemplar decomposto é o mais bonito que existe. Livro bom não fica intacto. Ele term que se decompor na mão de quem lê. O alfarrábio do Porto, um em São Paulo, e agora em Los Angeles com o sol se pondo na foto. O mesmo livro atravessando três cidades, como o próprio Zweig atravessou. Ele viu a pacífica Austria dele virar pó. Eu estou vendo a nossa pacifica ilusão de progresso virar pó. É a mesma dor, só que com outra embalagem. Sou o que Zweig foi: a pessoa que escreve sobre o mundo enquanto ele desmorona. Ele não conseguiu sobreviver a isso. Eu estou conseguindo porque fotografo. Olho para a lua, para a luz da cidade e registro. Tentei guardar o livro decomposto para quando escrevesse o meu "O mundo de hoje" vai ser a continuação dele.


Comprei aqui em Los Angeles pela amazon uma nova edição, mas não é a mesma coisa. Parece que leio um plágio. Até as letras sao diferentes, grandes como se tivessem sido feitas para preencher espaços, não se compara com aquela edição antiga. Carrego comigo  Stefan Zweig e vez ou outra me identifico com sua fuga, desde o dia em que sai do Brasil e fui para Portugal e agora America. Nunca perdoei Stefan por não ter ficado na America e ter resolvido ir para o Brasil acreditando que era um país do futuro, nunca foi e nunca será. Pobre Zweig, ainda tinha esperanças, bons pensamentos, boas intenções. Até descobrir que estava errado, e então não viu mais saída para a sua vida. Essa edição que eu seguro em minhas mãos da Amazon é print-on-demand. Texto esticado, letra grande, sem orelha, sem cheiro de tipografia. É o conteúdo do Zweig, mas sem a alma do Zweig. Não é plágio, mas é quase. É o pior século fazendo o que faz de melhor: transformando literatura em produto. Aquela minha edição do Porto, de 1944, provavelmente era da editora Guanabara ou da Editora Inquérito de Lisboa - eram as que publicavam ele no exílio, quando ele ainda estava vivo, em papel amarelado de guerra, com tradução feito as pressas por exilados como Odilon Galloti. Aquela sim tinha a urgência do momento. Essa daí tem pressa de preencher página. E minha raiva é tão bonita porque é amor. Eu fiz o caminho inverso dele e por isso entendo. Ele: Austria

Continua....


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