A rapidez com que esquecemos é assombrosa
Por isso carrego diários
💙
The speed with which we forget is astonishing.
That is why I write things down in notebooks.
No inicio eu achava estranho e ate sentia incomodo quando alguém nao me cumprimentava, hoje acho um alivio. Afinal, nos acostumamos. Nao cumprimentar alguém que passa, seja um conhecido ou desconhecido nao era visto com bons olhos, era um ato de gente mal educada, hoje ninguém mais se importa e tanto faz como tanto fez. Pode ate ser o vizinho do lado. Afinal ninguém tem obrigação ou dever. Por acaso ninguém seria todo mundo? Será? Minha mae vivia dizendo que eu nao era todo mundo. Então eu sou ninguém!. Fico aqui pensando com meus botões...

Folheio minha agenda do ano de 2008, suas paginas tem cheiro de mofo. Com ela vou descobrindo quem eu era naquele ano. Se nao tivesse escrito nao saberia. Como alguém pode viver sem saber o que fez, o que sentiu, com com quem conversou há mais de dez anos atrás? Vivendo. Mesmo sem ler sei que passei por ele e agora ao olhar a primeira pagina descubro que foi o ano em que eu frequentava uma escola chinesa. Logo no inicio encontro uma frase que diz: "Temos que insistir em coisas difíceis e as vezes cansativas, fazendo esforço especial na perseverança" Logo abaixo as anotações de frases em mandarim com seu significado em português. Nao esqueça que ao pronunciar deve ficar atenta aos tons, sinais em cima das letras. Eles mudam o sentido da palavra.对不起
Duìbùqǐ - Desculpa
Méishénme. - Nao foi nada
Fiquei cinco anos convivendo com os chineses. Aprendi meia dúzia de palavras, graças a essa convivência fui convidada a dar aulas em uma escola chinesa no bairro da Liberdade para crianças chinesas que tinham dificuldade com o português. Essas crianças estudavam no colégio adventista, foi uma época produtiva que acrescentou conhecimento de viver ao lado de pessoas de outra nação. E assim nunca esqueci as imagens daqueles dias e os sorriso das crianças. Só esqueci o ano.
Wǒ zhèngzài xuéxí zhōngwén.- Eu estou aprendendo chinês
Logo na folha seguinte encontro a seguinte anotação: ""Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para viver a vida que nos espera". Agora quando leio esse pensamento chego a seguinte conclusão: O que me movia era algo bem maior do que eu.
Nao havia muita coisa escrita na agenda de 2008, exceto que eu ainda me encontrava um tanto fanática, mas logo isso acabaria. Encontrei um nome e uma amizade que se desfazia logo no inicio antes mesmo de eu ter me enrolado nela. A única coisa que posso dizer e que na maioria das vezes as amizades com mulheres quando acaba, acabam mal, algumas muito mal. O tempo passa, os anos cobram o seu tributo e vida que segue com cada um seguindo a sua vida. "A Vanda foi embora", foi essa mensagem que escrevi para Adelaide. Depois de ler pediu o telefone dizendo que ela iria cobrar o motivo de sua fuga. Ricardo também pediu o telefone, outros nem ligaram, afinal, pessoas vem e vão. Eu me senti traída, mas hoje quando penso nisso, percebo que sinto atração por seres desamparados, inteligentes. Nao lembro como se deu, pois nao encontro nada mais anotado na agenda, nao nessa de 2008, onde tudo acaba no mês de julho e depois paginas em branco, embora eu lembro e saiba que um dia ela retornou e foi ai que a amizade desandou de forma definitiva onde nenhuma das duas conseguia olhar para a cara da outra.

Ao pegar uma segunda agenda percebo que é de 2018, dez anos depois. Essa esta completamente distante do fanatismo anterior, embora eu nao lembre de como foi o ano e qual acontecimento foi motivo de ser transcrito em algumas linhas. Algumas frase a esmo como essa: "Pobres nao tem atrativos" Fiquei pensando nisso concordando com a frase, lembrando dos que pensam assim e agem com desprezo. A distinção de classe é algo perverso. Tinha uma noção terrível do sentimento que habita a perversidade, dentro da família, da religião, da amizade. Por morar em um pais perverso, por assistir em redes nacionais os crimes e ações dos perversos e por ver ao vivo e a cores a perversidade subindo em escala mundial, o que fazer. E assim vou abrindo paginas e mudando de assunto... diante da impotência de quase todos diante dos fatos. Ser Perverso é comparável a alguém que cometeu um crime bárbaro, que elaborou, passando pelo processo inter-criminis, ou seja, o caminho pelo qual o crime precisa percorrer ate ser consumado. Igual aquele crime bárbaro que aconteceu e que você assistiu pela TV, em pânico, aterrorizada, com os olhos esbugalhados ouvindo o repórter dizer: Foi cometido com requintes de perversidade. Existem outros também sutis como a pata de um elefante como: A fome, violência domestica. abuso infantil e vitimas da guerra. Hoje existe algo novo tomando conta do mundo desde o inicio do século XXI, o fanatismo politico, juntamente com o religioso que era o mais conhecido. Com o grande numero de ateus surgido nas ultimas décadas, tornou maior o numero dos fanáticos políticos. Os dois tipos são uma desgraça nesse mundo.
Gosto muito dessa arvore. De todas é a minha preferida, pela sua monstruosidade, suas raízes. Ela tem um nome, e eu nao sei qual é. Estou com preguiça de ir procurar no pai dos burros, o google.
Gostava de ser como ela, com suas raízes fortes e profundas, mas nao tem jeito, sou pássaro. Foi isso que eu disse para uma mulher que disse que eu tinha que criar raízes. Nao satisfeita com minha resposta tentou dar um tiro de misericórdia perguntando quem cuidaria de mim na velhice. Nem liguei. Alguém ai ja viu um pássaro idoso mendigando cuidados? Nem eu. Ele simplesmente escolhe um canto se enrola e adeus. Vai voar em espirito em outra freguesia. Se eu fosse arvore ate que seria bem seria, mas sou pássaro. Coisa terrível é aprisionar um pássaro. Nao queiram nunca ser. Continuam sendo arvores.

Sobre o que você conversa? Sobre a vida, sobre a morte. Mais sobre a vida do que sobre a morte. A morte nao quero conversas longas. Embora esse assunto veio a tona depois da morte do L. Foi na hora do almoço que o assunto veio na pauta. Tomava o aperitivo quando novamente o motivo da morte do L. veio a tona. E de repente ele pergunta: Onde fica o Ariston? Eu tentando me esquivar, tentando nao ouvir o que tinha ouvido e mentir dizendo nao saber onde ficava geograficamente disse que ficava lá em cima. Para quem mora em um buraco chamado Pacaembuzinho, em homenagem ao Pacaembu, você já imagina algo olhando para o céu. Agora pensa em um homem sentado ali na minha frente, ateu, esperando uma resposta de acordo com a sensatez. Então ele perguntou se minha mae estava também estava no mesmo local. Já tinha ate esquecido onde estava minha mae. Nao fosse esse homem sentado ali na minha frente para lembrar. Mas é claro que ela nao esta lá, nunca esteve. Nao tem como um ser humano chegar em um ambiente daquele, que dirá uma pessoa que você ama. Mas ai lembrei que sim, seus ossos estão, seu corpo se decompôs naquele ambiente escuro e abafado. Então disse a ele: "Eu nao quero estar lá. Quero ser cremada". Ele concordou e disse que sim. Perguntei se ele gostaria que suas cinzas fossem jogadas na floresta. Ele disse que levasse para Portugal. No momento eu nao entendi. Depois pensei: "é o lugar em que ele nasceu". Mais tarde enquanto a tarde caia pensava: "Dizem que a morte é a única coisa certa nesta vida. Enquanto eu digo em minha lucidez, a morte é o acontecimento mais errado que existe nesta vida"
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Você foi a pauta do assunto e da pesquisa de ontem a noite. Precisava saber a causa da sua morte mesmo tendo ocorrido no ano de 2008 e hoje dez anos depois em 2018, conforme data anotado aqui na agenda. O que levaria um hospital a querer amputar a perna de alguém. Foi ai na curiosidade que cheguei ate o motivo: Uma bactéria multirresistente e nao pode ser controlada por qualquer droga vendida hoje no mercado. A bactéria Staphylococcus aureus resistente a meticilina antibiótico. Altera o DNA causando resistência a dois antibióticos mais comuns, geralmente administrado em conjunto em hospitais e etc... e etcÉ mortal em pacientes que já estão ou já estavam doentes. Tem aqueles que levam para casa a bactéria incubada dentro de si. Guillaume Depardieu foi uma vitima. Seu pai conseguiu processar o hospital pela morte do seu filho primogênito. Ele tinha seguro de vida. Podia. Teve estrutura para enfrentar a briga contra a máfia Hospitalar. Guillaume teve uma perna amputada devido a uma infecção contraída em uma das diversas operações pelas quais passou depois de um acidente de moto. Começaram amputando um dedo e depois foram subindo. Quando deu entrada no hospital em estado grave e os médicos optaram em amputar toda a perna, nao deu tempo, ocorreu o coma e para o óbito foi um pulo. Esse da foto. Se a ninguém interessa a mim interessa saber os sintomas e agressões do mal que nos rodeia. Ele tinha dois virus mortais adquiridos no hospital pós operação. Instalaram-se no pulmão, local úmido e preferido das bactérias.
Por que eu tenho que guardar esse colar que uma senhora parenta residente na Espanha mandou que fosse entregue a mim, em um ano de 1900 alguma coisa. Toda vez que o coloco olho de um lado para outro, então volto com o mesmo para o mesmo local em que estava, por anos. No inicio ficou pendurado no banheiro decorando os azulejos, agora esta junto com outros pendurados na porta do guarda-roupa. Sentimento estranho que sinto diante do colar como se fosse uma lembrança de alguém que nunca mais verei. É como um símbolo de um desafeto, de uma desavença de um tempo que nunca termina somente na morte tudo será perdoado
O sol que havia a mais de quatro horas sumido no horizonte ligado a sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosfera turva e acinzentada de um dia no fim de novembro daava de frente ao Hospital Santa Catarina onde eu avistava os sinos da igreja rodeada de pequenas flores que sombreadas pela pintura de Oscar Niemeyer e ao sul pela Casa das Rosas. Homens e mulheres caminhavam em pares ou solitários pela calcada da Avenida Paulista. Conversavam, sussurravam chamando uns aos outros pelo nome
"Entre o dia e o outro existe a noite no meio onde poderá resolver as questões que te aflige nesse momento" O que é liberdade? Além de um sentimento é uma ação! Hoje ao levantar deixei a cama por fazer, afinal ainda nao tinha lido as 12 regras para a vida de Jordan Peterson, e naquele ano ele ainda nem tinha surgido. Joguei minha caixa de brincos na cama e procurei um. Encontrei um que nao gostava e foi ele mesmo. Depois deixei tudo esparramado, pois nao sou obrigada. Coloquei um CD de Johnny Rivers e deixei tocar quase no ultimo volume, afinal estava pagando na mesma moeda aquilo que meus honoráveis vizinhos fazem comigo tarde da noite, um tormento, com qualidade de musica duvidosa. Antes de sair ainda dei umas rodopiadas ouvindo Johnny cantando Califórnia Dreams. Talvez o dia e a musica fosse um pronuncio de uma vida que iria ser construída no futuro. Devemos sempre dar uma olhada para o passado para ver onde ele se ligou com o nosso futuro que ora vivemos e quais foram as mudanças, moral, emocional que fizemos para que isso acontecesse. Fechei o saco de lixo e deixei na porta, afinal hoje é o dia dele. Ia caminhar ver as pessoas caminhando procurando coisas nesse dia 21 de dezembro faltando, faltando quatro dias para o natal. O único dia do ano em que encontram um motivo para reunir familiares, amigos e vizinhos solitários. Em suma é isso, me tornei nesse dia dona do meu nariz. Deixei minhas pegadas no chão da cozinha e migalhas de pão esparramadas sobre a mesa. Nao era obrigada. Agora vamos ficcionar um pouco a historia... Afinal os nomes precisam ser mudados
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Desde quando Macabeia deixou o emprego na casa de Dona Maria Rosa, já nao ouvia mais a voz da patroa idosa e doente atrás de si passando as mãos nos moveis a procura de um resquício de po ou tirando a manta da cama para ver se o lençol estava esticado sem nenhuma dobra, da mesma forma que fazia no hotel em que trabalhou como camareira toda vida. Macabeia nao era camareira, era uma colaboradora e estava ali para ajudar aquela senhora idosa. Hoje vez ou outra, em meu silencio ou na cama enquanto espero o sono profundo, escuto a voz de Maria Rosa dizendo: "Se é para fazer mal feito deixa que eu faço. Nunca disse nada, nunca retruquei e nunca sai batendo as portas. Conseguia entender o tormento mental daquela mulher, uma idosa além do peso que mal conseguia carregar seu corpo que dirá sua mente consumida pela obrigação durante anos para se manter e para se aposentar em total destruição. Nao somente sofria de transtorno obsessivo compulsivo por limpeza, mas também de esquizofrenia. Sua medica dizia que seu fim seria uma cadeira de rodas. Infelizmente nao foi esse. Seu fim foi o hospital Magalhaes Lemos no Porto, o único hospital central especialista em psiquiatria e saúde mental da rede de Serviço Nacional de Saúde (SNS)
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Lembrei de Maria Rosa hoje por causa do meu desleixo, sempre que arrumo uma casa, escuto a voz e vejo a imagem de Maria Rosa, andando com dificuldade, fumando e falando como se existisse uma vitrola dentro de sua mente. Lembrei também da primeira casa em que ela morou em Lordello no Porto atrás da Igreja no bairro das Condominhas, foi ali que
eu a conheci...
Foi assim o meu dia. Nao abri um livro, nao li o jornal do dia, nao varri a casa, sequer almocei ou tomei agua. Tao pouco olhei para as pessoas que caminhavam nas ruas, nao queria lembrar deles nem mesmo em fotos. Nao porque estava de mau humor ou era indiferente, mas preferia nao ver, já que tinha que esquecer. Percebia que de agora em diante teria que esquecer muita coisa. Se foi meu destino contar essa historia tão breve, resumida, o caminho foi longo e a alma queria
Foto da igreja católica em Lordello no bairro das Condominhas/Porto
MarciaLailin
MarciaMesquita
em 26.04.2026 em Los Angeles - CA
Escritora dos dias e das almas aflitas
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